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Correio Braziliense

A um passo da vacina contra a malária

Proteína descoberta por pesquisador brasileiro da Universidade de Nova York serve como base da substância que está em fase final de testes em Moçambique. Previsão é de que a primeira dose de imunização de uma doença parasitária no mundo esteja disponível em 2011


postado em 08/04/2010 07:00 / atualizado em 08/04/2010 01:43

Em todo o mundo, são 300 milhões de novos casos a cada ano, que causam 1 milhão de mortes. Esses são os números que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), estão relacionados à malária, doença que deixa pelo menos 60% da população mundial vulnerável. No entanto, esse quadro pode mudar drasticamente a partir do próximo ano. Uma proteína descoberta pelo cientista brasileiro Victor Nussenzweig, pesquisador do Departamento de Patologia da Escola de Medicina da Universidade de Nova York, é a base para uma vacina contra a doença que está nas últimas fases de testes. Se tudo correr como esperado, já em 2011 ela estará pronta para o uso. Nussenweig participou, entre 1960 e 1964, do grupo que discutiu as diretrizes filosóficas do que viria a ser a Universidade de Brasília (UnB).

Depois de, aproximadamente, 30 anos de pesquisa, o estudioso conseguiu isolar a molécula formadora da proteína circunsporozoíta. Essa substância reveste os causadores da malária, os protozoários do gênero Anopheles, e impede que os anticorpos dos seres humanos consigam penetrá-los e combatê-los. “Pelo menos metade das oito vacinas que estão sendo desenvolvidas atualmente para a doença utilizam a proteína circunsporozoíta. Conseguindo vencê-la, fica fácil prevenir a doença ”, conta Nussenzweig. “A que está mais avançada já passa pelos últimos testes antes de estar pronta para o uso. Já fizemos testes com adultos e jovens. Nessa fase, serão cerca de 20 mil crianças de Moçambique imunizadas”, explica. O pesquisador espera que o resultado seja semelhante aos já obtidos. “Até agora, a vacina teve 60% de eficácia, por um período de 18 meses. Ainda não é o ideal, mas já é muito, se considerarmos que se trata da primeira vacina contra uma doença parasitária a ser desenvolvida no mundo”, afirma o professor, tido como forte candidato ao prêmio Nobel de Medicina. Outra tentativa de aperfeiçoar essa vacina vem sendo desenvolvida nos laboratórios da Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro. Os pesquisadores cariocas estão tentando utilizar a combinação da proteína circunsporozoíta com a vacina de febre amarela já existente, potencializando assim o efeito contra a malária. Um dos problemas que impedem o controle da malária está no fato dela estar associada a lugares pobres e pouco desenvolvidos. Atualmente, 109 países, a maioria na África, têm mais da metade de sua população infectada pela doença. No Brasil, 79% dos casos estão localizados na Região Amazônica. No entanto, nem sempre a situação foi assim. O pesquisador Victor Nussenzweig lembra que países desenvolvidos já tiveram problemas com a doença. “A costa americana já sofreu com a malária. Na Itália, no século 18, os cardeais se recusavam a participar das escolhas de novos papas, pois o índice de morte pela doença no verão em Roma era altíssimo”, conta. Segundo ele, essas regiões só conseguiram controlar a doença depois de investir pesado em saneamento básico, o que eliminou os insetos transmissores. “Atualmente, esse tipo de controle se torna difícil, já que a malária é predominante ou em países pobres da América Latina, África e Ásia, ou em regiões de floresta, onde simplesmente não é possível eliminar os criadouros do mosquito”, completa o pesquisador. Esperanças Para Antônio Teixeira, professor do Laboratório Multidisciplinar de Pesquisa em Doença de Chagas da Universidade de Brasília (UnB), as pesquisas podem ser úteis não apenas para a malária, mas também para outras doenças causadas por protozoários, como o mal de Chagas e a leishmaniose. “A história da ciência nos mostra que os obstáculos vencidos no controle de uma doença abrem esperança para a solução de outros males que afligem a humanidade”, conta. “Essa vacina será também uma boa saída para a proteção da população da Amazônia, onde se concentram especialmente os casos mais graves da doença, que podem inclusive levar à morte”, completa o professor da UnB. O Distrito Federal registrou 22 casos de malária no ano passado. Apesar de não ser alarmante, o número merece atenção, já que o DF possui uma população relativamente pequena e altamente urbanizada. Para o médico Dalcy Albuquerque Filho, chefe do Núcleo de Controle de Endemias da Secretaria de Saúde do DF, a transmissão da doença não acontece na capital federal. “Todas as notificações foram dos chamados ‘casos importados’, de pessoas que foram passar as férias ou pescar em outras regiões onde esse problema é grave e voltaram doentes”, explica. Ele lembra, no entanto, que existe uma dificuldade de se identificar no DF o paciente com a doença. “Por não estarmos em uma região em que a transmissão ocorre de maneira mais latente, quando um paciente chega no serviço de saúde com sintomas, o médico tem dificuldade de associar à malária”, conta Albuquerque Filho. “Por isso, é muito importante, sempre que o paciente tiver qualquer tipo de febre — mesmo branda — e sintomas de gripe após visitar regiões de contágio, especialmente no Norte do país, procurar imediatamente qualquer hospital e informar que esteve nessas regiões”, completa o chefe do Núcleo de Controle de Endemias. Ouça entrevista com Victor Nussenzweig, pesquisador do Departamento de Patologia da Escola de Medicina da Universidade de Nova York

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