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Correio Braziliense

Difícil de engolir

Ensinar os filhos a se alimentarem de forma saudável não é tarefa fácil para os pais. Especialistas, no entanto, dizem que o diálogo e a persistência são fundamentais para que a criança coma frutas e verduras com regularidade e consuma produtos ricos em açúcar e gordura com moderação


postado em 13/04/2010 08:10 / atualizado em 13/04/2010 13:01


Aos 2 anos, Rafael já está acostumado ao sabor dos vegetais, preparados de maneiras variadas pela mãe, Ana Lúcia (foto: Breno Fortes/CB/D.A Press )
Aos 2 anos, Rafael já está acostumado ao sabor dos vegetais, preparados de maneiras variadas pela mãe, Ana Lúcia (foto: Breno Fortes/CB/D.A Press )
Toda refeição é uma verdadeira batalha para a atriz Vânia Praia, 31 anos. Ela enfrenta um problema bastante conhecido dos pais. Seu filho, o pequeno Moreno, 6, não gosta de comer direito. Inimigo declarado da maioria das frutas, das verduras e dos legumes, o menino dá a impressão de que poderia passar dias sem se alimentar, se não fossem a paciência e a insistência da mãe. “Eu já tentei de tudo, disfarçar no meio da comida, amassar bem, tentar conversar, e nada. Ele não gosta de comer e ponto. Se eu forço, ele chega ao extremo de vomitar”, conta a mãe.

Entre as tentativas para fazer o filho se alimentar mais — e melhor — figuram todos os tipos de estratégia. “Eu sei que não é o correto, mas eu fico tão agoniada com a falta de apetite do Moreno que boto ele para comer na frente da TV, porque aí, sem perceber, ele acaba comendo mais”, explica a mãe. “Pelo menos a situação está melhorando. Se antes ele não queria nada, agora, aos poucos, ele está mostrando menos resistência na hora das refeições”, completa.

Vânia não está sozinha. Com a grande oferta de sanduíches, doces e refrigerantes, é cada vez mais difícil para os pais manterem os filhos com uma dieta saudável. Mas os especialistas insistem: paciência e diálogo são o caminho certo para ensinar os pequenos a se alimentarem bem. A nutricionista Mônica Beyruti, membro da Sociedade Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Doença Metabólica (Abeso), conta que a má alimentação é o primeiro passo para o desenvolvimento de problemas maiores, como a obesidade, que já atinge 10% das crianças brasileiras. “Hoje, a obesidade já pode ser considerada uma epidemia, e a raiz do problema está em casa. As crianças que não criam hábitos de alimentação saudável desde pequenas têm muito mais chances de se tornarem adultos obesos, ou de desenvolverem problemas de peso ainda na infância”, explica.

Para ela, os pais devem ser realistas na hora de cuidar da alimentação dos filhos. “Claro que alimentos saudáveis, como frutas e verduras, devem ser a base da dieta. O que os pais não podem esquecer é que se trata de uma criança, e, por isso, também é importante oferecer, em menores quantidades, alimentos como doces, refrigerantes e sanduíches”, opina. Ela conta que um dieta muito restritiva pode ter o efeito contrário. “Se você não dá a oportunidade de a criança comer esse tipo de alimento, ela vai procurar de outra forma. Vai comer escondido, quando os pais não estiverem por perto. Por isso é tão importante que ela também tenha acesso, de maneira comedida, à esse tipo de comida”, completa.

Desde cedo
A administradora Ana Lúcia Alasmar, 33 anos, resolveu começar desde cedo a cuidar da alimentação do filho, o pequeno Rafael, 2. “Eu tento estimular que ele coma sozinho alimentos saudáveis como vegetais e leite. Para ficar mais fácil, eu vario a forma de preparo: às vezes sirvo amassadinho, outras vezes misturado no arroz ou no feijão”, conta a mãe. A ideia é fazer o filho se acostumar desde cedo à alimentação equilibrada. “Se ele aprender a comer direitinho agora que eu consigo controlar, vai ficar muito mais fácil quando crescer e eu não puder ficar o tempo todo atrás dele”, acredita Ana Lúcia.

Foi essa também a saída encontrada pela professora de biologia Mônica de Castro para cuidar da alimentação das filhas. A estratégia, que deu certo com Cecília, 7 anos, é repetida agora com Alice, 6 meses. “Sou uma mãe muito feliz. Desde que introduzi alimentos sólidos para elas, eu ofereço e insisto nas verduras e nos legumes. O resultado foi que hoje elas gostam de comê-los”, ensina. “Quando eu fazia sopinhas e papinhas, sempre botava verduras no meio. À medida que a alimentação foi evoluindo, fui introduzindo cozidos ou misturados aos demais alimentos”, completa.

O sucesso na dieta das filhas, no entanto, não significa menos preocupação. “Se eu não oferecer, elas não comem. Por isso, eu uso receitas alternativas para estimular o consumo de alimentos saudáveis”, afirma Mônica. Além disso, a mãe mantém regras rígidas para o consumo de besteiras. “A Cecília só tomou refrigerante com 5 anos. Hoje, aqui em casa, as meninas sabem que as guloseimas só são liberadas no fim de semana”, completa.

Desafio
Limitar o consumo de doces e guloseimas é um desafio para os pais de hoje. Pesquisa do Instituto Datafolha encomendada pela organização não governamental Instituto Alana mostrou que alimentos ricos em gordura e açúcar são os itens mais pedidos aos pais pelas crianças. Produtos como salgadinhos, balas e chicletes estão à frente de brinquedos e roupas na preferência da meninada, apontou o levantamento(1), divulgado em março passado. “Hoje, mais da metade da publicidade direcionada às crianças é de alimentos. Desses, mais de 80% são produtos com alto teor de gordura, sal e açúcar ou de bebidas com baixo conteúdo nutricional, como refrigerantes. Por isso as crianças pedem cada vez mais esse tipo de item”, conta Isabella Henriques, advogada e coordenadora-geral do Projeto Criança e Consumo, do Instituto Alana.

Para a especialista, um agravante para o problema está nos pais terem dificuldade de negar aos filhos estes produtos. “Quando uma criança pede um biscoito, por exemplo, o pai não consegue negar, pois sente que está negando comida ao filho”, explica. “Também há uma questão financeira envolvida. A criança sabe que, se pedir um chocolate, por exemplo, ela terá mais chances de conseguir o que quer do que se pedir um brinquedo ou uma roupa. Por isso, ela acaba optando pelos doces”, completa.

O pediatra Bruno Vaz diz que a alimentação incorreta, além de comprometer o desenvolvimento das crianças, pode causar outros problemas. “O principal risco que uma criança que come mal corre é o de desenvolver obesidade, e com ela podem vir outros problemas associados, como a hipertensão e o colesterol alto”, conta o médico. “Além disso, o diabetes tipo 2, que não era comum em crianças há 10 anos, hoje já aparece exatamente por causa do excesso de peso”, afirma.

Ele lembra ainda que o peso normal não é garantia de saúde em dia. “Uma má alimentação também pode causar desnutrição ou falta de micronutrientes que dificultam o crescimento”, conta o médico. “Uma alimentação o mais variada o possível é a ideal. Mais do que comer muito, é importante a criança comer bem. Ingerir só um tipo de alimento, mesmo que ele seja saudável, é prejudicial, já que nenhum alimento consegue suprir sozinho as necessidades de um ser humano”, completa.

Chocolates e balas
A pesquisa encomendada pelo Instituto Alana perguntou aos pais que tipo de produtos os filhos costumam pedir. Em primeiro lugar, com 43% de citações, ficaram os chocolates e as balas. Em segundo lugar, 34% dos pais apontaram que os filhos costumam pedir salgadinhos. O sorvete apareceu em terceiro, indicado por 32% dos pais.

Ouça trecho da entrevista com Isabella Henriques, do Instituto Alana


Como agir

Confira 10 dicas para incentivar a boa alimentação nas crianças

  • 1. Tente não variar muito os horários das refeições. Assim, a criança sentirá fome sempre nos mesmos horários

  • 2. Não sirva grandes porções, especialmente se for de algum alimento de que a criança não gosta. É preferível colocar pouco e a criança comer tudo, do que colocar muito e ela não comer nada

  • 3. Crianças também comem com os olhos. Experimente desenhar carinhas com a comida ou apresentar o prato de maneira criativa. Outra ideia é cortar folhas e legumes em formatos divertidos

  • 4. Prepare um molho gostoso e estimule a criança a comê-lo junto com as verduras. Ele pode disfarçar um sabor do qual a criança não gosta

  • 5. Faça pizzas de vegetais. Coloque verduras e legumes sobre a massa e salpique queijo

  • 6. Convidar a criança para participar do preparo dos alimentos pode ser uma boa saída para aqueles que não se interessam por comida. Só fique de olho para ele ficar bem longe de panelas quentes e facas

  • 7. Varie o lugar da refeição. Leve a mesa para a varanda ou para o quintal. Vale até estender uma toalha no chão e fazer um piquenique em casa

  • 8. Desde cedo, dê uma colherzinha para os bebês também participarem da refeição. Isso ajuda no desenvolvimento da coordenação motora

  • 9. Dê o exemplo. Coloque no seu prato alimentos saudáveis e mostre como eles também são gostosos

  • 10. Converse sempre e explique para a criança a importância do consumo de alimentos saudáveis para a saúde dela

Fontes: Abeso, Instituto Alana e Bruno Vaz

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