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Correio Braziliense

Brasil registra, anualmente, pelo menos 150 mil acidentes envolvendo a região dos olhos


postado em 26/04/2010 08:36

Não existem estudos ou estatísticas que apontem com exatidão o número de adultos e crianças vítimas de acidentes oculares no Brasil. Os especialistas, porém, são unânimes: eles ocorrem com muita frequência. O descuido, seja no ambiente de trabalho, durante o lazer ou mesmo dentro de casa, pode ter desfechos dramáticos. Os danos nem sempre são reversíveis, apesar dos grandes avanços da medicina na área da oftalmologia. Ferimentos provocados por produtos utilizados na limpeza doméstica, perfuração por objetos pontiagudos ou estilhaços, além de queimaduras decorrentes do contato com substâncias químicas ou fontes de calor são as ocorrências mais comuns. Dados da Sociedade Americana de Trauma Ocular revelam que, nos Estados Unidos, são contabilizados 2,4 milhões de lesões nos olhos por ano, 35% delas em menores de 17 anos. O acidente ocular é a causa mais comum de cegueira em um dos olhos no país.

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Levantamento parcial do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) demonstra que os acidentes ocupacionais oculares contabilizam mais de 150 mil casos por ano. Esse é o montante notificado, mas como a maioria das ocorrências não é registrada, médicos do CBO calculam que a quantidade real ultrapasse muito essa estimativa. Eles alertam também que a maior parte dos acidentes poderiam ser evitados. O oftalmologista Jonathan Lake pondera que a água sanitária e os produtos de limpeza são responsáveis pela maioria das lesões oculares ocorridas em casa. Os adultos menosprezam o perigo ao manusearem as substâncias — e as crianças são atraídas por embalagens coloridas.

Nas duas situações, um respingo no globo ocular é suficiente para danificar a visão. O médico lembra que, nos olhos, qualquer ferimento é mais delicado para tratar. “Quando a pele distante deles é queimada ou ferida, a pessoa fica, geralmente, com uma marca que não causa impacto funcional. Nos olhos, no entanto, as cicatrizes podem comprometer a acuidade visual”, especifica Lake, da Oftalmed.

Mesmo lesões aparentemente superficiais são capazes de prejudicar a visão permanentemente. Queimaduras provocadas por substâncias químicas são mais traiçoeiras que aquelas causadas por fontes térmicas. “Se o produto químico não for removido o mais rápido possível, continua penetrando nos olhos, gerando reações inflamatórias e até perfurando os tecidos oculares”, alerta. O risco pode vir até da água. O médico relata que há um ano atendeu uma criança que brincava com um compressor. O olho foi atingido com um jato d’água e o cristalino acabou comprometido. O trauma gerou uma inflamação intensa, o paciente sentiu muita dor e embaçamento. “Tratamos a inflamação e acompanhamos a criança para monitorar a evolução do quadro. A lesão resultou em catarata. Foi necessário fazer uma cirurgia para substituir o cristalino por uma lente intraocular”, descreve Lake.

Tristes exemplos
Na superfície dos olhos, ficam as células de regeneração, as famosas células-tronco. Quando danificadas, essas estruturas não podem contribuir efetivamente para a recuperação das camadas e dos nervos oculares. Os riscos de acidentes costumam ser desconsiderados. “Tive um paciente que, ao tentar retirar uma embalagem de cima de uma prateleira, se desequilibrou. O pacote que continha um produto altamente agressivo atingiu os dois olhos dele, que foram comprometidos de forma irremediável”, lamenta Lake.

A auxiliar administrativa Gabriela Pires Pacelli, 22 anos, passou por um susto semelhante. Durante a lavagem do banheiro de casa, gotas de água sanitária respingaram nos olhos da jovem. Embora tenha lavado o local com água, Gabriela resistiu em procurar um médico. “Fui ao oftalmologista sete horas depois do acidente, apenas porque não estava aguentando mais. Ardia muito e a minha reação foi de esfregar o local com as mãos. Tive sorte de que a substância estava diluída em água, o que amenizou os danos. O especialista fez uma nova limpeza e receitou colírios anti-inflamatórios”, diz, ainda assustada. Gabriela foi acompanhada por dois meses e a vista foi preservada. “Mas, depois disso, passei a sentir ressecamento nos olhos”, lamenta.

Ouça entrevista com o oftalmologista Jonathan Lake

 

Rapidez no socorro é fundamental
Pancadas no globo ocular também causam danos. A visão é um processo dinâmico e toda a estrutura que a envolve é extremamente vascularizada. Um trauma afeta o equilíbrio delicado do mecanismo que garante a visão. Pancadas violentas causam a ruptura de estruturas oculares. Em casos menos extremos, o cristalino pode se deslocar ou a retina se descolar. Os acidentes ocorrem com pessoas mais experientes, que imaginam ter muita habilidade e por isso não precisam usar óculos e equipamento de segurança, ou com indivíduos desavisados. “Qualquer tipo de lesão nos olhos traz risco de infecções. É claro que, se não houve quebra de tecidos, essa chance é reduzida, mas quando ocorre abrasão e a remoção de células, a chance é alta. A primeira reação é levar as mãos aos olhos, e elas geralmente estão sujas. O tratamento envolve anti-inflamatórios e antibióticos profiláticos”, aponta o presidente do CBO, Paulo Augusto de Arruda Mello.

O médico, que é professor do departamento de oftalmologia da Universidade Federal de São Paulo, explica que o brasileiro não tem o hábito de se proteger, de prever que o pior pode acontecer. “Em quase 100% das vezes, o risco é negligenciado. A procura por ajuda especializada é postergada e isso pode agravar a lesão. Há algum tempo, atendi o filho de um médico que caiu com uma garrafa de refrigerante na mão. O frasco se espatifou e estilhaços de vidros perfuraram o olho da criança. O socorro foi procurado somente um dia depois”, relata. Em qualquer tipo de ferimento ocular, o oftalmologista deve ser procurado imediatamente. Jamais aplique leite, limão ou receitas caseiras no local. Se o acidente envolve substâncias químicas, lave os olhos com água limpa. “Se houve trauma ou perfuração, não mexa, apenas proteja a região e corra para o hospital. O primeiro atendimento é fundamental e determina o sucesso do tratamento”, reforça.

O técnico em informática William Gonçalves de Oliveira, 24 anos, queimou os olhos soldando um portão sem equipamento de proteção. “Fui negligente e, para falar a verdade, não sabia do risco. No momento não senti nada. A dor, a pior que já senti na vida, veio umas oito horas depois. Não conseguia enxergar. Fui medicado e passei dois dias sem abrir os olhos. Felizmente, consegui me recuperar da dor, mas estou sentindo a vista embaralhar quando preciso ler alguma coisa de perto”, confessa.

Palavra de especialista
Vítimas frequentes


Crianças são vítimas frequentes de acidentes oculares. Objetos cortantes, brinquedos com elementos pontiagudos, agulhas e até medicação ou produtos químicos guardados em locais acessíveis podem causar lesões graves nos olhos, muitas vezes irreparáveis. Em torno de 20% a 25% dos danos provocados por perfurações oculares na garotada são irreversíveis, o olho é perdido. Queimaduras causadas por substâncias ácidas causam muita dor e vermelhidão. São mais intensas, mas, em geral, mais fáceis de tratar que aquelas provocadas por cal e cimento, que penetram no globo ocular e lesam mais gravemente.

Acidentes automobilísticos também são grandes vilões dos olhos na infância, assim como boladas e pancadas em móveis. Em casos de traumas, mesmo quando parecem inofensivos, deve ser feito o mapeamento da retina para verificar se ela foi comprometida. As crianças levam a mão suja aos olhos quando se machucam, o que facilita infecções. Todo cuidado é pouco. Caso ocorra o pior, leve a vítima imediatamente a um especialista.
Rodrigo Durães, oftalmologista especialista em plástica ocular pela Universidade de São Paulo

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