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Correio Braziliense

Depois de perder os dois braços em um acidente de trabalho, Flávio Peralta lança livro no qual conta como conseguiu superar o trauma

Hoje, casado e pai de um menino de 6 anos, o ex-eletricista mantém um blog para ajudar outros amputados a refazerem suas vidas


postado em 27/04/2010 07:00 / atualizado em 27/04/2010 11:52

A data de 21 de agosto de 1997 era apenas mais uma quarta-feira de trabalho para o então eletricista Flávio Peralta. À época com 29 anos e solteiro, o morador de Londrina (PR) não tinha planos para o futuro e, como ele mesmo define, vivia “só para a gandaia”. Quando saiu para o almoço, Flávio não imaginava que, dali a poucas horas, sua vida mudaria completamente. À noite, ele estava na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), com os rins em falência e queimaduras nos membros superiores. Poucos dias depois, perderia os dois braços.

Jane e Flávio se conheceram quando ele ainda se recuperava do acidente que lhe tirou os dois braços. Vida reconstruída e ainda mais feliz com a chegada do pequeno Vinícius, o filho do casal(foto: Arquivo Pessoal )
Jane e Flávio se conheceram quando ele ainda se recuperava do acidente que lhe tirou os dois braços. Vida reconstruída e ainda mais feliz com a chegada do pequeno Vinícius, o filho do casal (foto: Arquivo Pessoal )
Passar para a condição de amputado, com sérias limitações físicas, poderia ser um trauma. Não foi. Apesar do sofrimento, Flávio optou pela superação. Criou um site, o www.amputadosvencedores.com, para compartilhar sua experiência com pessoas que passaram pela mesma situação, tornou-se palestrante sobre segurança no trabalho e, agora, acaba de lançar um livro com o mesmo nome da página que mantém na internet. “É muito bom poder ajudar. Quando a pessoa sofre uma amputação, a família fica em pânico, o amputado tem crises, entra em depressão. Recebi o e-mail de uma portuguesa que pensou em suicídio. Conversamos muito e, hoje, ela está bem, usando prótese”, conta Flávio.

No livro, ele faz um relato das dificuldades e dos desafios enfrentados, como o tratamento doloroso e caro, mas também conta os episódios de superação, como o casamento, a chegada do primeiro filho e a nova profissão, de palestrante. “Chego a esquecer que não tenho os dois braços. Parece que, hoje, sem os dois braços, sei enfrentar melhor os desafios da vida.”

A amputação de Flávio foi provocada por um choque de 13.800 volts. Para se ter uma ideia da potência da descarga elétrica, bastam 500 volts para imobilizar uma pessoa, quando se utilizam armas de choque. Ele havia sido chamado para trocar um transformador em uma chácara de cultivo de cogumelos. “Se não fizesse o trabalho, os cogumelos iam morrer. Quem quase morreu fui eu”, diz. O equipamento que usava, na hora, era completamente inseguro. As luvas estavam furadas; o aterramento, enferrujado; e o detector não funcionava. Esse último aparelho é fundamental para avisar, por meio de um sinal sonoro, que há energia circulando no local.

Flávio verificou que a chave de baixa tensão estava desligada. Mas, por falta de equipamento adequado, não conseguiu checar a de alta tensão. Quando subiu a escada para trocar o transformador, a descarga disparou. “Fiquei todo azul”, conta. Flávio não despencou porque ficou preso ao cinto, pendurado no poste. Por sorte, um médico morava próximo à chácara e a equipe de socorro chegou rápido. “Eu só me lembro que sentia muita dor, gritava muito, e o médico me acalmava”, relata. O ex-eletricista deu entrada no hospital com sério comprometimento renal. Durante três dias, Flávio urinou sangue.

Internação
Foram 10 dias na UTI. Os rins voltaram a funcionar, mas os braços teriam de ser amputados. Os ossos, porosos, absorveram a carga elétrica, e já não havia o que fazer. A difícil decisão de amputar ficou nas mãos dos pais de Flávio. Eles é que tiveram de assinar o documento, autorizando a equipe médica a retirar os braços do filho, já que o eletricista estava inconsciente.

Só quando voltou da cirurgia é que Flávio notou que haviam amputado o braço direito. Depois da operação, ele precisou retirar mais um pedaço do membro, porque sofreu uma infecção. “Uma das coisas horríveis é a dor fantasma”, conta, referindo-se a um fenômeno que acomete mais de 80% das pessoas que sofrem amputação. Embora a ciência ainda não saiba precisar o motivo, sabe-se que o paciente sente dores intensas no local que foi extirpado. No braço esquerdo, a amputação foi na altura do cotovelo.

Segundo ele, a hora de fazer os curativos era uma das mais difíceis. “Quando a enfermeira chegava no quarto, dava vontade de sair correndo. Com os braços abertos para fazer a limpeza, sentia uma dor insuportável. Então, colocavam gaze na minha boca para poder gritar de dor, e para que as outras pessoas não se assustassem com os meus gritos”, relata. Passada essa fase, Flávio precisou fazer quatro cirurgias plásticas nas partes que foram preservadas. Os médicos retiraram pele da perna do eletricista para fazer enxertos nos membros superiores. Foram mais 40 dias de internação.

Próteses
Recuperado dos enxertos, Flávio passou à fase da colocação das próteses. No braço esquerdo, foi necessário fazer um tratamento para aumentar o cotovelo em 6cm, para que o equipamento pudesse ser adaptado. Ele colocou um aparelho chamado ilizarov, um fixador interno bastante incômodo, embora essencial para a adaptação. “Nessa cirurgia, coloca-se um aparelho com um monte de ferro dentro do osso. Nesse momento, as dores foram insuportáveis”, relata. Foram nove meses com o fixador, sendo que era preciso apertá-lo periodicamente. “Vivia à base de remédio para dor”, conta.

Quando foi retirar o aparelho, mais um susto. Flávio sofreu um choque anafilático, por causa da anestesia. “E lá fui eu parar na UTI de novo. Ocorreu tudo bem, e fui embora no outro dia.” A luta estava longe do fim. Para usar as próteses, ele precisou fazer outros enxertos, porque a pele estava muito fina e não aguentaria o peso. “O médico tentou tirar a pele da barriga, mas houve rejeição. Tive, então, que colar o braço na barriga por 30 dias. Aí, deu certo. A pele da barriga foi parar na ponta do braço. Depois de tudo isso, já tinha feito mais de 11 cirurgias e estava pronto para fazer colocação das próteses”, relata.

A do braço direito pesa 2,7kg e custou cerca de R$ 100 mil. Por ser incômoda, porém, ele decidiu não usá-la. “Está enferrujando dentro do meu guarda-roupa”, brinca. Parte do tratamento de Flávio foi custeado pela família e a outra parte, pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Ele se adaptou bem à prótese esquerda, colocada três anos depois do acidente. “Precisei treinar por 40 dias para saber usá-la. A prótese tem 8kg de força, então você imagina... Ao apertar a mão de uma pessoa, eu poderia quebrá-la”, diz.

Casamento
Um ano e meio depois do acidente, quando ainda se tratava, Flávio conheceu a atual mulher. Ele estava em uma lanchonete com amigos, com o tronco enfaixado, e chamou a atenção da assistente social Jane Peralta, 42 anos. Como ela conhecia um dos amigos de Flávio, se aproximou, querendo ouvir a história do rapaz. “Eu o vi todo enfaixado e fiquei curiosa. No começo, foi só amizade. Eu nem imaginava que a gente ia namorar, mas começamos a passear, ir à igreja juntos e, então, iniciamos o namoro”, conta ela.

Jane também tem uma deficiência física. Aos 13 anos, ela caiu da moto e precisou levar 83 pontos no pé. Até hoje, precisa usar uma goteira, aparelho que mantém o pé em ângulo reto. “Eu me acostumei com os olhares. Quando tive o acidente, li Feliz ano velho (de Marcelo Rubens Paiva, escrito após o autor ter ficado tetraplégico), que me ajudou muito. Quando você lê a experiência de outras pessoas que passaram por uma situação difícil e deram a volta por cima, isso serve de exemplo”, diz. Jane aproveitou a própria experiência para ajudar Flávio a se recuperar.

A amizade virou amor e, em 2001, eles se casaram. A família e os amigos não estranharam o relacionamento. O difícil foi quando o casal decidiu ter um filho. “Eu fiquei imaginando como seria, porque já sou cuidadora do Flávio e precisaria cuidar de mais uma pessoa”, diz Jane. Mas, com a ajuda dos pais, ela conseguiu criar Vinícius, hoje com 6 anos.

O nascimento do menino foi a grande alegria de Flávio que, contudo, teve de lidar com a impossibilidade de carregá-lo no colo. “Como as enfermeiras sabiam que eu não podia segurar o Vinícius, me levaram para ver o primeiro banho dele. Ele chorava de um lado e eu do outro”, recorda. Só quando o bebê estava com 8 meses que aconteceu o esperado abraço. Vinícius já engatinhava, subiu em uma mesa e pulou. No susto, Flávio o agarrou. “Foi o melhor abraço da minha vida”, diz.

A ideia de escrever um livro sobre sua trajetória surgiu em 2007. Como já fazia palestras por todo o país e escrevia no site, Flávio resolveu passar para o papel a experiência de viver sem os dois braços. Jane o ajudou com a digitação e a revisão do texto. “O livro mostra que a pessoa pode ser amputada, mas o cérebro continua pensando, o pulmão continua respirando. Queremos ser exemplo para outras pessoas”, diz a assistente social.

Depoimento de Flávio Peralta, autor do livro Amputados Vencedores:

Trabalhava em uma empresa que fazia troca de transformador de alta tensão. Logo após o almoço saímos para fazer uma troca em uma chácara,chegando no local preparamos todas as ferramentas para executar o serviço. Logo em que subi a escada seria o momento em que levaria um choque de 13.800 volts,ficando pendurando ao poste e preso ao cinto, o que evitou que caísse lá de cima. Graças à equipe de resgate, que chegou logo ao local, eu fui retirado de cima.

Aí começaria toda uma longa historia em minha vida. Chegando ao hospital com os braços e parte do pé queimados, fui parar direto na UTI, mas a preocupação não seria essa no momento,mas sim com a parte interna do meu corpo. Meu rim não estava funcionando e se ele não funcionasse eu estaria morto hoje. Fazia três dias que estava urinando sangue, mas graças a Deus ele começou a funcionar.

Após passar isso, a nova preocupação seria em tentar recuperar os meus braços que estavam queimados, devido ao choque. Mas, infelizmente não teria mas jeito e a única possibilidade seria a amputação dos braços. Eu estava inconsciente e não sabia o que estava acontecendo. A autorização para fazer a amputação ficou para os meus pais. O que não deve ter sido muito fácil para eles.
Após fazerem a amputação houve uma infecção nos braços e tive que voltar para a sala de cirurgia para amputar mais uma parte dos braços.

Depois começou a parte dos curativos. Quando a enfermeira chegava no quarto dava vontade de sair correndo. Com os braços abertos para fazer a limpeza senti uma dor insuportável. Então colocavam gazes na minha boca para poder gritar de dor e para que as outras pessoas não se assustassem com os meus gritos.

Passou a fase de curativos. Agora seria o momento de fazer uma plástica no que restou. O médico tirou a pele da minha perna para fazer o enxerto nos braços . Para essa cirurgia foi necessário ficar no hospital uns 40 dias.

Após a recuperação viria o momento de deixar os braços preparados para colocação das próteses. Mas, meu braço esquerdo, o qual sobrou o cotovelo, teria que aumentar mais ou menos 6 cm, através da colocação de um aparelho, chamado Ilizarove

Nesta cirurgia, coloca-se um aparelho com um monte de ferro dentro do osso. Nesse momento as dores foram insuportáveis. Mas, deu tudo certo. Quando fui tirar este aparelho tive um choque anafilático,causado pela anestesia. E lá fui eu parar na UTI de novo. Ocorreu tudo bem e fui embora no outro dia.

Agora teria que fazer um enxerto na pele que estava fina se não suportaria a prótese. Vamos lá de novo para cirurgia. O médico tentou tirar a pele da barriga, mas houve rejeição. Tive então, que colar o braço na barriga por 30 dias. Aí, deu certo. A pele da barriga foi parar na ponta do braço.

Essa cirurgia existe a mais de 50 anos. Depois de tudo isto já tinha feito mais de 11 cirurgias. e estava pronto para fazer colocação das próteses.
Hoje vivo muito bem sem os meus braços e a cada dia agradeço a Deus por ter me dado minha vida de volta.

Independente de ser um deficiente físico, amputado, hoje percebo que qualquer pessoa está sujeita a preconceitos. Esses sempre vão existir.

Depois de ter passado por uma experiência dessa dou valor muito mais na vida. Consegui colocar minhas próteses e me adaptei muito bem. Estou casado após acidente e sou pai de um menino.

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