Publicidade

Correio Braziliense

O baile da vida melhor

Mais divertida que a maior parte das atividades físicas, a dança de salão é um ótimo método para que os idosos ganhem saúde. Pesquisa revela como a prática ajuda a reduzir a chance de quedas e a melhorar a autonomia das pessoas mais velhas


postado em 29/04/2010 22:17

Um passo para lá, outro para cá e as chances de os idosos levarem tombos que, muitas vezes, são fatais, diminuem. Uma pesquisa da Universidade de Missouri-Columbia, nos Estados Unidos, comprovou que a dança é um excelente método para ganhar firmeza e equilíbrio, reduzindo, assim, o índice de acidentes na terceira idade. No Brasil, de acordo com a Sociedade Brasileira de Otologia, 70% das mortes de pessoas com mais de 75 anos acontecem em decorrência de quedas. Em toda a população geriátrica, o problema é responsável por 12% dos óbitos.

O professor Márcio de Moura Pereira com alunos durante aula de dança de salão para idosos na Universidade de Brasília - UnB(foto: Cadu Gomes/CB/D.A Press )
O professor Márcio de Moura Pereira com alunos durante aula de dança de salão para idosos na Universidade de Brasília - UnB (foto: Cadu Gomes/CB/D.A Press )
Diversos exercícios físicos ajudam a reforçar o equilíbrio, mas, segundo a enfermeira Jean Krampe, autora do estudo, além de divertida, a dança é mais aceita pelos idosos. “Os exercícios tradicionais não são bem aceitos pelas pessoas mais velhas, por uma série de barreiras, que incluem medo de cair, problemas de saúde e motivação. Uma escolha alternativa aos exercícios tradicionais é a terapia da dança”, disse ao Correio. “A dança atrai os idosos, o que é um fator de estímulo para que não desistam. Além disso, evidências sugerem que os idosos ficam mais felizes dançando do que fazendo outros tipos de exercícios aeróbicos, com aumento da qualidade de vida, do balanço corporal e da mobilidade”, afirma.

No estudo conduzido por Krampe, foi analisado o efeito de um tipo de dança, o Healthy Steps (passos saudáveis), desenvolvido pela dançarina e especialista em movimento Shelley Lebed Davis, quando a mãe dela teve câncer de mama. A ideia era ajudá-la a ter motivação para sair do estado depressivo em que se encontrava. O resultado foi tão positivo que o programa foi adotado por diversos centros de tratamento oncológicos, além de casas de repouso. Atualmente, pelo menos 450 estabelecimentos, como hospitais e academias, dos Estados Unidos, do Canadá, da Inglaterra, da Austrália, da Indonésia, das Bahamas e de Porto Rico adotam o método para pacientes com câncer, Parkinson, fibromialgia e artrites, entre outras doenças crônicas.

Baixo impacto

O Healthy Steps baseia-se em passos de baixo impacto, com movimentos da cabeça, do peito, dos braços, dos quadris e das pernas, intercalados com momentos de relaxamento e descanso. Ao todo, são oito etapas, que duram, em média, 45 minutos. A aula, sempre ministrada por um professor certificado, começa com o aquecimento, que inclui exercícios de respiração e marchas leves. O objetivo é abrir o peito e os pulmões, fornecendo oxigênio aos músculos, para que eles alcancem uma boa performance.

Depois, têm início as coreografias, com os participantes ainda sentados. Nesse momento, eles marcham e fazem movimentos com os dedos dos pés, enquanto trabalham também os braços e os ombros. De acordo com Krampe, esse passo ajuda a desenvolver o ritmo e a força nas extremidades do corpo. A dança mesmo vem em seguida, quando os idosos fazem coreografias semelhantes às do balé; adaptadas, porém. Em seguida, há um intervalo. Esse momento não é apenas de descanso, mas de interação entre o grupo. Há mais duas coreografias, encerradas com a fase de esfriamento dos músculos.

“A dança é uma atividade social agradável para os idosos. As pesquisas sobre o aspecto psicossocial da atividade provam isso”, lembra Jean Krampe. “Fisicamente, a dança promove o balanço da cabeça e do tronco; o centro de gravidade é movido em todas as direções, a partir do ponto de apoio corporal. Esses fatores é que contribuem para o ritmo e a mobilidade”, diz. Na pesquisa que ela conduziu, havia 11 participantes — sete mulheres e quatro homens. “Como era um grupo pequeno, ficava mais seguro de monitorá-los durante as sessões.” Havia três aulas por semana, cada uma com 45 minutos. O tempo total do estudo foi de seis semanas.

Antes de começarem a frequentar as sessões, os idosos fizeram um tipo de teste que indica a probabilidade de levarem tombos. Trata-se de medir o tempo que levam para ficar em frente a uma cadeira, andar 3m, voltar, dar a volta pela cadeira e sentar. Se demoram mais de 14 segundos para realizar a atividade, é sinal de que têm alto risco de caírem no chão. Comparando a performance antes e depois das aulas de dança, Jean Krampe constatou que a maioria dos pacientes melhorou em 50% a performance no teste. Além disso, 90% dos idosos mostraram interesse em continuar as aulas, o que comprova que, para eles, a atividade foi prazerosa. “As consequências graves provocadas pelas quedas de idosos não precisam continuar. Intervenções criativas têm potencial de reduzir o problema”, conclui Krampe.

Há quatro anos, o casal Anália Roza Alvarez Pereira da Cunha, 66 anos, e Luiz Arnaldo Pereira da Cunha, 67, frequenta a turma de dança de salão do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Atividade Física para Idosos da Universidade de Brasília (Gepafi). “A dança me deu mais equilíbrio”, diz Anália, que sofre de labirintite, além de hipertensão e diabetes. “Uma coisa importante é que, com mais equilíbrio, você começa a ter menos medo de cair”, diz. O marido, com quem está casada há 44 anos, também aprova a atividade. Cardíaco, Luiz frequenta academia tradicional, mas elogia: “Na dança, você cansa mais e faz mais exercício.”

O cérebro se remodela

Além da força e do equilíbrio, a dança traz diversos benefícios à saúde dos idosos, de acordo com o professor Márcio de Moura Pereira, do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Atividade Física para Idosos da Universidade de Brasília (Gepafi). Embora a linha de pesquisa de Márcio seja o tai chi chuan, ele conta que a dança de salão tem potencial de melhoria cardiovascular, além de ser uma atividade completamente segura. “Ela oferece um bom nível de treinamento aeróbico, sem que a pessoa tenha risco de sofrer uma angina ou um enfarto”, diz.

Márcio também conta que um estudo do Gepafi comprovou que a dança de salão melhora a autonomia de idosos que sofrem de mal de Alzheimer. “Depois de seis meses ou um ano de prática, eles voltaram a níveis bem próximos da normalidade, em relação à autonomia”, diz. Embora a doença seja progressiva e irreversível, o professor da UnB explica que o cérebro tem capacidade de remodelagem neurológica, devidamente estimulado. “É possível criar novas conexões nervosas”, diz.

O professor lembra que a dança, por ser uma atividade feita em dupla, ajuda a combater outro problema comum em idosos: a solidão. “Eles aprendem a dançar e saem para a balada. Ao mesmo tempo, ganham fôlego, força e flexibilidade geral, principalmente nos membros inferiores. Quando melhora a flexibilidade, melhora também o equilíbrio”, diz. Márcio explica que os alunos podem dançar todos os ritmos. Da valsa ao frevo. Tudo, claro, adaptado às necessidades individuais. “Quem tem problemas nas articulações, por exemplo, deve fazer os giros mais lentos ao dançar rock.”

Uma das alunas mais animadas da turma, Terezinha Lira de Oliveira, 72 anos, diz que dança até sozinha, quando está em casa. “Tenho um fogo danado”, conta. Cardiopata e diabética, Terezinha tem três pontes de safena e dois stents no coração. “Já até fiquei na UTI algumas vezes”, diz. Há três anos, porém, desde que descobriu o Gepafi, ela se sente bem melhor. “As pontadas no coração foram sumindo. Não existe nada melhor que dançar”, diz as aposentada, antes de sair correndo para não perder os passos do baião. (PO)

Para saber mais
Tonturas e quedas


De acordo com a Campanha Nacional de Prevenção de Quedas na Terceira Idade, a queixa de tontura é um dos motivos mais comuns pelos quais os idosos procuram um serviço médico. A incidência da tontura aumenta com a idade e pode ser causada por diversas condições médicas, mas cerca de 45% dos casos são devidos às disfunções vestibulares.

O equilíbrio do corpo é mantido por três pilares coordenados pelo sistema nervoso central (SNC): a propriocepção, o labirinto e a visão. Com o envelhecimento, ocorre um desgaste natural das estruturas e, como consequência, podem surgir as tonturas. Além disso, o idoso geralmente apresenta outras doenças que podem comprometer o funcionamento do sistema de equilíbrio corporal, agravando as tonturas e predispondo às quedas.

A acuidade visual, a capacidade de acomodar a visão e a perseguição uniforme normalmente declinam com o envelhecimento. Os idosos também podem ter distúrbios oculares, como catarata, glaucoma e degeneração macular, que aumentam o comprometimento da visão. Essas alterações podem interferir na manutenção do equilíbrio corporal e dificultar a adaptação depois de uma lesão vestibular.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade