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Correio Braziliense

Confusão entre tipos diferentes de problemas no pé pode causar problemas sérios

Fascite plantar e esporão, embora bem diferentes, provocam dores parecidas nos pés. Tratamentos para as duas doenças, porém, são opostos. Diagnóstico correto, que pode variar de simples alongamentos a cirurgias, é fundamental para evitar o agravamento dos problemas


postado em 20/05/2010 07:00

Boa parte das doenças que afetam ossos, cartilagens e ligamentos aparece somente com o passar do tempo. As estruturas ficam gastas e abrem brechas para a ocorrência de males como a osteoporose, a artrose e o rompimento de ligamentos. Existem, porém, doenças que atacam pessoas jovens, saudáveis e que, por incrível que pareça, têm uma rotina de prática de exercícios físicos. Uma delas é a fascite, inflamação da fascia plantar, um ligamento que se estende por toda a sola do pé. A fascite incomoda maratonistas de longa distância, principalmente os que correm sobre superfícies duras, e, por vezes, é confundida com outra doença, o esporão (1).

“A fascite é provocada por microtraumas na parte de baixo do pé e é bastante comum entre os jovens”, diz o ortopedista Murilo Reis, especialista em traumatologia Uma das formas de evitar que a inflamação apareça é não exagerar nos treinos. Se diagnosticada em até seis meses do início dos sintomas, a fascite pode ser totalmente curada em mais de 90% dos casos. O tratamento, no entanto, exige muita paciência dos corredores que, muitas vezes, precisam abandonar a rotina de exercícios por um tempo. O professor de educação física Thiago Cardoso, 28 anos, teve fascite plantar há cerca de três anos. Na época, o desconforto provocado pela dor o obrigou a ficar parado durante oito meses. “Quando as dores começaram, ainda mantive o treino por uns dois meses, mas ficou insuportável. Não sei o que causou a doença, provavelmente o uso de um tênis ao qual não me adaptei”, conta Thiago. O jovem lembra que demorou para procurar um médico e tentou conter o problema fazendo compressas de gelo. Quando foi a um especialista, a inflamação estava crônica e o médico recomendou sessões de fisioterapia. “Ele indicou 20 sessões, eu acabei fazendo 40, mas as dores continuaram”, diz o professor. Thiago recorreu a terapias alternativas para acabar com a fascite: fez acupuntura e bandagens, que eliminaram as dores. Hoje, o rapaz corre cerca de 35km por semana e coordena um clube de corrida, onde os participantes fazem um teste de “pisada” para definir qual tipo de tênis é o mais indicado. O tratamento alternativo ajudou Thiago, mas especialistas recomendam o repouso como a melhor forma de curar a inflamação na sola dos pés. “Quando a dor é muito forte, podemos, inclusive, imobilizar o local por duas a três semanas”, afirma o ortopedista Ricardo Cardenuto Ferreira, da diretoria da Associação Brasileira de Cirurgia de Pé e Tornozelo. Ricardo destaca que o sucesso do tratamento da fascite depende do empenho do paciente. São indicadas de duas a três sessões de alongamento da região por dia, com duração de quatro a seis minutos cada uma. Foi a disciplina que ajudou o consultor de marketing político Amauri Teixeira, 46 anos, a curar a fascite. Amauri conta que sempre sentiu um pouco de dor na base do calcanhar, mas há cerca de 10 meses, o quadro se agravou. “Era um tormento colocar o pé no chão de manhã, ao sair da cama, ou então em dias muito frios”, lembra. O consultor conseguiu acabar com o problema fazendo sessões diárias de alongamento do pé e tornozelo, durante 15 minutos. Amauri, porém, não descobriu por que os sintomas apareceram. Além de afetar corredores, a inflamação pode surgir em pessoas que têm o pé cavo, com a sola bastante arqueada. “Nesse caso, o ligamento plantar é encurtado. Os pacientes ficam sujeitos às dores por causa da tração”, detalha o ortopedista Ricardo Cardenuto, que é também professor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. A fascite pode aparecer, ainda, em quem está acima do peso ou ganhou quilos na balança de forma muito rápida. Essa possibilidade é ainda maior se a pessoa começou a fazer atividades físicas recentemente. A professora de geografia Adeir Ribeiro Alves, 54 anos, já sentiu sintomas semelhantes aos da fascite plantar. “Quando eu caminhava, parecia que estava com um caroço na base do pé direito”, relata. Adeir foi ao médico, fez um exame de raios X da região e diagnosticou o esporão, uma doença muito confundida com a fascite, inclusive, por médicos. Adeir tentou usar uma palmilha para diminuir as dores, mas não se adaptou ao acessório. Ela, então, seguiu orientações da filha fisioterapeuta e passou a usar sapatos de salto alto para diminuir a dor. “Mas o problema desapareceu mesmo em janeiro, depois que eu perdi 6kg”, conta. Diferenças O ortopedista Ricardo Cardenuto explica que a fascite plantar se confunde com o esporão porque os sintomas são praticamente os mesmos. “O esporão verdadeiro é uma calcificação no calcanhar, junto ao tendão de aquiles. Trata-se de uma saliência do osso que pode provocar a dor, e não há muito como evitá-la”, detalha Ricardo. O problema, explica o ortopedista, é que quase 50% da população têm uma saliência óssea natural na região do calcanhar, o que não significa que a pessoa tem o esporão. Não existem números (2) sobre a ocorrência dessa doença ou da fascite. Ricardo afirma, porém, que o esporão é muito mais raro do que a inflamação na planta do pé. “Eu diria que, de cada mil casos que aparecem no meu consultório, cinco são esporão e cerca de 20, fascite plantar”, calcula. No caso da fascite, a maioria dos casos são tratados apenas com os alongamentos. Em situações extremas, o médico pode aplicar uma injeção de cortisona no ligamento. “Essa infiltração deve ser feita com muito cuidado, porque a cortisona pode ter um efeito ruim para a gordura da região”, ressalva Ricardo. Se tudo isso não funcionar, o paciente pode ser submetido a uma cirurgia para cortar o ligamento. “Mas isso é raríssimo. Em 17 anos trabalhando com pé e tornozelo, só fiz uma cirugia desse tipo”, afirma o especialista. Quando há o diagnóstico do esporão, o tratamento inclui a fisioterapia analgésica e o uso de calçados com acolchoamento na região do calcanhar. Se as dores persistirem, o médico pode recomendar uma cirurgia para a raspagem da saliência óssea. Por conta da confusão entre fascite e esporão, Ricardo alerta para o uso do salto alto como paliativo às dores. “Quem tem fascite plantar não deve usar esse recurso. Pode até aliviar na “pisada”, mas acaba encurtando ainda mais o ligamento”, diz. Em contrapartida, se a pessoa for diagnosticada com esporão, é possível que o salto alto ajude no tratamento. “É a única situação em que esse tipo de sapato é recomendado, porque ele pode aliviar o atrito.” 1 - Do galo O nome “esporão” vem do inglês spur, que denomina a saliência que os galos têm nas patas. A doença foi batizada dessa forma pela similaridade da estrutura com a que se forma no calcanhar dos humanos. 2 - Sem controle No Brasil, os médicos não são obrigados a registrar a ocorrência de todas as doenças. A notificação ocorre somente para patologias transmissíveis, como a dengue, a Aids e a meningite, por exemplo. O controle da incidência da fascite plantar e do esporão — e de tantas outras doenças — depende da iniciativa de hospitais ou de clínicas. O problema é que esses números refletem apenas um universo específico. Ouça entrevista com o ortopedista Ricardo Cardenuto Ferrari, da Associação Brasileira de Cirurgia de Pé e Tornozelo

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