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Correio Braziliense SAÚDE

Para um hipocondríaco, basta um sinal qualquer de diferença no corpo para que surjam as mais paranoicas hipóteses de doenças graves


postado em 23/05/2010 13:05 / atualizado em 23/05/2010 13:14

"Acho que sou muito prevenida, mas pode ser uma neurose também. Se você chegar perto de mim e falar que tá com uma coceira, eu começo a me coçar%u201D Ivete Koppe, funcionária pública (foto: Paulo de Araujo/CB/D.A Press)
Quando teve uma forte dor de cabeça, ela logo achou que só podia ser um aneurisma. Sentiu um caroço no seio e sentenciou: câncer de mama. Um incômodo no estômago? Só podia ser sinal de um tumor. As preocupações com a saúde costumam atormentar Ivete Koppe, 44 anos. Nos casos citados, ela chegou a procurar especialistas. Fez baterias de exames. E nada. “Acho que sou muito prevenida, mas pode ser uma neurose também. Se você chegar perto de mim e falar que tá com uma coceira, eu começo a me coçar. Quando tem alguém doente, ou eu mesma, já penso o pior, imagino um monte de coisa. Mas será que isso é ser hipocondríaco? Você acha que esse é meu caso?”, pergunta a funcionária pública. Talvez até não seja, mas Ivete encarna o estereótipo dos atingidos pela hipocondria — preocupação persistente com a própria saúde e com a manifestação de doenças graves, geralmente inexistentes.

Há alguns dias, a amiga do trabalho chegou com uma dor na barriga e Ivete sentenciou logo que poderia ser uma apendicite e que ela deveria ir correndo para o hospital. Se alguém comentar sobre um remédio novo, ela já quer logo saber onde comprar. Receitas de chá são as favoritas. “Tomo de amora para os meus hormônios e ontem me passaram uma receita para acabar com a tosse — margarina com mel — que estou louca para experimentar”, conta.

Pesquisar sobre doenças na internet? É com ela mesmo, que ri das próprias neuras. “Eu sei que é errado, mas quando faço exame de sangue e pego o resultado, olho tudo no Google”, confessa. Quando tinha 15 anos, ela sofreu um acidente de carro e machucou o joelho. Há pouco tempo, ela voltou ao ortopedista para ver se estava tudo bem e ele passou algumas sessões de fisoterapia. “Ele falou que era uma coisa muito delicada, que eu preciso cuidar. E que, talvez, no futuro, eu tivesse que usar uma prótese. No dia seguinte, já estava procurando um modelo na internet, claro! Todo mundo me achou louca, mas já estou me informando sobre o assunto, ué”, justifica Ivete.

Para quem padece desse tipo de preocupação exacerbada, basta o corpo apresentar um sinal qualquer, minimamente diferente, para a mente começar a pensar no pior. Para os especialistas, a atual enxurrada de informações sobre doenças, remédios e tratamentos pode ser uma das causas dessa situação. O problema é quando a paranoia e a obsessão entram em cena. Aí sim, é hora levar a sério os verdadeiros sintomas de uma hipocondria.

No caso de Ivete, o pior momento ocorreu alguns anos atrás. O cachorro da família amanheceu com a barriga inchada e começou a passar mal. No fim da noite, morreu. “Acordei no outro dia com os mesmos sintomas, juro! Fiquei com a barriga inchada e achei que ia morrer também. Me despedi dos meus filhos e tudo. Só depois que passou da meia-noite é que consegui melhorar. Ai, minha filha tem tanta coisa, é que não dá nem tempo de contar pra você”, brinca a funcionária pública.

Negação
Os hipocondríacos nunca admitem que se preocupam demais. Eles não conseguem reconhecer que exageram nas suas preocupações e em tratamentos sem orientação médica. Bem diferente dos apenas ansiosos ou preocupados com o contágio de alguma doença, que muitas vezes admitem seus exageros e aceitam as orientações médicas. “A população que sofre de hipocondria não apresenta bons resultados às tentativas de tratamento, porque, geralmente, não se fixam a uma orientação, mudando constantemente de abordagens e permanecendo num mundo de doenças imaginárias”, afirma Luiz Vicente Figueira de Mello, psiquiatra supervisor do programa de ansiedade do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP).

Preocupar-se com a saúde é normal. Sinais ou sintomas podem ser um alerta do corpo para chamar a nossa atenção. Quando isso acontecer, não há dúvidas: é importante procurar ajuda médica para decifrá-los. “Mas se sinais ou sintomas passam a ser, mesmo após esclarecidos pelos médicos ou por nós mesmos, exagerados, persistentes; que nos desviam de nossos afazeres repetitivamente; e quando não acreditamos na orientação profissional, isso pode ser considerado uma preocupação patológica”, alerta Mello .

Mas como saber se essa inquietação é na verdade um caso de hipocondria? Para começar, ela é constante e vem acompanhada de uma forte paranoia. “É saudável ser cuidadoso, mas não pode haver exagero. As possibilidades de doenças existem, mas por que pensar nos mais graves? O hipocondríaco beira o pânico com muita frequência e fica obsessivo. A vida fica começa a ficar limitada, da mesma forma que com as pessoas que sofrem com transtorno obsessivo compulsivo,”, afirma Mônica Mulatinho, médica hebeatra e especialista em terapia psicossocial da Cia do Adolescente & Família.

O temor da advogada Luiza Viana, 27 anos, é com as doenças que não têm cura. Basta ver uma propaganda nova do governo sobre uma delas para bater aquela desconfiança. “Não sou de tomar medicamento, mas sou de fazer muitos exames”, confessa. “Já cheguei a ficar estressada e deprimida achando que estava doente com alguma coisa. Acho que a gente começa a prestar mais atenção em alguns sinais e fica criando dentro da mente uma situação, e a tese só aumenta. Mas se a gente pensar nos fatos, as chances são mínimas”, completa a advogada.

Por causa do trabalho em uma organização não governamental ambiental, Luiza viaja muito e, quando existe uma incidência de alguma doença, ela se preocupa. “Tenho preocupação, principalmente com a hepatite. Eu faço exames, repito várias vezes, me preocupo bastante”, admite. Fazer alguma avaliação médica também causa mal estar para a advogada. “Já tive uma dor forte no estômago e fiquei desesperada, achando que era uma úlcera, e foi justamente na hora do exame que fiquei mais nervosa”, conta.

Ter medo de um sintoma ou da possibilidade de uma doença faz parte do ser humano. Em vários momentos históricos da humanidade, principalmente em casos de epidemias, como a da gripe espanhola, houve o aumento de fobias e de preocupações obsessivas ou hipocondríacas. Para o especialista, o temor cresce na sociedade atual porque se tem mais acesso a dados médicos e opções de tratamento. “Atualmente, há uma maior veiculação de informações e em velocidade excepcional, o que coloca as pessoas suscetíveis em maior fragilidade. No entanto, só aquelas que realmente apresentam algum substrato ou predisposição irão desenvolvê-la como um transtorno emocional”, afirma Luiz Vicente.

Milagres
Uma outra caraterística dos hipocondríacos é encontrar os chamados “remédios milagrosos”. Eles gostam de experimentar todos os tipos de chás e simpatias para curar ou evitar determinada doença. “Existe uma tara por qualquer tipo de remédios. Qualquer coisa que o vizinho ou a comadre sugiram, ele experimenta. Um paciente assim desenvolve soluções que só funcionam para ele e ainda adora dar receita para os outros”, comenta Mônica.

Quem adora ver as últimas novidades da farmácia ou toma qualquer remédio como Ivete precisa tomar cuidado. Mas a automedicação, por si só, não sustenta a existência da hipocondria. De acordo com o psiquiatra da USP, o Brasil tem uma cultura muito forte de automedicação, que vem da época na qual antepassados usavam ervas medicinais coletadas na natureza e também é induzida pela indústria farmacêutica. “Às vezes, nos sentimos mais amparados com um analgésico à mão. Mas quando o uso de uma medicação, sem indicação médica, se torna necessário para aliviar preocupações constantes com prováveis doenças imaginárias e aterradoras, devemos pensar em hipocondria ou na fobia de adoecer”, comenta Luiz Vicente.

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