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Correio Braziliense

Bancária encara doença e faz vídeo para desmistificar hepatite C


postado em 27/05/2010 09:58 / atualizado em 27/05/2010 20:23

Ana Paula também tem um site sobre a doença: incentivo à realização de exames (foto: Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press )
Ana Paula também tem um site sobre a doença: incentivo à realização de exames (foto: Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press )
Considerada um grave problema de saúde em todo o mundo, a infecção crônica pela hepatite C atinge pelo menos 3 milhões de pessoas no Brasil, segundo cálculos da Organização Mundial da Saúde (OMS). Trata-se de uma doença de difícil tratamento, em alguns casos sem cura. A bancária Ana Paula de Barcellos, 32 anos, bem sabe o árduo caminho para enfrentá-la. Diagnosticada em agosto de 2005, ela encara o problema de frente e luta pela desmistificação da enfermidade.

Fundadora de um site com informações sobre o vírus C (www.animando-c.com.br), Ana Paula decidiu fazer um microdocumentário, com cenas do seu dia a dia e relatos de amigos, para mostrar que é possível levar uma vida normal mesmo com a grave inflamação no fígado. Intitulado Hepatite C, sem medo, o vídeo, dirigido e produzido pelo produtor cultural Heraldo Palmeira, também tem a missão de incentivar a realização do exame para detectar a presença do vírus no organismo.

A preocupação de Ana Paula em estimular o diagnóstico precoce faz sentido. Dos cerca de 3 milhões de portadores da doença, pelo menos 95% não sabem que têm a enfermidade. “A hepatite C não é só silenciosa nos sintomas, mas também na sociedade”, lembra a bancária, assinalando que a infecção é, muitas vezes, assintomática.

O desejo de ajudar outros portadores, familiares e amigos das pessoas que convivem com a hepatite C foi despertado em abril do ano passado com a criação do blog Animando-C. Com o pseudônimo Flor, Ana Paula indicava sites e alimentava seu espaço na internet com informações úteis sobre a doença. Depois de ser entrevistada pelo Correio para uma reportagem publicada em 19 de maio de 2009, Dia Mundial de Luta contra as Hepatites Virais, a bancária decidiu compartilhar sua experiência sem recorrer mais ao nome fictício. “Não achei que fosse coerente lutar contra o preconceito e me esconder. Resolvi aparecer e contar para todo mundo”, diz.

Com quase 17 minutos de duração, o microdocumentário conta com a participação especial do maestro João Carlos Martins, protagonista de uma impressionante história de superação em relação a diversos problemas de saúde. “Para muitos, a hepatite C parece algo preocupante. Para Ana, a doença significa o começo. O grande segredo da vida é você conseguir ultrapassar barreiras que parecem intransponíveis”, diz o maestro.

Apoio
Ana Paula descobriu a doença no mesmo momento em que a tia, Lia Marteletto, 53 anos, também portadora da hepatite C, aguardava na fila por um transplante de fígado. “Hoje ela está curada e transplantada”, explica Lea Marteletto, 51, mãe de Ana Paula e irmã de Lia. “Não sei de onde minha filha tira tanta garra.” Recém-casada à época do diagnóstico, a bancária teve medo de que a doença interferisse em seu relacionamento. “Mas foi só receio mesmo. Meu marido me apoia em tudo”, conta a bancária, que acredita ter sido infectada em 1986, aos 8 anos, numa transfusão de sangue.

O tratamento não foi iniciado imediatamente. Em 2005, a bancária não se encaixava nos critérios estabelecidos pelo protocolo do Ministério da Saúde para receber gratuitamente o medicamento. “Só pude começar a tomar o remédio em 2008. Foram 27 semanas e muitos efeitos colaterais”, lembra Ana Paula, que ainda não conseguiu se curar. Hoje, a pequena Amanda, de 2 anos, é seu principal estímulo contra o desânimo. Ela deve tentar um novo tratamento em 2012, quando serão disponibilizadas novas drogas para o tratamento.

Para se ter uma ideia da gravidade da hepatite C no Brasil, basta comparar os números da enfermidade com o de casos de HIV. Enquanto estima-se que aproximadamente 630 mil brasileiros sejam portadores do HIV — sendo que, deste total, 180 mil têm acesso ao tratamento — apenas 25 mil pessoas procuraram as unidades de saúde para se curar da hepatite C. “É um número baixo. O grande problema é que a hepatite C é silenciosa, sem sintomas. E, geralmente, quando a pessoa descobre já fica difícil de alcançar a cura”, afirma o coordenador do Programa Nacional de Hepatites Virais, Ricardo Gadelha.

A saga de Ana Paula contra a hepatite C conta com o importante apoio de seu médico particular, o infectologista José David Urbáez, integrante do Núcleo de Hepatites Virais da Secretaria de Saúde do Distrito Federal. “Ele extrapolou os limites de um profissional. Se envolveu pessoalmente com o meu problema”, diz a bancária. O vídeo já está sendo divulgado pelo seu plano de saúde — a Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil (Cassi) — como forma de conscientizar os associados sobre a hepatite C.

Quando soube que ela queria fazer um documentário, topei na hora. A história dela pode ajudar centenas de pessoas que convivem com a doença”
Heraldo Palmeira, 49 anos, produtor cultural, diretor do microdocumentário Hepatite C, sem medo.

 

Assista ao minidocumentário da bancária Ana Paula de Barcellos

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