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Correio Braziliense

A dança da vida

Mexer o corpo, escutar música, fazer ginástica, namorar, conversar são atividades fundamentais para combater o Mal de Alzheimer e reativar a memória dos pacientes


postado em 04/06/2010 07:00

Maria da Guia Neres da Silva, 58 anos, conheceu Pedro Maia, 80, em uma tarde de 1983, embaixo de um bloco da 208 Sul. O então porteiro apaixonou-se por Maria e decidiu conquistá-la: foi até a Cidade Ocidental, onde a jovem morava e anunciou o seu amor pelo rádio. A declaração deu casamento e hoje, mais de 26 anos depois, a apaixonada Maria passa os dias cuidando de Pedro. O aposentado recebeu o diagnóstico de Alzheimer há três anos, depois de entrar em profunda depressão ao saber da morte de um dos filhos. “Enquanto eu estiver viva, vou fazer tudo o que puder para vê-lo bem”, garante a dona de casa.

Pedro e Maria Maia, paixão de mais de 20 anos e muito carinho: receita do afeto contra o Mal de Alzheimer(foto: Bruno Peres/CB/D.A Press - 28/5/10)
Pedro e Maria Maia, paixão de mais de 20 anos e muito carinho: receita do afeto contra o Mal de Alzheimer (foto: Bruno Peres/CB/D.A Press - 28/5/10)
O companheirismo de Maria fez com que Pedro recuperasse parte da sociabilidade perdida por conta da doença. Durante um ano, a aposentada o acompanhou semanalmente em um projeto de estímulo à expressão corporal de pacientes com Alzheimer. A iniciativa, uma parceria de pesquisadores da Universidade Católica de Brasília (UCB) com a Policlínica de Taguatinga, adaptou movimentos da biodança (1) para fazer com que os idosos reativassem a memória e o contato social. “Antes, as pessoas vinham falar com ele e ele se escondia. Até para fazê-lo comer era um sacrifício. Quando começamos a ir aos encontros, ele melhorou muito. Era ele quem me chamava para ir à Policlínica todas as sextas-feiras”, lembra a mulher de Pedro. Cerca de 20 idosos participaram do projeto, entre julho de 2008 e julho do ano passado. A turma fazia exercícios para estimular três das cinco linhas abordadas pela biodança: a identidade, a afetividade e a criatividade. “A pessoa que tem demência sofre perda gradual da memória. Muitos não sabem sequer como se chamam”, afirma a professora Lucy Gomes, do mestrado em gerontologia da UCB. Em uma das atividades, os pacientes andavam por uma roda, olhando os colegas e dizendo o próprio nome. Se a pessoa não conseguisse falar, a turma ajudava e pronunciava em voz alta o nome do colega. Tudo conduzido ao som de música clássica. A força do afeto As aulas eram acompanhadas por professores da gerontologia, alunos de iniciação científica e voluntários. A assistente social Maria Sueli do Vale, 49 anos, conta que os idosos ficavam mais tranquilos depois dos exercícios. “Eu me emocionava em todos os encontros. É muito gratificante ver uma pessoa em estágio bastante avançado da doença falando ‘eu me chamo Júlia’, ‘eu me chamo Geralda’”, relata Sueli, que é funcionária da Policlínica de Taguatinga. Para estimular a afetividade, os idosos faziam movimentos em que a regra era dar e receber carinho, principalmente na cabeça, no tronco, nas mãos e nos pés. “A afetividade é uma das coisas que se mantém até mesmo em estágios graves do Alzheimer. O estímulo afetivo remete a pessoa a momentos importantes, apagados pela doença”, explica a professora Lucy. Por conta disso, a maioria das músicas utilizadas nos encontros é romântica, de cantores como Roberto Carlos e Elvis Presley. O momento “dor de cotovelo” pode até ser ruim para muitas pessoas, mas foi excelente para os idosos: mais de 75% deles tiveram melhora das funções cognitivas. Uma das explicações para o bom resultado é que as ondas sonoras provocam as ondas cerebrais, fazendo com que os doentes recuperem sensações e sentimentos esquecidos. A psicóloga Carmen de Cárdenas, também professora do mestrado em gerontologia (2) da UCB, conta que muitos pacientes lembravam-se de encontros e serestas ocorridos há anos depois de ouvirem determinadas canções. “Há pesquisas que comprovam os benefícios da música nesses casos, mas a academia científica demora para reconhecer esse tipo de técnica. É um cuidado necessário, mas que mostra a resistência em aceitar tratamentos que fujam da abordagem farmacológica”, diz Carmen. Aproximação O trabalho na Policlínica de Taguatinga também fortaleceu a relação entre os portadores de Alzheimer e seus cuidadores. Isso porque o responsável por cada paciente precisava indicar canções com potencial para sensibilizar o idoso. “Alguns tiveram que pesquisar, ir atrás da música que o avô, a mãe gosta. Isso gerou um efeito que a gente nem imaginava, um bem-estar entre o paciente e o acompanhante”, afirma a professora Carmen. “Muitos idosos já não tinham contato com a realidade. Mas, na hora das músicas, a gente conseguia ver que eles estavam ali, cantando, chorando algumas vezes”, completa a estudante de psicologia Lidyanne Pery, 20 anos, uma das voluntárias do projeto. Por conta disso, os especialistas recomendam que a música faça parte da rotina do portador de Alzheimer. “O idoso tem que estar sempre aprendendo, colocando a cabeça para funcionar”, reforça a professora Lucy Gomes. Indicação seguida à risca por Domingas Soares, 28 anos, que cuida do aposentado José Ezequiel Filho, de 69, e mantém o rádio ligado quase que o dia inteiro. Assim como Pedro Maia, Ezequiel desenvolveu o Alzheimer depois de um forte abalo emocional. “Com a morte da nossa mãe, em dezembro de 2008, ele começou a ficar agressivo e isolado”, lembra Maria do Carmo Mesquita, 73 anos, uma das irmãs de Ezequiel. O aposentado mora com Domingas em Samambaia, mas consegue fazer quase tudo sozinho. Todos os dias, ele levanta às 3h, faz o café e espera o dia clarear para ir a Taguatinga comprar pão. A padaria é a mesma há anos, onde Ezequiel comprava o pão antes de seguir para a casa da mãe. “Eu fazia tudo por ela, tomava café, ficava com ela o dia inteiro”, lembra o aposentado. Domingas conta que a memória de Ezequiel melhorou muito com as oficinas da Policlínica. “Hoje ele depende de mim só para fazer comida e limpar a casa. Mas antes ele era muito esquecido, começava a fazer alguma coisa e, no instante seguinte, não lembrava mais. Ou guardava as coisas em algum lugar e depois não sabia dizer onde estavam”, lembra a cuidadora. Ezequiel e Domingas lamentam que os encontros na Policlínica não estejam mais ocorrendo. Os pesquisadores da Católica planejam recomeçar as oficinas no segundo semestre deste ano. A professora Lucy Gomes explica que a ideia é aprofundar o conhecimento sobre os efeitos dessa terapia. “Queremos reunir mais pacientes e fazer a coleta de sangue antes e depois das atividades para verificar se os estímulos melhoram a parte imunológica”, detalha. Há outros projetos, mas que ainda precisam de aprovação em agências de fomento à pesquisa: acompanhar os distúrbios do sono dos portadores de Alzheimer, estudar a relação dos pacientes com os cuidadores e a espiritualidade dos acompanhantes. 1 - Estímulo e criatividade A biodança foi criada na década de 1960 pelo psicólogo e antropólogo chileno Rolando Toro como uma forma de dar mais qualidade de vida a seus pacientes. A técnica mistura exercícios e música para melhorar a saúde, a comunicação e estimular a criatividade. Nesse sentido, é mais uma terapia do que uma arte. A biodança trabalha com cinco linhas: vitalidade, sexualidade, criatividade, afetividade e transcendência. 2 - Velhice saudável A gerontologia é o ramo da ciência que estuda o processo da velhice, aspectos relacionados à conduta do idoso, ao ambiente em que ele vive, à sua formação cultural. A diferença entre gerontologia e geriatria é que a última ocupa-se de doenças que acometem os idosos, enquanto a primeira preocupa-se com a qualidade de vida durante a velhice. Psicóloga Carmen de Cárdenas fala sobre atividades para reativar a memória de pacientes com Alzheimer

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