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Correio Braziliense

Filhos do mesmo pai

Depois de análises genéticas minuciosas, pesquisadores de universidade norte-americana concluem que os judeus têm, assim como afirma a Bíblia, um ancestral em comum


postado em 04/06/2010 07:00

“Abraão tinha 99 anos. O Senhor apareceu-lhe e disse-lhe: ‘Eu sou o Deus Todo-poderoso. Anda em minha presença e sê íntegro; quero fazer aliança contigo e multiplicarei ao infinito a tua descendência.’ Abraão prostrou-se com o rosto por terra. Deus disse-lhe: ‘Este é o pacto que faço contigo: serás o pai de uma multidão de povos.’” (Gênesis, capítulo 17, versículos 1 a 4)

Pai caminha com as filhas em Nova York: mesmo depois da diáspora, que os levou às Américas, judeus preservaram traços genéticos específicos(foto: Tina Fineberg/ AP Photo - 21/3/08)
Pai caminha com as filhas em Nova York: mesmo depois da diáspora, que os levou às Américas, judeus preservaram traços genéticos específicos (foto: Tina Fineberg/ AP Photo - 21/3/08)
O primeiro livro da Bíblia conta que, quando Sara, mulher de Abraão, soube da promessa feita por Deus, caiu na gargalhada. “Velha como sou, conhecerei ainda o amor?”, pensou. Mas, conforme a previsão divina, ela deu à luz Isaac, cujo nome significa, em hebraico, “ela vai rir”. Dele, descenderam os representantes das 12 tribos de Israel, que deram origem ao povo judeu.

Uma pesquisa publicada ontem pela revista especializada American Journal of Human Genetics provou que Abraão não é apenas um personagem mitológico. Se tinha esse nome e foi pai aos 100 anos, não se sabe. Mas a ciência está certa de que os judeus têm um ancestral em comum. Por meio de uma minuciosa análise genética, pesquisadores do Langone Medical Center, de Nova York, conseguiram provar que, mesmo com a diáspora de 2,5 mil anos atrás, quando começaram a se dispersar do Reino de Judá, os judeus continuaram compartilhando seus genes.

Além da cultura e da religião, a pesquisa sugere que os judeus podem, de fato, ser considerados um povo coeso. Nem mesmo as miscigenações ocorridas na Europa, na África e, posteriormente, na América, para onde migraram ao longo dos séculos, apagaram do sangue judaico a genética do “pai” Abraão. Estudos anteriores baseados no tipo sanguíneo e na análise sorológica dos judeus já sugeriam que eles se originaram no Oriente Médio, devido à grande similaridade genética nas populações judaicas. “O que mostramos é que, ainda com a diáspora, os grupos de diferentes regiões do mundo ainda têm uma série de características genéticas em comum”, explica Harry Ostrer, principal autor do estudo (leia entrevista ao lado).

Com sua equipe, Ostrer, que é professor de pediatria e patologia, analisou o genoma de 237 judeus dos três principais grupos formados após a diáspora: os ashkenazim, do leste europeu; os sefaradim, da Itália, da Grécia e da Turquia; e os mizrahim, do Irã, do Iraque e da Síria. Só entraram na pesquisa pessoas cujos quatro avós pertenciam à mesma comunidade judaica. Os resultados foram comparados com a análise do DNA de 418 não judeus, provenientes de vários países. Apesar das variações genéticas entre os três grupos judaicos, elas foram bem menores do que as diferenças de judeus e não judeus. “Nós mostramos que a origem judaica pode ser identificada por análises genéticas. A noção de um povo judeu é plausível”, diz Ostrer.

História
A pesquisa do DNA ajuda a contar a história dos judeus. Os dois maiores grupos, do Oriente Médio e da Europa, separaram-se há cerca de 2,5 mil anos, afirmam os cientistas. As populações do sudeste europeu mostram grande proximidade genética quando comparadas aos ashkenazim e aos sefaradim, o que, segundo o estudo, é reflexo da larga escala de europeus da região convertidos ao judaísmo. As análises genéticas mostraram que a miscigenação entre judeus e não judeus, que deu origem ao atual povo judaico europeu, ocorreu por volta de 2 mil anos atrás.

Outro resultado do estudo é que, no grupo sephardim, existe, aparentemente, um componente ancestral norte-africano. Isso pode ter ocorrido devido à mistura do DNA dos mouros e dos judeus na Espanha, entre 711 e 1492, quando os árabes dominaram a Península Ibérica, então habitada também pelos descendentes de Abraão. Os árabes teriam passado para os judeus o gene do norte da África. Já a estrutura do genoma dos ashkenazim indica a expansão ocorrida no século 19, quando as populações judaicas no leste e no oeste europeu cresceram duas vezes mais rápido do que os demais grupos. Esse fato, na história, é conhecido como “o milagre demográfico”.

O primeiro mapeamento genético dos principais grupos judaicos não servirá apenas como curiosidade histórica. De acordo com um dos coautores, Edward Burns, o estudo levará à pesquisa sobre a origem de doenças genéticas. “Os resultados fornecem a ‘impressão digital’ genética de várias subpopulações judaicas, e isso pode nos ajudar a entender a ligação desses genes com problemas cardíacos, câncer e diabetes, entre outras doenças”, afirma Burns.

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