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Correio Braziliense

Rebanho de cavalos-marinhos

Trabalho conjunto de pesquisadores do Espírito Santo e de empresa de exportação de peixes ornamentais resulta na primeira fazenda desses animais no país


postado em 08/06/2010 10:14 / atualizado em 08/06/2010 14:11

A poluição, a destruição do habitat natural e a pesca indiscriminada estão provocando o desaparecimento gradativo de cavalos-marinhos em todo o planeta. Segundo dados coletados pela União Internacional para Conservação da Natureza (UICN), pelo menos oito espécies estão ameaçadas de extinção. No total, foram contabilizadas 34 espécies em todo o mundo, sendo que apenas duas podem ser encontradas no Brasil: a Hippocampus reidi e a Hippocampus erectus. Visando à conservação desses animais, uma pesquisa desenvolvida em parceria entre a Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e uma empresa de exportação de peixes ornamentais marinhos deu origem à primeira fazenda de cavalos-marinhos em cativeiro do país.

Os cavalos-marinhos são encontrados em fundos

aquáticos, arenosos ou lodosos, em profundidades que podem variar de 8m a 45m. As tonalidades características desses animais são as mais variadas e chamam a atenção de pesquisadores e leigos pela beleza estonteante. A espécie Hippocampus reidi, objeto de estudo dos pesquisadores da Ufes, pode ser encontrada em várias cores, mas as mais comuns são amarelo, vermelho, laranja e preto. De acordo com o mestrando Maik da Hora, coordenador do estudo na universidade, esses cavalos-marinhos podem chegar a medir 24cm. “O cardápio preferido desses indivíduos é composto basicamente de microcrustáceos. Em cativeiro, as artêmias também costumam ser muito apreciadas”, destaca.

Atualmente, o animal — encontrado em toda a costa brasileira, principalmente em mangues e estuários — está catalogado na categoria “vulnerável”, segundo critérios da UICN . De acordo com Hora, o perigo é real e precisa ser monitorado. “Os principais problemas que ameaçam a espécie são a degradação ambiental, a poluição dos estuários, o desmatamento de manguezais e as dragagens. Qualquer ação antrópica (provocada pelo homem) é considerada uma grande ameaça”, destaca.

Para chegar à primeira fazenda de cavalos-marinhos foram necessários quatro anos de pesquisa. No conjunto de aquários, os pesquisadores acompanham todo o processo de vida dos animais até eles chegarem à fase adulta. “A primeira etapa ocorre quando os cavalos-marinhos recém-nascidos vêm ao mundo. Eles são separados dos demais em um aquário específico. Todo o processo, que vai do nascimento dos animais até que eles atinjam o tamanho mínimo de exportação, dura cerca de 100 dias”, explica Hora.

Segundo o dono da empresa parceira na iniciativa, Juan Pablo de Marco, essa é a primeira fazenda da espécie H. reidi de que se tem notícia no mundo. Já o trabalho de Maik da Hora é o primeiro publicado internacionalmente sobre a reprodução da espécie. De Marco explica que já fazia a criação de cavalos-marinhos anteriormente. “Porém precisávamos provar aos órgãos ambientais que fazíamos o processo corretamente. A universidade acompanhou e descreveu todo o mecanismo”, enfatiza.

O empresário diz que o projeto acabou despertando o interesse em outros países. “Até os chineses ficaram interessados em grandes quantidades desses animais para uso na medicina. Investimos muito ao longo de oito anos e não tivemos apoio financeiro nenhum. Agora, buscamos parcerias. Os animais exportados estão sendo vendidos por cerca de US$ 12”, explica.

Sobrevivência
A ameaça de extinção de algumas espécies de cavalos-marinhos tem despertado a atenção de especialistas no mundo todo. O biólogo marinho David Harasti, da Universidade de Newcastle, na Austrália, é autor de um estudo que criou em cativeiro o cavalo-marinho-de-barriga e o cavalo-marinho-branco. Os animais foram soltos na baía de Sydney e, caso a iniciativa atinja os resultados pretendidos, o programa poderá ser usado em outros países.

As duas espécies não estão ameaçadas, mas o estudo ajudará a verificar se é possível criar animais para, mais tarde, inseri-los em seu habitat natural. “O grande desafio é fazer com que os animais que nasceram nos cativeiros sobrevivam no ambiente natural”, afirma Harasti, em entrevista por e-mail.

Na lista da UICN, composta por oito espécies ameaçadas de extinção, o cavalo-marinho-do-cabo, que vive nos mares da África do Sul, é o que corre maior risco de desaparecimento. Segundo o australiano, uma das características mais fascinantes dos cavalos-marinhos é o fato de os machos darem à luz aos filhotes. “Eles são os únicos animais em que isso ocorre. Eles podem trazer ao mundo vários filhotes de uma única vez”, destaca. De acordo com Hora, o macho possui uma bolsa no ventre, chamada de marsúpio. “A fêmea deposita os ovócitos nessa bolsa, onde ocorre a fecundação”, explica.

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