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Correio Braziliense

Descobertas longínquas

Pesquisadores de projeto coordenado pelo Brasil e pela França anunciam a identificação de seis planetas e uma estrela-anã a milhares de anos-luz de distância. Corpos celestes desse tipo são a principal esperança de encontrar vida extraterrestre


postado em 21/06/2010 10:04

O mapa do Universo está mais completo desde o anúncio das últimas descobertas feitas pelo satélite franco-brasileiro CoRoT (sigla para Convection Rotation and Planetary Transits Satelite). Os cientistas que trabalham com o equipamento noticiaram na semana passada a identificação de seis exoplanetas e de uma estrela-anã marrom. Dessa forma, sobe para 15 o número de corpos celestes encontrados pelo mecanismo de observação. Outros sete planetas e uma estrela já haviam sido observados pela primeira vez graças ao CoRoT, que deve continuar em órbita até o fim de 2012.

Segundo Sylvio Ferraz Mello, professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (USP) e participante do projeto, os planetas estão a uma distância entre 500 e 4 mil anos-luz da Terra — algo em torno de 3,8 quatrilhões e 38 quatrilhões de quilômetros de nosso planeta, bem próximos a uma estrela similar ao Sol, na constelação Serpens Cauda. “O menor planeta tem a metade do diâmetro de Júpiter, cerca de 71 mil quilômetros, e o maior, uma vez e meia o diâmetro do mesmo planeta, com 214 mil quilômetros, aproximadamente”, conta.

O presidente do Comitê CoRoT-Brasil, Eduardo Janot, conta que estudar esses corpos espaciais pode resultar, no futuro, na descoberta de planetas semelhantes à Terra. “E, a partir daí, pode ser encontrado inclusive vida superior ou até vida pensante”, justifica. O satélite franco-brasileiro é o único — além do Kepler, recentemente lançado pelos Estados Unidos — munido de instrumentos capazes de fazer esse tipo de estudo. “Trata-se da primeira vez que a humanidade tem tecnologia suficiente para observar corpos tão pequenos e tão distantes”, explica Janot.

A pesquisa brasileira não se limita a determinar apenas a existência e a localização dos planetas. “A grande vantagem da técnica que nós utilizamos é que ela possibilita medir não apenas o tamanho do planeta, mas também sua massa”, explica Mello, da USP. De posse desses dados, é possível estudar a existência de fenômenos internos em cada um dos corpos, como suas marés. “Essas marés deformam os planetas e provocam variações em sua orbita, que podem fazer com que eles se choque com a estrela no futuro”, explica.

Meses de observação
Descobertas como as realizadas pelo CoRoT são raras e trabalhosas. “Primeiro, monitoramos um grupo de estrelas pelo período de 150 dias. Quando um planeta passa na frente delas, ele gera uma espécie de sombra. É essa variação da luminosidade emitida pela estrela que nos dá o primeiro indício de que pode haver algum corpo gravitando ao redor dela”, explica o pesquisador da Universidade de São Paulo (USP).

O passo seguinte é investigar se a sombra foi causada por alguma interferência externa, como um cometa ou uma nuvem de poeira espacial, ou se realmente é fruto da presença de um planeta. “A partir daí, nós pesquisamos mais intensamente essa estrela e verificamos se essa alteração se repete com frequência. Esse é o segundo sinal que pode determinar se há um planeta ali ou não”, comenta Mello. “Por fim, fazemos novas observações com telescópios em terra, para só então termos a comprovação de que estamos diante de um novo corpo celeste. Por isso, a estrela e os planetas que anunciamos agora vinham sendo observados há mais de um ano”, explica o pesquisador.

Em ocasiões anteriores, o mesmo satélite já havia descoberto outros planetas e estrelas semelhantes. Entre eles, estão algumas joias do espaço, como define Mello. “Descobrimos um planeta que possivelmente possui água em estado líquido, o CoRoT-9b, e outro com características semelhantes às da Terra, o 7b, o que é extremamente raro”, afirma o cientista.

O trabalho do CoRoT deve durar mais um ano e meio, e outros planetas e estrelas ainda podem ser descobertos. “Temos algumas novidades ‘saindo do forno’. Se nossas expectativas se confirmarem, logo anunciaremos vários outros planetas. Até o fim do projeto, a previsão é que haja mais 20 ou 30 descobertas”, antecipa Mello. “Temos cerca de 300 bons candidatos a planeta. Nos próximos dois anos, vamos analisá-los”, complementa Janot Pacheco.

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