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Correio Braziliense

A doença das águas

Instituto René Rachou integra consórcio de pesquisadores brasileiros e estrangeiros que busca novas drogas contra a esquistossomose, um mal que mata cerca de 200 mil por ano no mundo


postado em 23/06/2010 07:00 / atualizado em 22/06/2010 23:35


Laura Valente

Belo Horizonte — Nem mesmo habitantes de cidades grandes e desenvolvidas, com acesso a saneamento básico, estão totalmente livres de risco: a esquistossomose, conhecida também como xistose ou doença do caramujo, pode ser adquirida durante um passeio de fim de semana, por meio do contato com a água de rios, lagos, represas e córregos que contenham caramujos do gênero Biomphalaria (hospedeiros intermediários) infectados com o Schistossoma mansoni. Mas a doença afeta com maior frequência populações que vivem em regiões endêmicas e não tem acesso a mecanismos de infraestrutura como água tratada e esgoto.

Nesses locais, casos de reincidência da xistose são uma constante que vem não só provocando o mal, como atraindo a atenção da comunidade científica, uma vez que há a ameaça de que o parasita desenvolva resistência à droga com a qual a doença é tratada atualmente, o praziquantel.

Com foco nessa ameaça, o Centro de Pesquisas René Rachou (CPqRR/Fiocruz), em Belo Horizonte, integra um consórcio que pesquisa novas drogas contra a doença. Além da unidade mineira da Fundação Oswaldo Cruz, o Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP), o Instituto de Bioquímica Médica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e seis departamentos de pesquisa europeus estão envolvidos no projeto que ganhou o nome de Schistosoma epigenética – metas, regulação e novas drogas, coordenado por Raymond Pierce, do Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa Médica (Inserm), instalados no Instituto Pasteur de Lille, na França.

Dados de 2008 da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que no Brasil 6,79 milhões de pessoas estão contaminadas. No mundo, a doença infecta 207 milhões de habitantes anualmente. “Falamos em estatísticas porque apenas nas regiões não endêmicas o sistema de saúde é obrigado a notificar os casos da doença. Além disso, muitas vezes os sintomas são parecidos com viroses, helmintoses e bacterioses, o que pode confundir paciente e médico. Em muitos casos, o diagnóstico clínico associado a evidências epidemiológicas (como contato com a água contendo caramujos transmissores) justifica o tratamento”, explica a pesquisadora do Laboratório de Esquistossomose do Instituto René Rachou, Cristina Toscano.

Consórcio
Cerca de 45 pesquisadores trabalham no consórcio, financiado por governos europeus. De acordo com o coordenador do Grupo de Genômica e Biologia Computacional do CPqRR/Fiocruz, Guilherme Oliveira, a primeira etapa do projeto teve início em janeiro e consiste em identificar genes que codificam as proteínas-alvo no genoma do Schistossoma, parasita causador da esquistossomose.

Estes alvos poderão ser atacados pelas drogas pesquisadas para que sejam identificadas aquelas que têm maior eficácia. “Nosso primeiro alvo é identificar o que chamamos de proteínas modificadoras de histonas, responsáveis por regular a estrutura dos cromossomos no parasita e, com isso, a atividade dos genes. Se perturbamos esse mecanismo, alteramos o funcionamento global dos genes e o verme morre”, explica.

O pesquisador revela ainda que o grupo vai trabalhar por três anos na primeira etapa das pesquisas. “O que existe de diferente e único nesse projeto é que conseguimos montar toda uma cadeia, desde a identificação do alvo até o que chamamos de composto líder. Quanto mais opções de alvos conseguirmos, mais chances teremos de chegar a um composto líder que poderá ser desenvolvido em uma nova droga.”

Resistência
Vale ressaltar que o praziquantel, droga usada no combate à doença, ainda é eficiente, no entanto, não age sobre parasitas jovens. Além disso, há evidências que apontam para o aparecimento de parasitas resistentes devido aos casos de reincidência em regiões endêmicas.

Nesse sentido, o trabalho do consórcio objetiva antecipar soluções para um problema iminente. “Há um consenso de que precisamos de novas drogas, de estratégias de controle mais eficientes”, reforça Oliveira. “A esquistossomose é uma doença negligenciada, que não atrai o interesse da indústria farmacêutica. Hoje, estamos totalmente dependentes de uma única droga para o controle da doença”, observa o especialista, que acredita no sucesso do projeto.



Para saber mais
Fases do processo
Cinco espécies de helmintos (parasitas) provocam a esquistossomose, mas no Brasil existe apenas a espécie Schistossoma mansoni. Tudo começa com a libertação das cercárias (larvas do parasita) do caramujo, e que penetram na pele. Em seguida, elas perdem a cauda e se transformam em esquistossômulos, que atingem os vasos sanguíneos e passam por órgãos como coração, pulmão e vasos do fígado, até se instalarem nas veias do intestino.

Nesta etapa de sua evolução, produzem ovos que são em parte expelidos pelas fezes humanas, e em parte retidos em órgãos como fígado e pulmão (em casos raros, na medula espinhal e no encéfalo). O contato das fezes com a água resulta na liberação de larvas (miracídeos) que penetram no caramujo e se transformam em cercárias. Estas podem infectar seres humanos dando início a um novo ciclo da doença.

Em um primeiro momento, na fase aguda, a doença pode causar febre irregular acompanhada de suor, calafrios, mal- estar, dores pelo corpo, falta de apetite, dor abdominal e dor de cabeça. A fase aguda da doença pode variar de 10 a 120 dias.

Ao longo do tempo, os ovos causarão danos aos órgãos humanos devido à inflamação ao redor dos mesmos, o que pode levar ao aumento do fígado e do baço (forma hepatoesplênica, vulgarmente conhecida como barriga d’água). A manifestação mais grave no fígado é a hipertensão portal, que quando não tratada pode levar o doente ao óbito.

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