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Correio Braziliense

Cresce ameaça à vida marinha

Quantidade de fitoplânctons nos oceanos vem caindo, em média, 1% ao ano, revela estudo publicado hoje na revista Nature. Base da cadeia alimentar das espécies subaquáticas, os micro-organismos estariam sofrendo duramente com o aquecimento global


postado em 29/07/2010 07:10 / atualizado em 29/07/2010 09:03

A preocupação com as mudanças climáticas tem se concentrado nos efeitos negativos sobre a vida terrestre. Novos estudos, porém, sugerem que os oceanos também já estão sendo afetados de forma grave pelo aquecimento do planeta. Dois artigos publicados hoje pela revista especializada Nature alertam que a vida marinha passa por alterações que podem trazer profundas implicações para os oceanos e, consequentemente, para a Terra. Uma das pesquisas, conduzida por uma equipe internacional de cientistas, concluiu que a quantidade de fitoplânctons vem diminuindo, em oito das 10 regiões oceânicas analisadas em todo o mundo, a uma taxa média de 1% ao ano.

(foto: Nasa Earth Observatory Collection/Divulgação)
(foto: Nasa Earth Observatory Collection/Divulgação)
A tendência foi verificada principalmente no Hemisfério Norte, a partir da década de 1950. Na região, houve um declínio de aproximadamente 50% na presença desses micro-organismos, essenciais para a vida marinha por serem a base da pirâmide alimentar oceânica. Segundo Daniel Boyce, principal autor do estudo, “os fitoplânctons são o combustível do ecossistema marinho. Um declínio afeta tudo que está acima na cadeia alimentar, incluindo os homens”.

Usando dados históricos e recentes, a equipe de cientistas descobriu que o declínio a longo prazo dos fitoplânctons está associado primordialmente ao aumento da temperatura da superfície do mar. Eles destacam que algumas pesquisas anteriores já sugeriam a diminuição desses micro-organismos, mas os estudos baseavam-se apenas em dados por satélite. No artigo publicado na Nature, os cientistas também utilizaram as imagens aéreas, mas combinaram os dados com uma compilação inédita que data do fim do século 19, além de estudarem amostras do pigmento dos fitoplânctons, a clorofila. O resultado foi um banco de dados com meio milhão de informações, que remontam a 1899.

De acordo com o estudo, em 1865 o padre Pietro Angelo Secchi foi designado pelo Vaticano a descobrir o nível de transparência do Mar Mediterrâneo. Ele, então, inventou um dos mais simples instrumentos oceanográficos, um disco de 20cm de largura, que tinha a função de determinar até onde a luz solar conseguia penetrar no oceano. Assim, surgiu o disco de Secchi, ferramenta que até hoje é usada por pesquisadores. A relação do equipamento com o fitoplâncton é que, como fazem fotossíntese, essas algas microscópicas precisam de luz para se reproduzir. Por isso, só são detectadas na superfície do mar.

Ao longo do século passado, muitos pesquisadores começaram a medir o nível de colorifla — sinal da presença dos fitoplânctons —, com o auxílio da descoberta de Secchi. Eles constatavam um decréscimo contínuo da substância e registravam esses dados que, até agora, não haviam sido compilados. A equipe de Boyce reuniu todos esses dados e acrescentou outros, fazendo medições com equipamentos mais modernos e precisos. Com isso, os cientistas conseguiram detectar que, nos locais onde a temperatura da superfície do mar sofreu aquecimento, há uma presença menor de clorofila, indicando que os fitoplânctons estão em declínio. Ao mesmo tempo, nas águas geladas das regiões polares, o aquecimento global teve efeito inverso: o calor permitiu a expansão dos micro-organismos.

Segundo um dos autores da pesquisa, David A. Siegel, da Universidade de Santa Bárbara, nos Estados Unidos, diversas razões podem explicar o aumento da temperatura oceânica, como a alteração natural da direção das correntes marítimas e a ocorrência de fenômenos climáticos independentes da ação do homem, como o El Niño. Para ele, a humanidade não pode ser responsabilizada por todas as mudanças no planeta: “No mundo, as coisas precisam mudar naturalmente, e acredito que as plantas e os animais marinhos vão se adaptar a essas mudanças”.

Biodiversidade
Já a equipe da universidade canadense de Dalhousie, que assina outro artigo sobre alterações nos oceanos na edição de hoje da Science, diz que o homem tem responsabilidade por mais um problema que atinge a vida marinha: a mudança na distribuição da fauna e da flora do fundo do mar. Segundo eles, a temperatura é a peça-chave da biodiversidade, e o aquecimento dos oceanos, com outros impactos provocados pelo homem, poderá modificar significativamente a distribuição dos animais ao longo das camadas aquíferas.

Para chegar a essa conclusão, o biólogo Derek Tittensor, da Universidade de Dalhousie, mapeou e analisou as tendências da biodiversidade de 11 mil espécies oceânicas, pertencentes a 13 grandes grupos. Ele descobriu que a distribuição das plantas e dos animais está diretamente ligada à temperatura do mar. Segundo Tittenson, isso sugere que as mudanças climáticas terão um grande impacto na geografia da vida oceânica. O grupo de cientistas também concluiu que, quanto maior é a ação local do homem, mais diferenças ocorrem na distribuição das espécies.

De acordo com o estudo, muitas pesquisas já foram realizadas sobre o padrão da biodiversidade terrestre, mas o conhecimento sobre a distribuição da vida marinha ainda é bastante limitado. Porém os cientistas envolvidos no artigo publicado na Nature conseguiram identificar a localização dos principais grupos marinhos, incluindo corais, baleias e tubarões. Pela primeira vez, foi possível mapear a diversidade global dos peixes que vivem em áreas costeiras.

Eles descobriram que a distribuição da vida marinha segue dois padrões fundamentais: espécies costeiras, como corais e alguns tipos de peixes, estão mais presentes na área correspondente ao sudeste da Ásia, enquanto que animais típicos do mar aberto, como atuns e baleias, concentram-se muito mais nas médias latitudes oceânicas. “É impressionante como a temperatura está diretamente ligada à diversidade marinha. Essa relação sugere que o aquecimento do oceano, provocado pelas mudanças do clima, pode rearranjar a distribuição da vida marinha”, disse ao Correio Derek Tittensor.

O estudo também verificou a relação entre a diversidade das espécies e os impactos humanos, como os efeitos combinados da pesca, da alteração do habitat e da poluição. A ação do homem ocorre, particularmente, em áreas de grande diversidade, sugerindo que, nesses locais, o potencial de extinção das espécies é enorme. “Nossa pesquisa fornece mais provas de que limitar o aumento da temperatura oceânica e as ações humanas serão de grande importância para a segurança da biodiversidade marinha no futuro”, afirma Tittensor.

Alimentos fundamentais
# Os fitoplânctons (em azul, uma cadeia no Atlântico Oeste, vista do espaço) são micro-organismos aquáticos unicelulares, que possuem clorofila e fazem a fotossíntese

# Como precisam de luz, são encontrados a cerca de 200m de profundidade. Ao absorver o gás carbônico da água, eles liberam oxigênio na atmosfera. Para crescer, precisam de luz, nitrogênio, fosfato e ferro, nutrientes levados das águas geladas e profundas até a superfície, por meio das correntes marítimas

# A nutrição do fitoplâncton depende da mistura bem dosada entre água fria e quente. Quando a temperatura da superfície está muito quente, os nutrientes não conseguem chegar até onde estão os micro-organismos. Isso faz com que eles parem de crescer

# Os fitoplânctons são a base da cadeia alimentar da vida marinha. Eles são o alimento dos zooplânctons (organismos que não fazem fotossíntese e vivem dispersos nas colunas de água) que, por sua vez, são a presa de peixes pequenos, que alimentarão os maiores etc.

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