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Correio Braziliense

Na hora de remover tatuagens, vem o drama da dor e os riscos

Aranhas, duendes, flores, nomes, cupidos, símbolos de uma época ou de um romance pregados no corpo como tatuagens


postado em 30/07/2010 08:40 / atualizado em 30/07/2010 12:55

Carregadas de significados, as tatuagens perpetuam na pele um momento especial da vida, um amor, uma convicção política, etc. Mas o tempo passa, a vida muda e, em alguns casos, essas figuras podem perder o significado que antes possuíam, passando a se tornar indesejáveis. Mas como fazer para livrar-se da tatuagem, indaga a maioria dos que se arrependem de ter os sinais na pele.

Tokarski remove a laser um duende desenhado nas costas de Letícia(foto: Carlos Moura/CB/D.A Press )
Tokarski remove a laser um duende desenhado nas costas de Letícia (foto: Carlos Moura/CB/D.A Press )
Até há alguns anos a saída era apenas a retirada cirúrgica e a dermoabrasão (raspagem), métodos até hoje utilizados, mas que deixam uma cicatriz parecida com uma queimadura. Atualmente, já é possível apagar tatuagens sem deixar as marcas do passado, utilizando-se o laser. “É possível remover a tatuagem completamente. Porém, em alguns tipos pode ser que fique um sombreado que com o tempo vai desaparecendo”, avalia o dermatologista Gilvan Alves, presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia Regional DF.

O tratamento é feito em várias sessões — com duração de 15 minutos cada —, cujo número vai depender do tamanho da tatuagem, da profundidade do pigmento na pele e, também, das cores usadas nos desenhos. “Na maioria das vezes, a média é de seis a 20 sessões, com intervalos de dois meses, no mínimo”, informa o dermatologista Erasmo Tokarski, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica Regional DF.

O tratamento das tatuagens com o laser era feito com aparelhos que vaporizavam os tecidos, como o laser de argônio e de dióxido de carbono, que apresentavam resultados fracos para a remoção dos pigmentos e alta incidência de efeitos colaterais e complicações, como cicatrizes. O princípio da fototermólise seletiva revolucionou o tratamento das tatuagens. Esta técnica utiliza lasers que atingem um alvo específico, no caso das tatuagens, um tipo de cor. Esse alvo atrai o raio, absorvendo a sua energia, o que causa a sua destruição sem dano aos tecidos adjacentes.

Cores
A maior dificuldade na remoção da tatuagem são as cores. O amarelo e o vermelho são os pigmentos mais difíceis de serem removidos. “Essas cores exigem uma associação de lasers para despigmentar. Normalmente, são usados dois tipos de lasers diferentes para alcançar o resultado”, disse Gilvan. De acordo com Tokarski, o vermelho e o amarelo exigem uma intensidade maior de luz para desaparecer.

O cirurgião explica que para essas cores são aplicadas ondas de luz mais curtas e intensas do que para as tintas preta e azul. “Eu diria para não fazer uma tatuagem. Mas se quiser fazer, faça com cores escuras, de preferência preta e azul, que são bem mais fáceis de serem removidas”, sugere Erasmo.

Outra dificuldade na remoção do desenho é a profundidade com que foi cravada na pele. Segundo Tokarski, quando a tatuagem é benfeita, fica na mesma profundidade e isso facilita uma ação melhor do laser no pigmento. “O problema é quando o tatuador ultrapassa a membrana basal, que divide a epiderme da derme. Nesse caso, a pessoa vai precisar de mais sessões para chegar até o pigmento”, explica Tokarski.

A localização também é outro fator que dificulta a remoção do desenho. Os dermatologistas listam o peito, as costas, a nuca e os dorsos das mãos e dos pés como os locais mais difíceis de se obter um bom resultado. O motivo é que esses lugares apresentam grande probabilidade de desenvolver queloide (cicatriz saliente, dura, de cor rosa), apesar de sumir a tatuagem, segundo Gilvan Alves.

Dói no corpo e no bolso

A geóloga Letícia Lemos, 31 anos, está na oitava sessão de laser para remover um duende que tatuou nas costas quando tinha 17 anos. “A tatuagem não me atrapalha em nada, mas ela não tem mais nada a ver comigo. Por isso decidi removê-la”, justifica. “Vi a cirurgia plástica e a raspagem, mas todas iriam deixar cicatriz”, ponderou Letícia, agora satisfeita com os resultados do laser.

A estilista Fernanda Ferrugem, 33, não teve a mesma sorte de achar um tratamento a laser e retirou sua antiga tatuagem — uma aranha na mão. “Não conhecia outro método. Aproveitei que iria para a mesa de cirurgia, por conta de outro problema, para me livrar da tatuagem”, disse. O resultado foi uma cicatriz que parece queimadura. “Ainda bem que o desenho era pequeno e não senti dor”, contou.

“Para fazer uma tatuagem, a pessoa leva até três sessões, ou seja, sofre três vezes. Para retirá-la é quase um ano. O sofrimento é maior”, compara Tokarski. Para amenizar a dor, é recomendável usar uma pomada anestésica 30 minutos antes da sessão.

A fotógrafa Priscilla Debatista Brito, 30 anos, está no fim do tratamento. Ela começou as sessões há exatamante dois anos e só agora sua tatuagem — um tribal no braço — está sumindo. “Na primeira sessão, quase morri de dor. Achei que não fosse aguentar. Mesmo com um jato gelado, que a assistente joga enquanto o laser atua, é como se estivesse queimando a pele”, relata. “O alívio é que a dor vai diminuindo no decorrer das sessões”, comemora. “Tatuagem é algo permanente. Dá para remover, mas existem os ônus que a pessoa paga, a dor e o dinheiro gasto”, avalia Gilvan Alves. Dependendo do tamanho da tatuagem, uma sessão pode custar de R$ 550 a R$ 1,2 mil.

Três perguntas para
Erasmo Tokarski Cirurgião dermatologista


A aplicação do laser é segura?
Estes lasers, que são específicos para agir no pigmento, têm sido largamente aplicados aqui no Brasil e no exterior por milhares de pacientes e não se conhecem efeitos danosos à saúde. Em geral o risco de cicatriz é mínimo, pois a luz do laser danifica apenas a tinta da tatuagem e não a estrutura da pele. Dentro da sala de procedimento com laser, a permanência só é permitida com o uso de óculos especiais.

O que acontece após o tratamento?

Imediatamente após a exposição ao laser, a região tratada se torna ligeiramente branca, o que usualmente regride em 20 minutos. Nos dias seguintes uma casquinha irá se formar na região, que em alguns casos terá a mesma cor da antiga tatuagem; isso ocorre porque a tinta superficial estará saindo naquela crosta. A pele habitualmente volta ao normal de 10 a 15 dias faltando apenas a repigmentação natural através da melanina (pigmento marrom-escuro encontrado na pele, pelos e íris).

Quais são os efeitos colaterais?
A nossa pele tem um pigmento natural que é exatamente a melanina, que também absorve a energia do laser. Nas pessoas com a pele escura, a área tratada pode ficar um pouco mais clara por um período de alguns meses. A melanina normalmente volta a repovoar essa área restaurando a cor natural, mas a tinta da tatuagem, uma vez retirada, não volta mais.

 

Ouça entrevista com o dermatologista Gilvan Alves

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