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Correio Braziliense

Ameaça invisível

Pesquisadores da Inglaterra descobrem um gene que pôs em alerta a comunidade científica que trabalha com saúde pública. O NDM -1, encontrado em bactérias do intestino, tem a capacidade de contaminar outras e torná-las resistentes a qualquer tipo de antibiótico


postado em 12/08/2010 07:00 / atualizado em 12/08/2010 09:19

Uma superbactéria resistente a todos os antibióticos disponíveis no mercado pode se espalhar pelo mundo, desencadeando uma pandemia com consequências ainda não conhecidas. Na edição de ontem da revista especializada Lancet, um grupo de cientistas alertou que uma mutação identificada em dois tipos de enterobactérias — encontradas no intestino e contaminada pelas fezes —, a Klebsiella pneumoniae e a Escherichia coli (E.coli), deixou os microrganismos ainda mais fortes e que as chances de elas se espalharem pelo globo são reais e preocupantes.

O gene NDM-1 foi identificado no ano passado pelo professor Timothy Walsh, da Universidade de Cardiff, na Inglaterra, que confirmou a presença do NDM-1 na Klebsiella pneumoniae e na E.coli. Ele foi detectado em um paciente sueco internado em um hospital da Índia. De acordo com o estudo publicado na Lancet, a mutação deixou as bactérias tão resistentes que nem o carbapenem, grupo de antibióticos capazes de matar os micro-organismos mais potentes, conseguiu eliminá-las.

Com o turismo cada vez mais globalizado, as chances de as enterobactérias se espalharem são grandes. Até agora, elas se concentravam na Índia, em Bangladesh e no Paquistão, mas chegaram à Inglaterra depois de terem sido transmitidas a turistas que tomaram água contaminada quando viajavam para esses países. Os pesquisadores coletaram amostras da superbactéria em pacientes internados em diversos hospitais nas cidades indianas de Chennai e Haryana e de britânicos que estiveram na Índia, entre 2007 e 2009. As amostras foram testadas em laboratório e indicaram a presença do gene NDM-1.

Previsões
Os exames mostraram que o gene mutante estava no organismo de 44 pacientes de Chennai, 26 de Haryana, 37 moradores da Inglaterra e em 73 outras pessoas em Bangladesh, na Índia e no Paquistão. O NDM-1 é mais frequente na E.coli, a principal causa de infecções do trato urinário e de um tipo de pneumonia. Os pesquisadores alertam que o gene se instala nos plasmídeos, estruturas de DNA que podem facilmente ser copiadas e transmitidas para diversos outros tipos de bactéria. “Isso sugere uma alarmante possibilidade de o gene se espalhar e modificar toda a população de bactérias”, disse ao Correio Timothy Walsh.

Segundo o professor de microbiologia, uma das razões de as enterobactérias terem se tornado tão resistentes é a banalização do uso de antibióticos. “Em um artigo recente, Abdul-Ghafur (ativista de uma organização que luta contra a malária) afirmou que o uso de antibiótico não prescrito pelos médicos está se espalhando na Índia. Isso faz com que as bactérias se tornem mais fortes e nos faz pensar que o problema do NDM-1 vai piorar substancialmente em um futuro próximo”, diz Walsh.

O turismo estético — muitas pessoas vão à Índia e ao Paquistão para fazer cirurgias plásticas porque os procedimentos são mais baratos nesses países — preocupa Walsh. “Nos últimos anos, a Índia está recebendo pacientes não só da Europa, mas também das Américas, para cirurgias cosméticas”, acrescenta o pesquisador. E ele lembra que os hospitais são um verdadeiro celeiro para bactérias e vírus.

Prevenção
O professor de patologia e medicina laboratorial Johann Pitout, da Universidade de Calgary, no Canadá, leu o artigo de Timothy Walsh e faz uma recomendação aos pacientes que vão se submeter a algum tratamento médico na Índia. “Antes de voltar a seus países, eles devem fazer exames para detectar a presença do gene mutante. Se o tratamento para essa emergência de saúde pública for ignorado, cedo ou tarde a comunidade médica será confrontada com outras enterobactérias resistentes ao carbapenem, o que resultará na impossibilidade de curar os pacientes e terá como consequência aumentos substanciais nos custos com cuidados médicos”, disse Pitout ao Correio.

Segundo o médico é preciso fazer uma varredura com exames específicos que identifiquem o NDM-1. “Todos devem se submeter a uma espécie de escaneamento do organismo antes de embarcar”, aconselha o professor.

Ciclos de epidemias

O homem experimenta o temor das grandes epidemias na mesma dimensão em que superou outros medos ao longo de vários estágios de sua evolução e progresso em toda a sua história. E poucos termos simbolizam com tanta força esse sentimento de horror do que "Peste", palavra que se tornou a síntese absoluta dos males que asssolaram populações de diversos países e regiões do planeta em tempos remotos ou mais recentes.

As três grandes epidemias do século 21, causadas pela ação de microrganismo poderosos, são a Síndrome Respiratória Aguda Gravde (Sars), a Gripe Aviária e o Mal da Vaca louca. Mais recentemente o mundo voltou a experimentar a sensação de pânico com a Gripe Suína, provocada pelo vírus H1N1. Especialistas alertam no entanto para o aspecto sazonal de contaminação em série pelo vírus da gripe e suas mutações.

No passado, as grandes epidemias que dizimaram milhões de pessoas em várias regiões foram as de varíola, no século 16, a Gripe de 1918, a peste negra, a malária, a tuberculose, a cólera, Aids, febre amarela e a poliomielite.

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