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Correio Braziliense

Excesso de dopamina no cérebro pode explicar quem age sem pensar


postado em 17/08/2010 07:00 / atualizado em 17/08/2010 11:00

Passados quase cinco meses, a jornalista Roberta*, 33 anos, ainda se pergunta como foi capaz de invadir a casa do ex-namorado e cortar as roupas dele com uma faca. Eles tinham acabado o relacionamento havia pouco tempo e estavam naquela fase indefinida de vai e volta. Um dia, Roberta estava com os amigos em um bar da Asa Sul e resolveu ligar para o ex. Ele tentou apertar o botão para cancelar a ligação, mas se confundiu e atendeu. Sem saber que a jornalista estava na linha e o ouvia, continuou a conversa com a mulher que estava ao seu lado. Ela perguntou: “É a sua namorada no telefone?”. E ele respondeu: “Eu não tenho namorada”.

Foi o que bastou para Roberta perder as estribeiras. “Saí do bar correndo e fui à casa dele, que fica no Altiplano Leste. Cheguei a dar sinal de luz para um carro de polícia que estava me atrapalhando. As multas estão chegando até hoje”, diz a jornalista, que, normalmente, não costuma agir por impulso. Pela janela, Roberta entrou na casa, onde esperou o ex por duas horas. Como ele não chegou, ela resolveu se vingar. Pegou uma faca, rasgou as roupas do rapaz e as colocou de volta no lugar. Também acendeu todas as bocas do fogão, para acabar com o gás. “Eu queria acabar com a raça dele. Depois, fiquei me arrastando de tanta culpa e pensando: ‘Meu Deus, sou louca!’. Mas, na hora, baixou a adrenalina mesmo”, recorda-se.

Na verdade, Roberta só errou o neurotransmissor. De acordo com um estudo publicado na revista especializada Science, é a dopamina — e não a adrenalina — que faz com que as pessoas tomem atitudes impensadas, deixando-se levar por um impulso. A pesquisa, conduzida pelo psicólogo Joshua Buckholz, da Universidade de Vanderbilt, nos Estados Unidos, concluiu que a impulsão está relacionada a uma alteração nos receptores da dopamina. Com isso, uma quantidade maior da substância acaba chegando ao cérebro.

A dopamina é um neurotransmissor estimulante, responsável pela sensação de energia e disposição. Na dose certa, proporciona satisfação aos indivíduos. Mas sua falta ou excesso desregulam as funções neurais. E, de acordo com Buckholz, o resultado pode ser caótico. “Altos níveis de impulsão caracterizam um grande número de distúrbios psiquiátricos, como abuso de substâncias ilícitas, personalidade antissocial e déeficit de atenção ou hiperatividade”, diz o cientista Correio.

Ele esclarece, porém, que agir por impulso de vez em quando, como fez Roberta, é absolutamente normal. “Todos nós agimos sem pensar em algum ponto de nossas vidas. O nível de impulsividade varia de pessoa para pessoa. Algumas têm níveis muito baixos e são extremamente cautelosas em seu comportamento. A maior parte de nós tem um nível médio — podemos agir sem pensar, mas somos capazes de considerar os efeitos das escolhas que fizemos”, esclarece. “Enquanto isso, algumas pessoas têm um nível muito alto — constantemente, elas mostram um baixo autocontrole, ficam entediadas muito rápido e não conseguem levar adiante projetos de longo prazo.”

Cérebro

Para verificar a relação entre a dopamina e a ação por impulso, Buckholz escaneou o cérebro de 32 participantes completamente saudáveis dos pontos de vista físico e psiquiátrico. Parte dos voluntários recebeu 0,43mg/kg de anfetamina, substância que possui dopamina na composição. A outra metade tomou placebo, substância sem efeito algum, sem saber. Depois, todos tiveram de responder a um questionário conhecido como escala de impulsividade de Barrat, ou BIS-11, método usado em todo o mundo para medir padrões de impulsão.

As respostas às 30 perguntas indicam se uma pessoa tem pouca, intermediária ou alta tendência a agir sem pensar. Quem responde ao questionário precisa dizer, por exemplo, com qual frequência costuma refletir nas coisas com cuidado, compra por impulso, fala rápido, gasta mais do que ganha etc. Além da escala de Barrat, os voluntários passaram por uma tomografia computadorizada, que mostrou a atividade cerebral enquanto respondiam às perguntas.

O resultado foi que, como imaginava Buckholtz, as pessoas que receberam anfetamina e, consequentemente, ficaram com níveis anormais de dopamina no cérebro tiveram os maiores escores na escala. A tomografia computadorizada mostrou que, mesmo entre as pessoas que tomaram o medicamento, esses níveis são diferenciados. Quanto mais dopamina liberada em uma área do cérebro chamada estriato, onde ocorre a atividade cerebral provocada pelo neurotransmissor, maior o número de respostas associadas ao comportamento impulsivo. Para o pesquisador, esse resultado pode ajudar no tratamento de pessoas que sofrem com altos níveis de impulsividade: “O estudo pode fornecer um novo foco para intervenções terapêuticas, modulando o controle da liberação da dopamina”, afirma.

 

Conheça a escala de impulsividade de Barrat

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