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Correio Braziliense

Pesquisadores lutam contra sequelas do ataque de jararacas

Equipe do Laboratório de Imunopatologia do Instituto Butantan desvenda a ação da jararagina, toxina responsável pelas complicações que atingem as pessoas picadas, mesmo depois da aplicação do soro antiofídico. A descoberta pode levar à criação de medicamentos específicos


postado em 20/08/2010 07:35 / atualizado em 20/08/2010 09:59


O veneno da jararaca, serpente responsável por entre 70% e 90% dos acidentes que envolvem cobras venenosas no Brasil, não é temido somente pelo efeito imediato altamente tóxico provocado ao organismo, dano neutralizado pelo soro antiofídico. A secreção venenosa da Bothrops jararaca ou das variações desse gênero tem ação específica no local da picada, podendo causar uma série de complicações. Pelo menos 10% dos casos evoluem para hemorragia, necrose ou até amputação de membros. A responsável por essas mazelas é a jararagina, toxina isolada em 1992 e estudada desde então por cientistas do Brasil e do mundo. Foi no Laboratório de Imunopatologia do Instituto Butantan, porém, que o mecanismo de ação dessa proteína foi desvendado. A pesquisa de quatro anos realizada como tese de doutorado da bióloga Cristiani Baldo trouxe perspectivas animadoras para o desenvolvimento de medicamentos que atuarão na soroterapia.

O estudo de Cristiani provou que a jararagina é uma das principais responsáveis pelas manifestações locais decorrentes da picada. Hemorragia, edema, inflamação e a possível perda de função do membro são algumas. Segundo a pesquisadora, o soro antibotrópico consegue neutralizar bem os efeitos sistêmicos do veneno — aqueles que causam alterações cardiovasculares, renais e na coagulação sanguínea —, mas não rebate as complicações locais, que se estabelecem rapidamente. “O veneno da jararaca é composto por uma grande variedade de substâncias tóxicas que agem na pele, principalmente as metaloproteinases, grupo que inclui a jararagina. Já sabíamos que tal proteína era hemorrágica, o que desvendamos foi a maneira como ela age nos vasos e induz a hemorragia”, explica.

O trabalho da bióloga, publicado na revista PLoS Neglected Tropical Disease, descreve que a substância tóxica procura os vasos capilares. Ao se concentrar neles, provoca rupturas e induz o sangramento local. Nos experimentos, a toxina recebeu um marcador fluorescente e foi injetada na pele de camundongos. “Com um microscópio confocal, acompanhamos o caminho que ela percorreu até causar o estrago no tecido. A jararagina destrói os vasos. O oxigênio e os nutrientes carregados pelo sangue não chegam mais à região atingida pela picada”, pontua a cientista. A degradação impulsiona a inflamação, a necrose e todas as complicações que podem culminar com a amputação. “Trabalho com pesquisa básica, campo que abre portas para futuros estudos. Outros cientistas investigarão os inibidores de jararagina mais adequados para serem ministrados com o soro”, acrescenta.

Negligência
A Organização Mundial da Saúde (OMS) enquadrou o acidente com serpente na lista de doenças tropicais negligenciadas. A própria OMS estima que 5 milhões de pessoas sejam picadas por cobras todos os anos. A metade resulta em envenenamento, o que gera um saldo de 120 mil mortes e 250 mil pessoas com sequelas. No Brasil, dados preliminares referentes a 2009 revelam que foram notificados 22.763 mil acidentes — pelo menos 16 mil, com jararacas. Oficialmente, 106 pessoas morreram. Especialistas garantem, no entanto, que o número pode ser muito maior, pois nem todas as vítimas são socorridas em hospitais e muitos casos nem chegam ao conhecimento do Ministério da Saúde.

O gênero Bothrops compreende cerca de 19 espécies, distribuídas por todo o território nacional. A Bothrops jararaca é encontrada no sul da Bahia, no Espírito Santo, no Rio de Janeiro, em Minas Gerais, em São Paulo, no Paraná, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul. As outras jararacas, cujo veneno tem praticamente as mesmas toxinas, são encontradas em todo o país. Logo após a picada, geralmente ocorre um pequeno sangramento no local. O inchaço, a vermelhidão, a dor, a dificuldade de coagulação do sangue e a hemorragia dependem de alguns fatores. Socorristas alertam que a idade da serpente, a quantidade de veneno injetado e o período de tempo transcorrido entre o acidente e o atendimento são muito relevantes na questão dos efeitos provocados pela jararagina, assim como o peso do paciente e a região anatômica atingida.

O agricultor Altenir Schreider, 47 anos, se considera um homem de sorte. Em uma noite em que saiu para caçar com amigos no interior do Maranhão, ele acabou sendo vítima de uma jararaca-rabo-de-osso (Brothops neuwiedi). “Não pisei na serpente, mas passei muito perto e ela não hesitou em atacar. Chovia muito, não havia hospitais na região e eu não consegui atendimento médico. Sobrevivi porque, pelo tamanho da cobra, ela era, provavelmente, um filhote”, revela.

O funcionário público Deusino Ferreira Lima, 51 anos, também foi picado na perna quando morava no interior de Tocantins, no fim da década de 1980. “Estava sozinho, voltando da lida na roça. A picada foi tão forte que tive a sensação de ser suspenso do chão. Ainda andei por 15 minutos até chegar em casa e ser levado ao hospital, onde já cheguei carregado. Tomei o soro, mas fiquei internado por 30 dias. Perdi parte da mobilidade da perna e nunca mais consegui recuperá-la”, lamenta

Menos mortes
No Hospital Vital Brasil, unidade médica do Instituto Butantan, o índice de infecção em vítimas socorridas com o soro antiveneno é de 14%. “Felizmente, atendemos pacientes precoces, cujo acidente ocorreu a, no máximo, três horas. Cerca de 6% dos casos evoluem para a necrose e apenas 1% dos atendidos precisam se submeter à amputação. As vítimas picadas em localidades extremas do Brasil, que não contam com atendimento médico — e isso é uma realidade em nosso país —, sofrem muito mais com essas sequelas”, explica a médica Ceila Malaque.

O ataque de serpentes adultas realmente costuma ser mais danoso. Nas regiões com estações definidas, os acidentes são menos comuns no inverno. Trabalhadores rurais e moradores de áreas próximas a matas são os mais expostos. “O soro preserva a vida do paciente. Hoje, apenas 0,4% dos envenenados por jararaca morrem. A letalidade diminuiu, e isso é um grande avanço. Agora, os medicamentos que possam surgir a partir do desvendamento de ação da jararagina serão bem vindos e poderão complementar a soroterapia. Teremos alguns anos de estudo pela frente, mas chegaremos a eles”, arrisca a médica.




Outros cientistas investigarão os inibidores de jararagina mais adequados para serem ministrados com o soro”
Cristiani Baldo, bióloga e pesquisadora




Ouça trecho da entrevista com a bióloga Cristiani Baldo

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