Ciência e Saúde

Casos com vírus tipo 4 da dengue fazem temer nova epidemia

postado em 22/08/2010 05:22

[SAIBAMAIS]Quatro casos de dengue em Boa Vista, capital de Roraima, fizeram a saúde pública brasileira entrar em estado de alerta. São os primeiros, desde 1983, causados pelo vírus tipo 4 da doença, o DEN-4. Além deles, há suspeitas de que outros nove casos, tanto na capital quanto no interior do estado, foram provocados pelo tipo 4 do vírus. Segundo o Ministério da Saúde, as ocorrências são isoladas e não representam uma epidemia. Especialistas alertam, no entanto, que caso o novo vírus se alastre por outras regiões pode haver um aumento tanto dos casos de dengue clássica quanto dos da forma hemorrágica.

O médico epidemiologista da Universidade de Brasília (UnB) Pedro Luiz Tauil explica que o principal risco de se ter uma nova variável do vírus da dengue circulando pelo país é a maior probabilidade de surgir a forma hemorrágica da doença, que é grave e pode inclusive levar à morte. ;Quando um paciente contrai algum dos tipos de dengue, ao se curar ele automaticamente fica imune àquela variedade que contraiu. Se essa pessoa contrair uma das outras variantes, porém, a chance de se desenvolver dengue hemorrágica é bem maior;, analisa. Segundo dados do Ministério da Saúde, cerca de 90% dos casos de dengue hemorrágica são de pessoas que contraíram a doença pela segunda vez.

Tauil ressalta que a nova variação do vírus não é mais forte que as demais. ;Se uma pessoa que nunca foi infectada contrair o vírus 4, a manifestação vai ser exatamente a mesma das variáveis que já circulam pelo país;, afirma. Nesse caso (de primeiras contaminações), o problema passa a ser a possibilidade do desenvolvimento de uma nova epidemia, como a que aconteceu em 2000, quando a variável 3 da doença chegou ao Brasil. ;Se houver dispersão do vírus para os grandes centros urbanos, a possibilidade de epidemia é grande;, avalia o coordenador do Programa Nacional de Controle da Dengue do Ministério da Saúde (MS), Giovanini Coelho.

Para evitar que essa situação aconteça, o MS montou, em conjunto com as secretarias estadual e municipal de saúde na capital de Roraima, uma sala de situação ; espécie de gabinete de crise ;, para articular as ações e executá-las com a maior agilidade possível. A ideia é eliminar todos os criadouros do Aedes aegypti, transmissor do vírus, e assim, barrar o seu avanço. ;Desde o início das ações de campo, mais de 10 mil casas nos bairros onde houve casos confirmados de DEN-4 foram visitadas, e pelo menos 18 mil criadouros do mosquito da dengue foram eliminados;, afirma Giovanini.

Preocupação

A casa da secretária Yanne Thayná, 24 anos, foi uma das que já foram visitadas. ;Não é a primeira vez que os funcionários da prefeitura vão até a minha casa procurando água com o mosquito e aplicando fumacê, mas nos últimos dias visitaram também as outras casas do bairro;, conta. A secretária mora no Bairro Buritis, local onde mora um dos pacientes diagnosticado com o DEN-4. ;Por enquanto, estou tranquila, mas fico preocupada, principalmente, com a minha irmã, que já teve dengue uma vez;, diz.

Giovanni Coelho acredita que uma ação rápida e concentrada pode conter a propagação da nova variante. ;O fato de estarmos em período de baixa transmissão da doença contribui para o sucesso dessas medidas. Mesmo assim, o Ministério da Saúde alertou todas as secretarias estaduais de Saúde para que intensifiquem o monitoramento de circulação viral e as ações de prevenção;, afirma.

O secretário-adjunto de Saúde de Roraima, Alexandre Salomão, é menos otimista. Ele acredita que, no início dos anos 1980, quando foram registrados os primeiros casos de DEN-4 e sua proliferação foi barrada, o avanço do vírus era mais difícil. ;Hoje, existe um fluxo muito maior de pessoas pelo país. Com mais carros, aviões e pessoas transitando, há uma maior facilidade de disseminação do vírus. Não é impossível, mas é mais difícil controlá-lo;, opina Alexandre, que também é infectologista.

Ainda não é possível determinar com exatidão como o vírus foi reintroduzido no Brasil. A principal hipótese levantada pelos cientistas é de que ele tenha vindo de países vizinhos ou do Caribe. ;No continente americano, pelo menos 10 países têm circulação do sorotipo DEN-4, entre eles a Venezuela, que faz fronteira com Roraima;, afirma Giovanini Coelho. Nenhum dos pacientes que contraíram o vírus, no entanto, relatou ter feito viagens para o exterior ou visitado áreas de fronteira.

A possibilidade de circulação do vírus já preocupa mesmo quem vive a 3 mil quilômetros de Boa Vista. O autônomo Antônio Giorgiano, 40 anos, que mora no Paranoá, ainda se recupera do susto que teve há cerca de um mês. Depois de procurar o Hospital Regional do Paranoá com febre alta e dores no corpo, foi medicado e liberado. Apenas dois dias depois, contudo, os sintomas se agravaram e ele retornou ao hospital. ;Dessa vez, um médico pediu exames de sangue e deu positivo para a dengue. Não sei qual tipo de vírus era, mas tive que ficar sob observação e tomar soro, pois a quantidade de plaquetas no meu sangue estava baixa;, revela.

Na família, casos da doença são comuns: o pai e a irmã de Antônio também já tiveram dengue. ;Além de temer a possibilidade de ter de novo, me preocupo com eles. Tenho medo de que eles tenham dengue hemorrágica;, conta o morador do Paranoá. ;O difícil é que, por mais que na minha casa tomemos cuidado, se as outras pessoa não tomarem, o risco é o mesmo;, conta.

Os cuidados a que ele se refere são os necessários para evitar a proliferação do mosquito vetor da doença, o Aedes aegypti. Independentemente da variável que circule pelo país, os cuidados que cada um deve tomar são os mesmos: evitar deixar água limpa acumulada em recipientes como vasos de plantas, xaxins, pneus ou qualquer outro local que possa servir de criadouro para o inseto ; apaixonados por água parada.

O Aedes na Europa

Desde a última semana, a preocupação com a dengue deixou de ser exclusiva dos países tropicais. Pela primeira vez em 50 anos, foram encontrados na Holanda focos do mosquito Aedes aegypti, principal transmissor da doença. O entomólogo Ernst-Jan Scholte, autor da descoberta, que foi publicada na última edição da revista Science, acredita que os insetos vieram de um carregamento de pneus, originado do sul dos Estados Unidos. Apesar de vindos do exterior, não se descarta a sua proliferação na Europa, especialmente em países da costa do Mar Mediterrâneo, como Itália, França e Espanha. Com o aquecimento global, a região tem registrado temperaturas cada vez mais altas, o que possibilitaria o estabelecimento do mosquito, que vive apenas em climas mais quentes.

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