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Correio Braziliense

O futuro está lá fora?

A pedido do Correio, especialistas discutem a importância de a humanidade colonizar outros planetas, como deseja o físico britânico Stephen Hawking. Desenvolver a tecnologia necessária é o maior desafio para uma empreitada dessa magnitude


postado em 24/08/2010 09:02

Uma espaçonave chega a Marte levando pessoas de vários países do mundo, prontas para habitar o Planeta Vermelho. Essa cena, que poderia ter saído das páginas de um livro de ficção científica, já é encarada como algo não só possível, mas necessário. A ideia de colonizar o espaço é cada vez mais discutida pelos cientistas. Na semana passada, o astrofísico britânico Stephen Hawking causou polêmica ao afirmar que a humanidade terá de começar a procurar outros recursos nos próximos 200 anos se não quiser desaparecer do Universo.

“A humanidade não deveria apostar apenas no planeta (Terra). Se somos os únicos seres inteligentes da galáxia, temos de garantir nossa sobrevivência”, declarou o cientista em entrevista ao site Big Think. “Penso que o futuro a longo prazo da raça humana está no espaço. Será difícil evitar uma catástrofe no planeta nos próximos 100 anos, sem falar dos próximos mil ou milhões de anos”, completou. Para o autor de Uma Breve História do Tempo, um dos maiores best-sellers da literatura científica, as agências especiais deveriam começar a investir em voos com tripulação em direção ao espaço e em pesquisas de como os homens poderiam viver em outro planeta.

O Correio conversou com outros especialistas para saber se o futuro dos homens e mulheres está mesmo fora da Terra. Para Eric Hunting, diretor do The Millenial Project, uma organização que investiga a colonização do espaço, a ciência precisa avançar suas pesquisas em direção à possibilidade levantada por Hawking. “Os recursos da Terra são limitados, isso é um fato. Vamos sim precisar nos expandir para outros planetas. Mas a colonização do espaço não é uma coisa que vai acontecer em um período curto de tempo. Nós não temos a tecnologia para isso. É um trabalho em conjunto que vai ultrapassar gerações, mas que precisa ser iniciado agora”, defende o especialista.

Parte da comunidade científica, no entanto, acredita em outras saídas. O presidente da Royal Society(1), uma das sociedades científicas mais conceituadas do mundo, Sir Martin Rees, afirma que uma exploração espacial com humanos não é necessária. O astrônomo português do departamento educacional do European Southern Observator, Pedro Russo, concorda. “Com os avanços da robótica e com a nanotecnologia, não há necessidade de correr riscos desnecessários e enviar humanos para o espaço. Neste momento, no Reino Unido, ciências como a astronomia ou as ciências espaciais devem sofrer uma forte reestruturação em vários níveis, incluindo cortes de orçamento e redistribuição de fundos, o que cria algum nervosismo na comunidade. Acredito que essas declarações (de Stephen Hawking) sejam o reflexo desse nervosismo”, afirma Russo.

Conhecimento
Ainda que existam planos, a tentativa de colonizar outros planetas está longe de ocorrer, exigindo no mínimo um ou dois séculos de muito estudo e desenvolvimento. Seria preciso investir em uma tecnologia suficiente e eficiente para habitar lugares muito distantes e diferentes da Terra. “Acredito que a colonização espacial pode ser uma consequência da exploração espacial, mas os nossos conhecimentos e a nossa capacidade tecnológica não nos permitem muito mais do que apenas sonhar”, comenta Orfeu Bertolami, professor do departamento de física do Instituto Superior Técnico e do Instituto de Plasmas e Fusão Nuclear em Portugal.

O grande desafio da colonização espacial será desenvolver a tecnologia para explorar outros planetas. “Na minha opinião, que é compartilhada por muitos colegas, há ainda demasiadas questões científicas e tecnológicas por responder. Serão necessárias várias décadas até que o conhecimento científico e tecnológico atinja a maturidade necessária para podermos responder concretamente aos desafios exigidos e para enviar missões tripuladas a outros planetas”, afirma o professor.

De acordo com ele, quatro questões fundamentais precisam ser resolvidas para que a exploração humana de outros planetas possam acontecer. Para começar, será preciso descobrir métodos de propulsão no espaço para encurtar as distâncias. O segundo passo será encontrar uma maneira de fazer a manutenção sustentável de ecossistemas. Além disso, os cientistas precisarão encontrar maneiras de amenizar os efeitos fisiológicos e metabólicos causados pela ausência da gravidade da Terra nos humanos, plantas e animais e estudar qual é o impacto que longos períodos de confinamento no espaço têm na psique humana.

Para Eric Hunting, a habitação e a adaptação da raça humana em um ambiente muito diferente da Terra são problemas cruciais para uma possível colonização. “Nós temos pouca tecnologia ou pesquisa disponível sobre uma estrutura permanente de moradia para o espaço porque as agências espaciais não colocam seus esforços para desenvolver esse tema, pois o consideram uma realidade muito distante. Outro ponto importante é descobrir como o corpo vai reagir às condições de baixa gravidade. Nós desenvolvemos alguns esquemas que podem diminuir os efeitos físicos do espaço, mas não existe uma solução definitiva, o que impõe limites em relação ao tempo que as pessoas podem ficar no espaço e mesmo ter a capacidade de reproduzirem lá”, aponta o cientista.

Destinos
Marte e a Lua são os destinos mais visados para uma futura missão tripulada. A distância menor e o conhecimento prévio sobre o ambiente de cada um os colocam no topo da lista de lugares prováveis para a instalação de colônias fora da Terra. “Acredito que temos a responsabilidade de lançar as bases da investigação necessária para se alcançar os objetivos mais imediatos da exploração espacial, tais como voltar à Lua e chegar a Marte, ainda que esses objetivos se perspectivem de forma concreta numa escala de várias décadas”, afirma Bertolami.

Na opinião de Hunting, a Lua pode ser a melhor opção porque, além da possibilidade de telecomunicação, a viagem e o transporte de equipamentos seriam mais baratos. “A forma mais prática de criar estruturas no espaço é não precisar mandar humanos até lá. Poderíamos enviar robôs que produziriam a infraestrutura inicial a um preço mais reduzido e com maior segurança. Mandar pessoas para o espaço custa muito mais do que mandar máquinas”, afirma o especialista americano.

Para Bertolami, ainda há muito o que descobrir por meio da exploração espacial realizada com sondas não tripuladas e missões científicas. Antes mesmo de pensar em expandir o território, o homem deve pensar em estratégias para a Terra. “É fundamental compreendermos que a exploração e a eventual colonização do espaço não são soluções para os problemas que hoje enfrentamos no nosso planeta. Será possível, sim, reverter, ou talvez mais realisticamente, amenizar os efeitos nocivos da ação humana no ambiente, nos ecossistemas e no uso das reservas das matérias-primas que são vitais para a nossa sobrevivência”, analisa o cientista.

1 - Divulgação científica
A Royal Society é uma instituição do Reino Unido formada há 350 anos para divulgar o conhecimento científico. Ao longo dos anos, ela se tornou referência no mundo acadêmico. Desde a fundação, o grupo aprova trabalhos na área e há algum tempo passou a premiar as pesquisas mais ilustres. Um de seus membros foi Issac Newton, que não só apresentou sua teoria da ótica em uma das reuniões da entidade como chegou a ser eleito presidente da sociedade.

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