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Correio Braziliense

Pesquisadores encontram caverna com vestígios de banquete de 12 mil anos

Achado mostra que a vida comunitária do ser humano começou antes do que os historiadores acreditavam


postado em 31/08/2010 07:00 / atualizado em 30/08/2010 20:50

Doze mil anos atrás, morreu a chefe religiosa de um grupo que vivia em um vilarejo localizado em uma área onde hoje fica Israel. O funeral da xamã teve direito a pompas inimagináveis, até agora, na história da humanidade. O ritual de passagem foi acompanhado do primeiro banquete de que se tem notícia, de acordo com cientistas da Universidade de Connecticut, nos Estados Unidos. Eles descobriram resquícios do jantar comunitário que remonta a um período anterior ao Neolítico (1) na pequena caverna de Hilazon Tachtit, no nordeste israelense.

A descoberta revoluciona a história da cultura humana. Até então, não se sabia que os homens já tinham esse grau de integração comunitária em um período tão remoto, pois os registros mais antigos de festividades complexas estavam associados ao fim do Neolítico, quando a agricultura já estava completamente dominada, permitindo o fim do nomadismo e, consequentemente, a fixação do homem na terra. “O fato desse tipo de ritual ter ocorrido antes do que imaginávamos demonstra que as mudanças sociais que acompanharam a transição para a vida agrícola já existiam quando o nomadismo chegou ao fim”, disse ao Correio a arqueóloga Natalie Munro, principal autora do estudo, publicado no jornal especializado Proceedings of the National Academy of Sciences (leia entrevista).

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Os resquícios do primeiro banquete da humanidade foram encontrados em uma caverna na região da Galileia por pesquisadores coordenados por Natalie e pelo também arqueólogo Leore Grosman, da Universidade Hebreia de Jerusalém. Eles escavaram o local e descobriram os restos de pelo menos 71 tartarugas, além de ossos de três animais selvagens, dentro de buracos construídos artesanalmente em Hilazon Tachtit. Segundo a especialista, é uma densidade de fósseis incomum para aquele período. Os cascos da tartaruga e os ossos bovinos exibiam evidências de terem sido cozidos e despedaçados, indicando que os animais foram preparados para o consumo humano.

Os buracos onde estavam os fósseis foram feitos para a celebração de um ritual funerário, do qual o banquete fazia parte. Os cascos das tartarugas estavam acondicionados sob os despojos da pajé, sugerindo que o jantar ocorreu no mesmo dia do enterro. Pelos cálculos dos arqueólogos, a carne foi suficiente para alimentar cerca de 35 pessoas, mas é possível que um número maior tenha participado do banquete. Por causa da pompa da celebração, os cientistas acreditam que a morta era uma chefe religiosa.

Fim do nomadismo
Segundo Natalie, os homens começaram a promover banquetes — e, mais tarde, a cultivar seu próprio alimento — porque, com o aumento populacional e as migrações, ficou cada vez mais difícil viver da caça e da coleta eventual. Quanto mais gente, mais disputa pela carcaça de um animal ou pelos vegetais que cresciam sem interferência humana na natureza. Assim, o homem precisou arregaçar as mangas e criar ferramentas que permitissem a ele o controle sobre a produção dos alimentos. No início da Idade da Pedra, pequenos grupos familiares estavam sempre em mudança para encontrar novas fontes de comida. Mas, de acordo com a arqueóloga, na época em que o banquete foi realizado, esse estilo de vida já não era mais sustentável.

“As pessoas começaram a entrar em contato umas com as outras, o que desencadeou atritos na comunidade. Antes, diante de algum problema, eles podiam simplesmente se levantar e ir embora, sem precisar se estressar com seus vizinhos”, lembra a pesquisadora. Por isso, com o fim do nomadismo se aproximando, eventos públicos como o banquete eram necessários para se construir uma rede de relacionamentos comunitários. “Eles ajudavam a atenuar possíveis tensões e a solidificar as relações sociais”, explica.

Uma vez que grupos anteriormente nômades se fixaram na terra, foi necessário experimentar o novo estilo de vida. De acordo com Munro, nos banquetes, eram consumidos animais que, posteriormente, seriam domesticados para consumo, além de plantas que, depois, começariam a ser cultivadas. A arqueóloga afirma que a combinação entre a interação social e a mudança das fontes de alimentos é o que levou ao início da agricultura. “Juntos, o estabelecimento de uma comunidade e as mudanças econômicas foram responsáveis por alterações significativas na complexidade da estrutura social humana. E foi isso que levou à transição do nomadismo para um estilo de vida agrícola.”

1 - Idade da Pedra
Também conhecido como a Idade da Pedra Polida, o Neolítico é o período em que o homem passa, gradualmente, de caçador e coletor a agricultor. Também é a época em que os animais são domesticados. Com isso, começam a existir os primeiros conglomerados populacionais. Esse período teve início há 10 mil anos.

Entrevista com Natalie Munro, arqueóloga

Qual aspecto da descoberta a senhora achou mais interessante?
Acho que o mais excitante é descobrir a ocorrência de um banquete num período tão remoto. Apesar de muitos pesquisadores acreditam que eventos como esses podem ter ocorrido ainda mais cedo (talvez, com o surgimento dos humanos modernos), não tínhamos evidências claras sobre isso nos achados arqueológicos. Nosso artigo documenta a primeira boa evidência de um banquete, jamais documentada previamente na arqueologia.

O que a descoberta muda sobre o conhecimento que se tem até agora sobre a integração entre os seres humanos:
Ela muda principalmente no sentido de que, agora, sabemos que esse nível de integração comunitária ocorreu antes do que pensávamos. Anteriormente acreditávamos que essa era uma característica do Neolítico, quando a agricultura tinha acabado de ser descoberta. Agora, sabemos que essa integração aconteceu bem no início do processo de transição do nomadismo para a prática agrícola, quando as pessoas estavam começando a se fixar em vilarejos mais ou menos permanentes.

O que os objetos e ossos encontrados no local dizem a respeito da celebração que estava sendo feita?
Como muitos cascos de tartaruga foram encontrados na sepultura de uma mulher que provavelmente era a xamã do grupo, acreditamos que o banquete ocorreu como parte de um ritual funerário. Além disso, foram encontrados objetos feitos de ossos com caráter ritualístico e a caverna onde achamos os restos do banquete certamente era um local funerário, porque lá há pelo menos 28 indivíduos enterrados.

O que se pode dizer sobre a mulher cujo funeral foi celebrado?
Pela análise dos ossos, podemos perceber que ela era uma mulher velha, com muitos problemas de saúde e provavelmente manca. Ela foi interrada com uma coleção de partes de animais bastante exóticas, como a pélvis de um leopardo. Esses itens provavelmente eram símbolo de status e podem indicar que ela era uma xamã. Acredito que as tartarugas foram consumidas durante o funeral desta mulher.

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