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Correio Braziliense

Pacientes que tiveram AVC contam histórias de superação após o trauma


postado em 05/09/2010 09:31 / atualizado em 05/09/2010 10:47

Era um sábado, 20 de setembro de 2008. Helen Cristiane Gomes da Silva, hoje com 30 anos, lembra-se bem de tudo o que aconteceu. Dois dias antes, enquanto estudava para a prova teórica no processo para tirar carteira de motorista, sentiu o braço e a mão direita ficarem dormentes. Não era a primeira vez, mas ela resolveu deixar o incômodo de lado e se concentrar na apostila. “Achei estranho, mas pensei que era cansaço e tensão. Estava tão ansiosa por causa do teste que pensei: ‘Não deve ser nada, vou ao médico na segunda-feira”, conta a bancária.

No dia da prova, ela acordou de manhã para ir no banheiro. Levantou-se da cama, tentou colocar os chinelos e não conseguiu. Ficou tonta, deu o primeiro passo e caiu no chão. “Minha madrasta me sentou na cama e perguntou o que estava acontecendo. Tentei falar, mas não saía nada. Apontei para o celular para tentar escrever uma mensagem e também não consegui. Sentia um peso enorme nas costas, era como se eu não fizesse parte do meu corpo”, descreve Helen.

Ela passou por três emergências de hospitais até conseguir ser atendida. No primeiro, disseram que ela era “muito nova” para ter um derrame. No segundo, o médico falou, com um tom claro de desconfiança, que ela poderia estar fingindo para chamar a atenção da família. Como lá não tinha aparelho de tomografia, ela partiu para outro lugar. Finalmente, depois de três horas de peregrinação, Helen foi diagnosticada com um acidente vascular cerebral (AVC) isquêmico (veja infografia na página ao lado). Recebeu rapidamente uma medicação e permaneceu três dias na unidade de tratamento intensiva (UTI). Em poucos dias, conseguiu andar, mas o braço direito ainda não respondia.

Helen precisou reaprender a escrever, a pentear o cabelo e a falar. Dois anos depois do AVC, ela ainda faz fisioterapia para tentar recuperar totalmente o movimento das mãos e poder juntar os dedos. No fim do ano passado, voltou a trabalhar — e recentemente conseguiu tirar a tão sonhada carteira de motorista. “Fiz uma fisioterapia intensa só para isso”, orgulha-se.

Os médicos descobriram que Helen sofria de uma deficiência do gene da protombina, um problema genético que ela nem sabia que tinha. “Minha mãe morreu com 38 anos, porque tinha pressão alta e sofreu um AVC. Minha avó paterna acabou de ter um no início de agosto. Tive muitos amigos que me ajudaram e percebi que tenho que cuidar muito da saúde, estou fazendo hidroginástica e acupuntura. A gente tem essa imagem de que AVC só acontece com quem é mais velho, mas meu conselho para todo mundo é: se você sentir uma dor, corra para o hospital”, diz a bancária.

Atenção aos sinais
Não é difícil encontrar alguém que tenha uma história sobre AVCs. Um avó que sofreu com os males de um forte derrame, o pai que de repente não conseguia mais andar, uma jovem prima que ficou dias em coma, mas tenta se recuperar. Para Ana Júlia Chagas, 63 anos, a protagonista desse filme de terror foi a filha. A professora Beatriz Santana da Silva, 44 anos, começou a perceber algumas mudanças quando estava na faculdade. “Eu via algumas cenas ao contrário, de cabeça para baixo, não conseguia colocar o calçado, meu olho direito não mexia direito e depois um lado do lábio ficou paralisado”, lembra a pedagoga.

Foram dias sem ninguém perceber nada, até que Ana Júlia leu em uma revista sobre os sintomas do derrame e percebeu que eram os mesmo da filha. Elas correram para o hospital em busca de um neurologista. Além de descobrirem que ela tinha sofrido um AVC, a causa era ainda mais assustadora: um aneurisma no cérebro. “Foi terrível. Beatriz ficou com o lado direito completamente comprometido, perdeu a fala, ficou na cadeira de rodas, foi tudo muito rápido. Depois de um tratamento longo e um procedimento cirúrgico, ela melhorou. É preciso ficar muito atenta aos sintomas, se eu não tivesse lido, me informado, talvez tivesse sido tarde demais”, conta a aposentada.

Uma dor no braço e no pescoço também não chamou a atenção de Ezequias Pereira Braga, 56 anos. Ele culpou o estresse e o cansaço do trabalho pelo incômodo e continuou com a rotina normal. Dois dias depois, estava em coma. “Não tenho muitas lembranças. Cheguei ao hospital e me deram uma injeção. Acordei entubado, com todos aqueles tubos me incomodando. Foram nove dias sem nenhuma consciência e um mês de internação. Perdi a força dos braços e das pernas e não conseguia falar”, conta o aposentado.

Depressão
Ezequias teve o derrame em maio de 1996 e passou por uma longa recuperação. Com dificuldades para andar e se movimentar, ficou deprimido. “Fiquei com uma tristeza muito forte. Sentia falta do meu trabalho e estava preso em uma cadeira de rodas. Tive muita ajuda da minha família, dos meus vizinhos e do meu neurologista. É estranho, porque a mente funciona a mil, mas o corpo não responde. Foi muito difícil, mas conforme os resultados foram aparecendo, fiquei revigorado”, diz o aposentado, que, 14 anos depois do acidente, ainda sofre com problemas de equilíbrio.

O estresse, a má alimentação e o sedentarismo foram os grandes culpados pelo acidente vascular cerebral de Ezequias. Ele acredita que se tivesse dado atenção aos fatores de risco e se cuidado mais, o resultado seria outro. “Eu ainda tinha outro agravante: tive um irmão que faleceu por causa de AVC e ele tinha problemas cardíacos. Mas não me preocupava com a saúde, vivia para o meu trabalho. É preciso ter muita força de vontade para se recuperar de um derrame”, analisa.

Em 2003, Iara Maia Dias, então com 45 anos, foi fazer um lanche em um quiosque depois do trabalho. “Estava comendo e comecei a sentir uma tonteira, ouvia as vozes das pessoas longe, como se tivesse ficado surda. Queria falar e não conseguia, a língua enrolava. Minha filha estava comigo e me levou correndo para o hospital”, relembra. O resto parece ter ficado em um lugar bem longe da memória. A última lembrança foi do médico levantando seu braço, sem que ela conseguisse expressar reação ou força.

Enquanto ainda estava em recuperação, Iara teve mais três derrames. O AVC era consequência de uma trombose, diagnosticada meses antes. O lado esquerdo ficou paralisado, mas com a fisioterapia ela recuperou os movimentos. “Acho que o estresse também colaborou. Aprendi que a gente tem que ter o momento de trabalho e de lazer, procurar relaxar, se divertir, passear ao ar livre ou ler”, conta a aposentada. Hoje, além de levar a vida de uma forma mais leve, ela também faz caminhadas três vezes por semana e acompanhamento médico constante. “Minha única sequela é que às vezes esqueço o que acabei de falar. O exercício faz bem, porque traz oxigenação. Sempre controlo a pressão. E, se sinto alguma coisa, vou logo para o médico”, completa.

Minha única sequela é que às vezes esqueço o que acabei de falar. O exercício faz bem, porque traz oxigenação. Sempre controlo a pressão. E, se sinto alguma coisa, vou logo para o médico
Iara Maia Dias, aposentada, sete anos depois do AVC

Pequeno poder de regeneração

Quando o cérebro sofre algum dano, a recuperação pode ser longa e lenta. As sequelas deixadas por um acidente vascular cerebral (AVC) são determinadas pela área onde ele ocorreu. Na hora da crise, é importante chegar a uma emergência em até quatro horas e meia para receber o medicamento adequado. Se o tipo for isquêmico, é dada uma dosagem do medicamento alteplase (rt-PA). Se o problema for hemorrágico, a pressão arterial é controlada e o paciente é encaminhado para uma unidade de tratamento intensiva.

Passados os primeiros socorros, já no hospital começa a fase da recuperação. O neurologista investiga a causa do acidente e as sequelas do paciente. O tratamento é feito de acordo com o resultado dos exames. Geralmente, a pessoa é encaminhada para especialistas na área de fisioterapia, fonoaudiologia, psicologia e nutrição.

Quem tem um derrame apresenta um risco três vezes maior de ter outro do que alguém sem um histórico do problema. Nos primeiros cinco anos depois da primeira crise, as chances de acontecer outro AVC aumentam cerca de 40%. A recorrência é ainda mais perigosa, porque partes do cérebro já sofreram danos irreversíveis. No entanto, existem algumas medidas que podem ajudar a evitar outro acidente vascular cerebral, como parar de fumar, ter uma alimentação saudável, fazer uma atividade física e administrar os níveis de colesterol.

O grande problema na recuperação de um AVC é que o sistema nervoso central tem uma capacidade pequena de se regenerar espontaneamente. Uma pesquisa feita na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) realiza testes com células-tronco para conseguir aumentar as chances de regeneração. Os resultados em ratos foram promissores, mas a equipe acaba de começar a fase de testes em humanos. “Estamos terminando um estudo clínico para avaliar a segurança das células da medula óssea em pacientes com AVC isquêmico na fase aguda, até 10 dias depois da crise. Se as células se mostrarem seguras e eficazes, isso poderá se tornar uma terapia”, afirma a chefe do grupo e neurobiologista Rosalia Mendez-Otero.

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