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Correio Braziliense

Pesquisadores estão prestes a iniciar testes com células-tronco em humanos


postado em 17/10/2010 10:00

O Brasil acaba de dar um grande passo nas pesquisas com células-tronco, ao comprovar a segurança da terapia celular contra uma doença pulmonar comum em trabalhadores de minas. Em estudos com ratos e camundongos, já concluídos, a equipe chefiada pelos professores e médicos Marcelo Morales e Patrícia Rocco, do Instituto de Biofísica Carlos Chagas (IBCC), ligado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), conseguiu impedir o desenvolvimento da silicose — uma inflamação no pulmão deflagrada pelo contato com o pó de sílica. Agora, depois do teste de segurança em cinco pessoas, eles poderão deflagrar um processo maior de avaliação da metodologia em humanos. “É um passo extremamente importante nesse tipo de pesquisa, que pode indicar uma terapia mais eficaz contra a doença”, comemora Morales.

Esse tipo de tratamento contra uma das doenças pulmonares mais antigas é inédito no mundo. Seu ineditismo está no uso da broncoscopia, que permite a injeção das células-tronco diretamente no pulmão. “Achávamos que esse procedimento seria perigoso para o paciente, mas os resultados mostraram que ele é extremamente seguro”, afirma Marcelo Morales. Os cientistas testaram, também, diversas outras maneiras de introduzir essas células mononucleares no pulmão. “Nenhuma delas, porém, foi mais eficiente que a broncoscopia”, afirma Partícia Rocco. Entre os métodos estudados está o intravenoso — o mais comum na terapia celular —, no qual as células são injetadas na veia do paciente. Morales explica que, quando as células caem na corrente sanguínea, elas se perdem no organismo e uma quantidade muito pequena chega ao alvo.

A silicose é uma doença que não tem cura. Estima-se que cerca de 6 milhões de pessoas foram expostas ao pó de sílica no Brasil. Os mais afetados são indivíduos que trabalham, ou trabalharam, em marmorarias e em minas, joalheiros, mineiros, protéticos, artistas plásticos (que usam argila) e quem lida com jateamento de areia, entre outros. Os trabalhadores expostos à poeira de sílica desenvolvem uma inflamação do pulmão. Essa poeira é inalada e se aloja no órgão, fazendo com que o organismo reaja tentando eliminá-la. “Quando os macrófagos (células de defesa do pulmão) tentam destruir o pó e não conseguem, causam uma reação inflamatória, provocando uma fibrose — um tecido de cicatrização”, explica Morales.

Os alvéolos pulmonares, que fazem a troca gasosa do oxigênio com o gás carbônico, são então substituídos por um tecido de cicatrização. Isso faz com que, aos poucos, o pulmão perca a capacidade de troca gasosa. “Durante 20 ou 30 anos, essa reação continua ocorrendo no pulmão dessas pessoas e durante todo esse tempo o órgão vai sendo substituído por tecidos de cicatrização”, diz o médico. O grande problema que envolve o tratamento da silicose é parar essa reação inflamatória, já que não existe cura ou terapia eficaz para a doença, que pode levar à morte.

Por esse motivo, os pesquisadores buscaram uma metodologia alternativa que pudesse trazer resultados eficientes contra a doença: a terapia celular. Nos testes já feitos e concluídos em animais no laboratório, as células-tronco retiradas da medula óssea e injetadas dentro do pulmão conseguiram inibir a atividade dos macrófagos, fazendo com que a ocorrência de fibrose diminuísse. Além disso, todos os parâmetros de função dos pulmões melhoraram nos animais tratados com células-tronco. “Isso nos deu a base cientifica para fazermos a fase 1 no teste com pacientes com silicose”, conta o pesquisador.

O teste ao qual Morales se refere é para saber se o procedimento em seres humanos é seguro. O pesquisador esclarece, também, que as células-tronco não são mágicas. “É preciso desmistificar isso”, afirma. Ele explica que, no caso da silicose, se há um tecido de cicatrização, a célula-tronco não tem como substituir essa cicatriz por um tecido pulmonar novo. “Se já tem fibrose, é muito difícil desfazer. Se, porém, esse tecido está evoluindo, a célula-tronco é capaz de impedir.”

O primeiro sucesso
Para avaliar se a terapia celular era segura em seres humanos, foram selecionados cinco voluntários portadores de silicose — nem muito grave, nem muito branda — para participarem dos testes com células-tronco (veja infografia). Após a injeção de células-tronco no pulmão, por meio da broncoscopia, os pacientes foram acompanhados durante um ano por uma equipe do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, composta por clínicos, pneumologistas e radiologistas. “Os voluntários foram avaliados semanalmente e, depois de alguns meses, mensalmente, por meio de exames de prova de função pulmonar, testes de caminhada de seis minutos e tomografias computadorizadas”, explica Patrícia Rocco.

Segundo Marcelo Morales, três dos cinco pacientes apresentaram melhora da condição física ao fazerem o teste de esteira. Para ele, esse resultado é um indício importante de que a terapia celular pode funcionar. No entanto, os pesquisadores não podem afirmar com segurança, nesse momento, se ela é eficaz em humanos. “Cinco pacientes é um número muito pequeno para saber realmente se houve melhora. Com animais, utilizamos mais de 200 ratos e camundongos para provar a eficiência. Assim, obtivemos números para, matematicamente, dizer que o método deu certo”, enfatiza o médico.

Além da melhora apresentada pelos pacientes, a avaliação do comportamento das células dentro do pulmão foi bem-sucedida. Segundo a pneumologista Marina Lima, responsável pelo recrutamento dos voluntários, os fatores de risco que envolviam o uso de células-tronco no pulmão não se manifestaram. “Nas avaliações que fizemos, não encontramos qualquer indício de insuficiência respiratória, de piora na qualidade de vida dessas pessoas, de surgimento de novos tecidos no pulmão, nem de que as células se mostraram cancerígenas — o grande receio de quem pesquisa com células-tronco”, descreve a médica.

A equipe começa agora a fase 2, para saber se a metodologia é eficaz como foi com os animais. Para isso, serão selecionados 50 pacientes para receber a terapia celular. “Com isso, poderemos comprovar se a metodologia é realmente eficaz”, afirma Morales. “Temos que saber quais são os prós, os contras, os efeitos colaterais e os benefícios, para, aí sim, tornarmos a técnica disponível para a população”, ressalta Patrícia Rocco.

 

 

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