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Correio Braziliense

Neurônios se multiplicam com o envelhecimento

Estudo da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP indica que células nervosas não se apagam com o passar dos anos. Em testes em oito espécies de animais, se mantiveram estáveis ou se renovaram em até 1.700%


postado em 18/10/2010 09:06

Ludymilla Sá

Belo Horizonte — De todo o corpo humano, o órgão mais intrigante é o cérebro. Inacessível, complexo, detentor da personalidade e centro do conhecimento, ele é uma máquina funcional formada por 86 bilhões de neurônios, que se comunicam entre si por meio de sinapses para fazer a engrenagem funcionar de forma perfeita. Como toda máquina, o cérebro necessita de ajustes para a execução das mais diversas atividades. Mas ao contrário delas, ele não está sujeito ao desgaste do tempo — tese adotada pela ciência anteriormente.

Uma série de pesquisas realizadas na Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da Universidade de São Paulo (USP) sugere que o processo de envelhecimento não está, obrigatoriamente, associado à diminuição do número de neurônios. Pelo contrário: os trabalhos constataram que as células nervosas, em vez de se apagarem com o processo de envelhecimento, se multiplicam.

“Essta é a grande novidade e mudança de paradigma desse trabalho, ou seja, os neurônios são células que podem sim, se dividir, se multiplicar e se renovar. Nesse trabalho, encontramos neurônios se dividindo em animais idosos”, explica o professor Antonio Augusto Coppi, responsável pelo Laboratório de Estereologia Estocástica e Anatomia Química do Departamento de Cirurgia da FMVZ/USP.

Segundo Coppi, de 1954 a 1984, o uso de métodos de análise inadequados em diversas pesquisas nacionais e internacionais conduziu os cientistas a acreditar que, ao envelhecermos, nosso cérebro perdia células nervosas. “Com a publicação do método estereológico, em 1984, porém, os pesquisadores menos resistentes contestaram os resultados anteriores, iniciando o emprego da quantificação de neurônios por estereologia (3D).”

Por meio da estereologia, inclusive, o pesquisador percebeu o processo de divisão dos neurônios de diferentes tipos de animais em etapas da vida. “Trabalhamos com o sistema nervoso simpático de oito espécies de animais (desde o camundongo até o cavalo) e, em cada uma, estudamos quatro grupos etários — neonatos (três dias de vida), jovens (um mês), adultos (1 ano) e idosos (2 a 8 anos). A conclusão é de que somente na cobaia (camundongo) o número de neurônios diminuiu 21%. Nas outras espécies, ou permaneceu estável ou aumentou até 1.700% durante o envelhecimento”, explica.

A teoria da morte inexorável dos neurônios foi seriamente contestada, em 1984, por H. Haug, da Universidade de Lübeck, na Alemanha. Depois de estudar 120 cérebros humanos, Haug observou que o tecido cerebral encolhia quando cortado e corado para os exames de rotina no microscópio. E que o tecido jovem encolhia ainda mais do que o velho. Com isso, ele pôde contestar pesquisas anteriores. Afinal, nas lâminas de tecido cerebral infantil, mais retrátil, as células nervosas apareceriam mais próximas, concentradas. No velho, menos retrátil, os neurônios estariam mais separados. Portanto, a densidade seria menor. A tese explicaria também o número expressivo de pessoas idosas ainda lúcidas.

Três anos depois, outro estudo abalou a teoria da morte neuronal por envelhecimento. O grupo de pesquisadores de R. Terry, da Universidade da Califórnia, mostrou que os cérebros empregados nos primeiros estudos eram de idosos já doentes, influenciando os resultados. Então, estudaram outros 51 cérebros de pessoas consideradas normais e perceberam a diminuição no número de neurônios longos conforme a idade. Por outro lado, constataram um aumento dos curtos e concluíram que, ao contrário de morrer, a células nervosas encurtavam.

“Exercício”

Com o advento de técnicas tridimensionais mais precisas, como a usada por Antonio Augusto Coppi para a contagem dessas células, pesquisas demonstraram, então, que o envelhecimento não está associado à perda inevitável de neurônios, exceto em condições patológicas, como doença de Alzheimer e demência senil, por exemplo.

Para Coppi, é importante saber que o aumento dos neurônios não é proporcional à inteligência. Em pesquisas anteriores, ele constatou uma quantidade maior de células nervosas em animais de grande porte do que em animais menores, reforçando a tese de que o processo intelectual relaciona-se com a forma como as células nervosas se comunicam.

Portanto, ele destaca a importância da prática de uma atividade intelectual constante para exercitar o sistema nervoso. “Assim como exercitamos nossos músculos, nosso sistema nervoso precisa de exercício, tão logo iniciamos nosso processo de envelhecimento, aos 20 anos. A prática da leitura e até de palavras cruzadas é fundamental para isso”, reforça.

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