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Correio Braziliense

Estudo descobre a relação entre genética e alcoolismo

Pesquisadores dizem que a grande vilã é uma mutação no gene CYP2e1, que atinge cerca de 12% das pessoas no mundo


postado em 20/10/2010 08:00

Basta uma latinha de cerveja para que algumas pessoas sintam os efeitos desagradáveis do álcool. Ao mesmo tempo, muita gente é capaz de beber a noite inteira e só começar a enrolar a fala, perder o equilíbrio e esquecer a autocrítica quando o bar já está fechando. Essas últimas, de acordo com a ciência, são as mais propensas a se viciar. Entender por que isso acontece seria o primeiro passo para a busca de uma cura efetiva para o alcoolismo. A descoberta acaba de ser feita por uma equipe de pesquisadores da Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, financiada pelo Instituto Nacional de Abuso de Álcool e Alcoolismo do país.

O segredo está em um dos cerca de 25 mil genes que compõem o organismo. Todo ser humano tem 23 pares de cromossomos — um, herdado da mãe, e o outro, do pai. Em 12% da população, ocorre uma mutação no gene CYP2e1, que metaboliza o álcool no cérebro, e, em vez de duas cópias, essas pessoas possuem apenas um cromossomo — ou, em alguns casos, três. Foi nessa variante que os cientistas encontraram a resposta para a questão sobre a tendência ao vício.

O principal autor do estudo, publicado ontem na edição on-line da revista especializada Alcoolismo: pesquisa clínica e experimental, reconhece que muitos trabalhos anteriores já haviam feito uma ligação entre genética e alcoolismo. Ele afirma, porém, que dessa vez os resultados são mais conclusivos. "Nossa descoberta identificou uma variação genética que tem uma participação na doença muito mais forte que as mutações dos outros genes já descritos", disse o geneticista Kirk Wilhelmsen, Ph.D. e professor da Universidade da Carolina do Norte. "A única descoberta que se equipara à nossa é a de que algumas pessoas que reagem rapidamente à bebida possuem mutações nas desidrogenases álcool e aldeído (tipos de enzima), o que faz com que não gostem de beber. A maior parte dos indivíduos que têm essa reação de aversão ao álcool são provenientes da Ásia", explica.

De acordo com Wilhelmsen, em vez de pesquisar o mecanismo do alcoolismo, a equipe resolveu estudar o porquê de algumas pessoas desenvolverem o hábito de beber mais do que as outras quando começam a experimentar o álcool. "Por um estudo prévio, já sabíamos que indivíduos que têm um nível de resposta menor ao álcool na primeira vez em que bebem possuem muito mais tendência de se tornar alcoólatras no futuro. E uma boa parte da razão de algumas pessoas serem mais sensíveis ao álcool é justamente a variante na CYP2e1", diz.

Os testes
No estudo, a equipe avaliou mais de 100 pares de irmãos, na idade colegial, cujo pai ou cuja mãe (ou mesmo ambos) eram alcoólatras. Primeiro, os participantes receberam uma mistura de álcool granulado com refrigerante, equivalente a três doses de bebida. Então, eles foram perguntados em intervalos regulares como se sentiam: bêbados, normais, com sono ou sem sono. Depois, os cientistas fizeram análise em uma região genética que, aparentemente, influencia a forma como os estudantes percebem o álcool. Essa região é a "casa" do CYP2e1, que fica alojado na ponta do cromossomo 10 e já é conhecido por sua associação com o alcoolismo.

Há tempos, o gene desperta o interesse dos pesquisadores, porque ele codifica uma enzima que é capaz de metabolizar o álcool. A maior parte do álcool é metabolizada no corpo por outra enzima, a deidrogenase álcool, que trabalha no fígado. Já o CYP2e1 age diretamente no cérebro, gerando radicais livres, que danificam as células cerebrais, provocando os efeitos do álcool no organismo. "Descobrimos que uma versão específica do CYP2e1 deixa as pessoas mais sensíveis ao álcool, e agora estamos estudando se isso deve-se ao fato de a mutação fazer com que mais radicais livres sejam gerados", diz Wilhelmsen. "Essa descoberta é interessante, porque descreve um mecanismo completamente diferente de como percebemos o álcool ao bebermos." Ele afirma que o modelo convencional basicamente diz que o álcool afeta a forma como os neurotransmissores (moléculas que se comunicam com os neurônios) fazem seu trabalho. "Mas nossa pesquisa sugere que isso é muito mais complexo", garante.

De acordo com o cientista, sozinho, o CYP2e1 não pode determinar se um indivíduo vai se tornar alcoólatra, pois fatores comportamentais e ambientais têm um papel importante na doença. Mas, como as pessoas que possuem a mutação genética, que pode ser detectada por um exame de DNA, ficam mais sensíveis ao álcool e tendem a evitá-lo, o entendimento desse mecanismo é uma forte promessa para o tratamento do alcoolismo. "Já existem drogas capazes de induzir o CYP2e1 a produzir mais enzimas, o que deixa as pessoas mais sensíveis ao álcool e menos propensas a beber muito. É possível, então, usar essas drogas para modificar o comportamento abusivo dos indivíduos", explica Wilhelmsen.

Alterações na química cerebral
Outra pesquisa publicada na edição de ontem da revista Alcoolismo: pesquisa clínica e experimental também sugere a associação da doença com os genes. O estudo, realizado com ratos de laboratório, comparou a resposta dos animais à bebida com base em duas variantes genéticas. Parte das cobaias não tinha um gene específico para um receptor cerebral que responde à dopamina, o neurotransmissor que desencadeia a sensação de prazer e recompensa. A outra linhagem de ratos era geneticamente normal.

A longo prazo, os cientistas do Laboratório Nacional Brookhaven observaram que, nos ratos cujo gene D2 havia sido suprimido, o álcool provocou mudanças significativas na área do cérebro envolvida com o alcoolismo e com o vício. "Esse estudo mostra que os efeitos do consumo crônico do álcool na química cerebral são criticamente influenciados pela genética do indivíduo", diz, na apresentação, o principal autor, Panayotis Thanos, neurocientista do Instituto Nacional de Alcoolismo e Abuso do Álcool dos Estados Unidos.

"Nossa descoberta pode ajudar a explicar como o perfil genético de uma pessoa pode interagir com o ambiente — no caso, o uso crônico da bebida — para produzir essas mudanças apenas em alguns indivíduos, sem provocá-las naqueles menos vulneráveis geneticamente", afirma o pesquisador. O trabalho suporta a ideia que o mapeamento genético pode fornecer às pessoas informações importantes para que elas entendam os riscos antes de decidir se vão ou não consumir o álcool. (PO)

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Três perguntas para Kirk Wilhelmsen, pesquisador da Universidade da Carolina do Norte

Muitas pesquisas sobre variantes genéticas e álcool têm sido publicadas. Qual o diferencial do seu estudo?
Você está certa ao dizer que muitas variáveis em outros genes têm sido vinculadas ao alcoolismo e comportamentos associados. Nossas descobertas identificaram uma variação no gene CYP2e1 que traz efeitos muito mais fortes do que os reportados na maioria dos outros genes. A única descoberta comparável é que algumas pessoas que desenvolvem repulsa quando bebem têm variações na deidrogenase álcool, o que as leva a não beber. A maior parte das pessoas que têm essa reação são procedentes da Ásia. Em vez de investigar o desenvolvimento do alcoolismo, nós temos estudado o motivo pelo qual algumas pessoas podem beber mais que outras depois da primeira vez que experimentam o álcool. De um estudo anterior, sabíamos que pessoas com baixo nível de resposta ao álcool na primeira vez que experimentam têm maior tendência de se tornarem alcoólatras no futuro. Uma grande parte da explicação do porque algumas pessoas são mais sensíveis ao efeito do álcool do que outras vem das variantes da enzima CYP2e1.

O fato de ter o gene sem alterações significa que a pessoa é forte candidata ao alcoolismo?
O efeito do CYP2e1 não é tão grande, sozindo, para predizer se um indivíduo vai se tornar alcoólatra. Ele pode predizer se um indivíduo será mais ou menos sensível ao efeito do álcool quando começar a beber. O conhecimento do funcionamento do CYP2e1, que, ao contrário de outras enzimas, metaboliza o álcool no cérebro, nos diz o que nosso cérebro sente quanto bebemos. Quando mais CYP2e1 é produzido, mais radicais livres são produzidos no cérebro. Além disso, podemos prever que a mitocôndria será menos hábil na produção da ATP, a energia formada dentro das células, quando o álcool é metabolizado pelo CYP2e1.

O que se pode esperar de resultados práticos, a partir da pesquisa?
Cada um de nós carrega pares de cromossomos, sendo que um é da mãe e o outro é do pai. Em 12% da população, em vez de o gene CYP2e1 ter duas cópias, ele possui apenas uma, ou então três. Há espécies de gene CYP2e1. Uma dessas produz mais enzimas do qeu outra. Pessoas que têm essa espécie, o que pode ser detectado pelo exame de DNA, serão mais sensíveis ao álcool. Drogas já existentes no mercado podem induzir o gene a produzir mais enzimas, o que faria as pessoas mais sensíveis ao álcool e, portanto, menos propensas a beber demais. É possível que, usando essas dorgas, o comportamento das pessoas possa ser modificado.

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