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Correio Braziliense

Evolução das UTIs transforma a imagem de "antessalas da morte"

Hoje, média de pacientes que saem com vida das unidades chega a 80%. Há 10 anos, esse índice era de apenas 50%


postado em 28/10/2010 08:00 / atualizado em 28/10/2010 21:22

Em 2008, Antônio Menezes, 76 anos, sofreu um infarto e teve que fazer duas cirurgias — para colocação de pontes de safena e mamária. Depois de uns dias em casa, o aposentado foi diagnosticado com uma infecção, que o fez retornar ao hospital, mais precisamente para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Ao receber a notícia, a família — e o próprio Menezes — foi tomada pela angústia e pelos pensamentos de que “era o fim”. Com o passar dos dias, porém, a angústia foi diminuindo e o sentimento de esperança se fortalecendo. O lugar e os profissionais, que todos imaginavam serem as personificações da frieza e da indiferença, se mostravam amáveis e atenciosos. “A UTI foi o melhor lugar que fiquei dentro de um hospital. A atenção da equipe comigo e com a minha família e os avanços tecnológicos me impressionaram” , diz Menezes.

Essa impressão positiva do aposentado contrasta com o imaginário comum. Para a maioria, a UTI é como se fosse a antessala da morte, mas na verdade ela é o lugar da boa luta pela vida, graças ao desenvolvimento científico, tecnológico e de formação profissional e humana. Hoje, 80% dos pacientes que entram nessas unidades saem com vida. Nos anos 1990, a porcentagem de óbitos batia nos 50%.

Os avanços tecnológicos promoveram maior suporte aos doentes, assim como o desenvolvimento de novos medicamentos e de conhecimentos específicos; a conduta médica, no sentido da formação profissional, fez com que os intensivistas obtivessem mais conhecimentos sobre medicamentos e doenças; e, por último, mas não menos importante, a questão da humanização veio à tona.

Edinalva e Victor Hugo, 3 anos: a UTI pediátrica do Hospital Anchieta virou praticamente a casa de mãe e filho(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press )
Edinalva e Victor Hugo, 3 anos: a UTI pediátrica do Hospital Anchieta virou praticamente a casa de mãe e filho (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press )
Segundo o presidente-fundador da Sociedade Brasileira de Terapia Intensiva (Sobrati), Douglas Ferrari, houve uma demora grande para o Brasil absorver a tecnologia mundial. “Ausência de aparelhos, plantonistas inexperientes, ausência de fisioterapia, de estratégia protetora e antibióticos limitados faziam com que os óbito chegassem a 50%, enquanto hoje esse índice fica em 20% ou até menos”, informa Ferrari. “Hoje, temos uma portaria ministerial que regulamenta as UTIs — como devem ser suas estruturas físicas —, a cultura da especialidade é presente, os protocolos vão se unificando e a tecnologia nacional vai bem, muito bem”, esclarece o médico.

O presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Intensiva do Distrito Federal (Sobrami/DF), Marcelo Maia, ressalta a importância da formação e capacitação do profissional intensivista. “Não é mais possível encarar a medicina intensiva como bico, como era comum há uma década”, diz. Maia conta que, em 20 anos de carreira, viu a mortalidade cair “absurdamente”. “Posso afirmar que temos hoje um índice de morte comparável a níveis europeus. Isso ocorre muito por conta da capacitação profissional. Não adianta ter um aparelho de última geração se a pessoa não sabe interpretar o que ele passa”, conta Maia.

Mudanças
Contudo, outro fator considerado importantíssimo teve papel fundamental na diminuição de mortes: a humanização. Desde 1995, há um movimento que busca um atendimento na UTI mais caloroso, que afaste a ideia da “antessala da morte”. Ele envolve todos os profissionais que trabalham na unidade, desde o pessoal da limpeza até a coordenação da UTI.

Um exemplo disso é o trabalho desenvolvido pela equipe de intensivistas do Hospital Anchieta, em Taguatinga. Lá, os horários de visitas são ampliados e não há restrição quanto à presença de acompanhantes. “Não concebo separar um filho de uma mãe, isolá-lo do conforto do colo de um pai. Depois de anos de convivência com pacientes críticos, percebemos que a solidão e o medo fazem com que a resposta ao tratamento seja pior”, afirma a chefe da UTI pediátrica, Débora Tessis.

A técnica de edificações Edinalva Ferreira Lima, 32 anos, tornou-se uma especialista na rotina de uma UTI. Desde que seu filho, Victor Hugo, 3 anos, nasceu, foram 10 internações na unidade. A primeira delas — logo após o nascimento — durou espantosos dois anos e meio. O motivo: Victor Hugo sofre com displasia camponélica, uma doença rara que causa má-formação de toda a estrutura óssea. “Para mim, só existia UTI de adulto. Foi um baque quando os médicos me deram a notícia. Não fazia ideia do que eles estavam falando e do local onde seria minha morada por anos”, lembra. Edinalva conta que foi o apoio da equipe que a fez passar pelos momentos mais difíceis. “Eles nunca me esconderam nada sobre o quadro de Victor Hugo. Sempre foram sinceros e extremamente atenciosos.”

Ela afirma, contudo, que o fato de poder ficar com o filho sem restrições foi fator determinante para ele sobreviver tanto tempo. “Os médicos diziam que meu filho não passaria de dias, talvez semanas. Hoje, ele tem 3 anos”, diz, emocionada. “Isso é resultado de um trabalho dedicado, de profissionais comprometidos, feito com carinho e atenção”, afirma. Atualmente, Victor Hugo passa por outra temporada — que já dura 40 dias — no hospital. “A UTI é um lugar de vida e muitos milagres”, conclui Edinalva.

Detalhes
Transformações como uma janela em cada leito, relógios nas paredes, para que o paciente possa se orientar, e a diminuição de ruídos também são exemplos de alternativas simples e eficazes para a humanização. Débora Tessis lista algumas outras ações implementadas na UTI. Elas vão desde a pintura do teto e das paredes, passando pela mudança dos uniformes da equipe até tratar o paciente e seus familiares pelos nomes, não pelo número do leito. “Atendemos com roupa comum, ou uniforme cinza (para equipe médica) ou laranja (para equipe de enfermagem). Só isso diminui a ansiedade e o estresse dos pacientes”, conta.

Segundo Marcelle Passarinho, psicóloga intensivista, a família frequentemente sente-se desamparada e temerosa à beira do leito de um paciente gravemente enfermo. Os tubos, curativos, fios e aparelhos com os quais a equipe médica está tão acostumada são amedrontadores para os membros da família. “Eles veem os equipamentos fixados ao seu ente querido e podem relutar em tocar o paciente, por medo de causar dano a ele ou ao equipamento”, diz.

É nesse momento que a equipe de intensivistas tem a oportunidade de oferecer apoio. Explicando e descrevendo o equipamento e o aspecto do paciente à família, antes que ela chegue à beira do leito, a equipe pode prepará-la para essa difícil experiência. “Era difícil entender o que estava ocorrendo com meu marido. O apoio da equipe foi fundamental. O fato de me informarem os procedimentos e a evolução do quadro e darem atenção às minhas angústias foram fundamentais para me dar confiança e segurança. Dessa forma, pude passar esses sentimentos bons ao meu marido”, avalia Maggi Amália Menezes, esposa de Antônio Menezes

Atraso
A oximetria de pulso (medição do oxigênio no sangue) serve de parâmetro para representar o atraso tencológico brasileiro. O aparelho (oxímetro) foi desenvolvido no Japão em 1974. Mas somente em 1990 os médicos brasileiros começaram a ver oxímetros nas Unidades de Terapia Intensiva.

Menos estresse
O principal objetivo é gerar satisfação ao paciente interno e externo — sim, a família também adoece —, implementando o conceito “cuidar do outro como você gostaria de ser cuidado” e criando um ambiente menos hostil. Isso ajuda o paciente a diminuir o nível de estresse e, consequentemente, a se recuperar mais rápido.

Veja Infográfico

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