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Correio Braziliense

Condropatia patelar é cerca de 25% dos problemas de joelho no Brasil

A doença causa o desgaste excessivo do revestimento da patela, provocando dores agudas. Maioria dos casos pode ser resolvida com exercícios de alongamento


postado em 03/11/2010 10:59

Há dois anos, a vida do funcionário público Raul Mera, 41 anos, mudou drasticamente. Ele, que sempre foi um homem ativo, vive atualmente à base de analgésicos e está impossibilitado de realizar qualquer atividade física por sentir fortes dores no joelho. O problema veio com o diagnóstico de condropatia patelar grau III, estágio em que a cartilagem responsável pelo revestimento da patela fica enfraquecida, provocando o atrito com o osso da coxa, o fêmur. “Estou frustrado e depressivo. Tenho um filho de 1 ano e não posso brincar com ele”, desabafa. O problema, dizem os ortopedistas, é responsável por cerca de 25% dos males de joelho no Brasil.

A condropatia isolada é uma condição da cartilagem, que pode ficar mole, fibrilada (desgastada a ponto de se transformar em fibras, em uma espécie de franja), destacada ou totalmente solta. Quando esse estado causa dores, como as sentidas por Raul, é chamado de síndrome da dor patelofemoral. Dividida em três estágios, a síndrome é causada por diversos fatores e pode ser tratada com condroprotetores,  medicamentos que ajudam a recuperação da cartilagem, ou, em casos extremos, com procedimento cirúrgico. O ortopedista especialista em joelho Paulo Lobo explica que um problema é desencadeado pelo outro, e que a ocorrência da doença é mais comum em mulheres, devido à estrutura óssea. “No entanto, independentemente do sexo, outro motivo é a prática de forma errada dos exercícios feitos em academias”, afirma.

No caso de Raul Mera, o fator causador da doença pode ter sido o exercício em excesso. Ele conta que corria todos os dias da semana, jogava futevôlei e futebol e que, no começo, as dores eram fracas. “Como o incômodo surgia após os exercícios, nem eu e nem os médicos demos muita importância”, lembra. Com o tempo, essas dores aumentaram e Raul recorreu à fisioterapia, tomou os remédios prescritos e nada funcionava, até que foi aconselhado a submeter-se à cirurgia. “Fiquei animado. Fiz em 11 de maio, mas, infelizmente, a cirurgia não surtiu efeito”, afirma.

De acordo com Paulo Lobo, 95% dos casos podem ser resolvidos com alongamento dos músculos posteriores da coxa e fortalecimento do quadríceps. “Se não corrigir o desequilíbrio muscular, fortalecendo e alongando os músculos da coxa, nenhum dos procedimentos invasivosvai resolver”, alerta. Em casos de artrose, o mais eficaz são as infiltrações com ácido hialurônico. “Apenas 5% dos casos são cirúrgicos. O ortopedista retira fragmentos soltos, limpa alguns que estão se destacando e retira possíveis plicas sinoviais”, descreve.

Foi depois de levar um chute em uma partida de futebol, que o ex-jogador profissional Alessandro Gomes, 36 anos, passou a sentir as dores no joelho. Diagnosticado com condropatia no grau I, o primeiro conselho foi a cirurgia. “Como não gosto de procedimentos invasivos, fui atrás de outras opiniões”, relembra. Ele, que hoje trabalha como almoxarife técnico, diz que estava com sobrepeso e os fisioterapeutas e professores de educação física indicaram a musculação focada nos exercícios da coxa. “Parecia mágica. Foi só começar a malhar que as dores sumiram e, com isso, pude voltar às minhas atividades normais”, comemora. Segundo ele, no ano passado, quando suspendeu a malhação, as dores voltaram e o grau da síndrome se agravou. “Agora, não tenho dúvida. Voltei a malhar, não sinto dor e não paro mais”, conclui.

Mulheres

O ortopedista Paulo Lobo conta que 90% dos casos atendidos por ele são de síndrome patelofemoral, e o diagnóstico, na maioria das vezes, é feito a partir de exames clínicos. O médico explica que, para avaliar o estado da cartilagem, o mais aconselhável é fazer uma tomografia com contraste ou uma ressonância magnética. “É muito difícil classificar o grau de condropatia por qualquer exame de imagem. O método fidedigno é pela artroscopia, porém aí já é um procedimento cirúrgico”, esclarece.

Apesar de ocorrer com certa frequência em homens, a condropatia é mais comum em mulheres, devido à anatomia do quadril, que entorta os joelhos para dentro. Esse desconforto surgiu há oito meses na vida da cabeleireira Vanessa Souza, 39 anos. Com o aumento de 10kg no peso e as horas em pé no salão de beleza, os joelhos incham e Vanessa sente dores que, segundo ela, “são de tirar o sono”.

A cabeleireira conta que o mal-estar começou no joelho direito e há quatro meses passou a sentir os “estalos e beliscões” também no esquerdo. “Para não forçar um, sobrecarreguei o outro. Agora sinto dores nos dois”, reclama. Vanessa se diz teimosa e afirma não deixar de fazer nada, mesmo com dificuldade. “Tenho que trabalhar, com ou sem dor”, ressalta. Ela já iniciou os exames para saber o grau da condropatia e espera estar bem até o fim do ano. “Com o Natal e o reveillón, o movimento do salão é maior e, com dor, tudo fica mais difícil”, acredita.

Reabilitação
O fisioterapeuta da Universidade de São Paulo Marcelo Saad apresentou, em sua tese de mestrado, sob orientação da médica Débora Bevilaqua Grossi, um novo modelo de reabilitação para os casos de dor anterior no joelho (DAJ) ou síndrome da dor femoropatelar. Atualmente, a reabilitação inclui alívio de dor, exercícios de fortalecimento muscular, inclusive de músculos estabilizadores do quadril, alongamentos e treinos funcionais (onde se incluem as atividades de subir e descer escadas).

Ele constatou, a partir de pesquisas com 30 voluntárias — 15 delas com DAJ —, que as pacientes apresentam maior oscilação na realização das atividades. Segundo Marcelo, elas descarregam o peso com menor intensidade na perna, até mesmo como forma de evitar o quadro de dor. “A atividade da musculatura estabilizadora da patela é menor, ou seja, essa musculatura é menos ativa”, contextualiza.

O novo modelo de reabilitação proposto por Marcelo leva em conta o nível da ativação muscular, do controle postural e de sobrecarga no membro inferior. Ele propõe que o treinamento comece pela atividade de subida (como em escadas), que, além de menos dolorosa, ainda é estável e trabalha mais a musculatura. Dessa forma, o joelho fica “forte” para começar os testes de descida. “Esse exercício é menos tolerado pelos pacientes, pois exige mais da articulação e a descarga de peso é no membro com dor”, afirma.

DESPERCEBIDO
É um tecido embrionário presente no joelho de 70% da população. Ele não é notado até que, em algumas pessoas, fica espesso. Esse tecido, quando inflamado devido ao estresse de atividades físicas, causa dor e lesão condral na patela.

O que é dor anterior no joelho e o que causa?
Dor Anterior no Joelho (DAJ), também conhecida por Síndrome da Dor Femoropatelar ou Disfunção Femoropatelar, é uma dor de difusa localizada no joelho, causada por alterações biomecânicas ou estruturais no membro inferior (que incluem alterações de alinhamento no membro inferior, fraqueza muscular, desequilíbrios musculares, encurtamentos, etc...). Diversos fatores podem estar envolvidos/relacionados à DAJ, porém a literatura científica mundial ainda é muito controversa quanto as causas da DAJ. É uma “desordem musculo-esquelética” em que muitos fatores podem estar envolvidos, e ela (DAJ) tem seus sintomas exacerbados em atividades que levam a flexão do joelho e consequentemente aumento o estress na articulação femoropatelar, atividades como caminhar, correr, agachar, subir e descer escadas, ou seja, praticamente todas as atividades do dia-a-dia, e muitas vezes estes indivíduos deixam/evitam fazer a atividade por causa da dor. Ela atinge adultos jovens fisicamente ativos, principalmente mulheres, e chega até 25% dos diagnósticos dos pacientes com problemas de joelho em clínicas ortopédicas de reabilitação.

Como foi a pesquisa?
Bom minha pesquisa foi realizada na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da Universidade de São Paulo (USP), especificamente no Laboratório de Análise da Postura e do Movimento Humano (LAPOMH), sob orientação da Profa. Dra. Débora Bevilaqua Grossi. E, no meu trabalho específico de mestrado, avaliamos as atividades específicas de subir e descer escadas, que são 2 das mais dolorosas atividades para este tipo de paciente e que também são atividades utilizadas nos processos de reabilitação destes pacientes.   Utilizamos para a pesquisa uma escada simples de 3 degraus, onde no primeiro degrau estava localizada uma plataforma de força, que é um equipamento que avalia a estabilidade/equilíbrio do indivíduo ao subir ou descer o degrau e que também nos fornece dados sobre o quanto o indivíduo está descarregando peso sobre o membro inferior que está sobre ele, nos dando idéia então do “controle postural/equilíbrio” e da sobrecarga no membro inferior do indivíduo durante as atividades. Utilizamos também um equipamento de eletromiografia de superfície (EMG), que são pequenos eletrodos colocados sobre grupos musculares específicos e que nos fornecem informações sobre a atividade/ativação muscular dos músculos que nos interessam, no nosso caso, os músculos estabilizadores da patela e do quadril.

Qual a conclusão?
Os resultados da pesquisa nos mostraram que indivíduos com DAJ, quando comparados à indivíduos normais, apresentam maior oscilação na realização das atividades, descarregam o peso com menor intensidade na perna, até mesmo como forma de evitar / exacerbar o quadro de dor, e também apresentam uma menor atividade da musculatura estabilizadora da patela/joelho, ou seja, a musculatura é menos ativa nestes indivíduos.

Como é feita a reabilitação atualmente?
A reabilitação destes indivíduos inclui alívio de dor, exercícios de fortalecimento muscular, inclusive de músculos estabilizadores do quadril, alongamentos e treinos funcionais (onde se incluem as atividades se subir e descer escadas).

De uma forma prática, qual é a sua sugestão para uma nova reabilitação?
Atualmente quando se faz o treinamento funcional específico de subir ou descer escadas não se especificava a melhor maneira de realizá-los, assim, os resultados de nosso estudo mostraram que existem diferenças específicas nestas duas atividades quanto ao nível da ativação muscular, controle postural/equilíbrio e sobrecarga no membro inferior. Logo, objetivamos durante o treino funcional específico de subir e descer escadas, iniciarmos pela atividade se subida que é uma atividade que é menos dolorosa para estes pacientes, apresenta maior oscilação durante sua realização, ou seja, é mais instável e envolve uma maior ativação da musculatura.  Assim seu treinamento poderia trazer benefícios de estabilidade e fortalecimento/controle muscular até o avanço no tratamento, para então começarmos atividades de descida, que é a atividade menos tolerada por pacientes com DAJ, envolve uma menor ativação da musculatura para este tipo de paciente, exige mais do complexo articular do joelho e leva o paciente a descarregar mais peso no membro acometido. Concomitante à isto, é de fundamental importância fortalecer a musculatura estabilizadora da cintura pélvica, pois sabemos que a fraqueza dessa musculatura pode resultar em quadros dolorosos no joelho como a DAJ.

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