Ciência e Saúde

Plásticos que absorvem oxigênio integram linha de pesquisa de universidade

Tereza Rodrigues
postado em 25/11/2010 10:00
Belo Horizonte - Foi-se o tempo em que as embalagens serviam apenas para exibir os alimentos nas prateleiras dos supermercados. A tendência é que elas possam contribuir significativamente para tornar os produtos cada vez mais saudáveis e prolongar sua vida útil. No Laboratório de Embalagens da Universidade Federal de Viçosa (UFV), na Zona da Mata de Minas Gerais, pesquisas pioneiras estão sendo desenvolvidas desde 1998. Liderada pela professora Nilda de Fátima Soares, do Departamento de Tecnologia de Alimentos, a equipe tem atribuído várias funções às embalagens de frutas, hortaliças, carnes e massas. Por enquanto, as principais delas são chamadas de "embalagens ativas", que interagem e protegem os alimentos, e "embalagens inteligentes", cuja função é monitorar e transmitir informações sobre a qualidade do que está acondicionado.

Bastante comuns no Japão, nos Estados Unidos e em algumas regiões da Europa, tais tecnologias estão ainda em fase laboratorial no Brasil. Mas, de acordo com a professora Nilda, devem se popularizar no nosso mercado em, no máximo, cinco anos. "A indústria alimentícia tem apostado muito nas nossas pesquisas, porque há demanda. Essas embalagens são vantajosas tanto para os consumidores, que terão garantia de segurança alimentar, quanto para os produtores, que ganharão rentabilidade, pois terão mais tempo para comercializar e menos desperdício", explica.

Pesquisadores desenvolvem estudo desde 1998 para dar função a essas embalagensOs 25 pesquisadores que trabalham no laboratório são alunos e ex-alunos da UFV, e alguns atualmente trabalham também em outras universidades brasileiras. Eles já patentearam várias modalidades das embalagens e agora chamam a atenção da indústria, já que há uma preocupação crescente com a biossegurança alimentar. "Desde os atentados terroristas de 2001, em Nova York, nos Estados Unidos, toda tecnologia que contribui para detectar bactérias ou qualquer elemento estranho em alimentos é estimulada", comenta Washington Azevedo da Silva, membro da equipe do Laboratório de Embalagens da UFV e atualmente professor da Universidade Federal de São João Del-Rei, câmpus de Sete Lagoas (CSL-UFSJ), a 100km de Belo Horizonte.

Além da segurança e da comodidade (devido ao monitoramento das condições dos alimentos), o consumidor passa a ter instrumentos medidores de qualidade, como sensores ou etiquetas que alteram a cor se o prazo de validade expirar ou se for detectada a presença de alguma bactéria. Os pesquisadores apontam ainda vantagens como a preservação das propriedades naturais dos alimentos. O professor Washington Silva diz, por exemplo, que embalagens ativas evitam a aplicabilidade de aditivos químicos, normalmente usados como conservantes. "Podemos colocar dentro das embalagens sachês, filmes poliméricos e vários tipos de material que podem ser sintéticos ou biodegradáveis. Vai depender do tipo de alimento e das necessidades da empresa, porque podem ser colocados desde elementos com função antimicrobiana e antioxidante até filmes que têm capacidade de bloquear raios ultravioleta", diz.

Para a indústria, tais embalagens representam também maior possibilidade de lucro. Elas podem evitar que supermercados coloquem nas prateleiras produtos impróprios para o consumo. "Ganha-se tempo de exposição e reposição mais adequada", explica Washington Azevedo da Silva. Mesmo ainda não sendo regulamentadas no Brasil, tais embalagens não apresentam riscos iminentes. Os resultados das pesquisas têm mostrado que quase não ocorre migração de agentes ativos das embalagens para os alimentos, já que o contato é apenas superficial.

Segundo o professor, cada tipo de alimento requer a elaboração de uma embalagem com elementos, formatos e funções diferentes. Carnes, por exemplo, são bastante passíveis de deterioração se ficarem muito tempo expostas ao ar ou se receberem grande incidência de luz. Então foi desenvolvido um plástico que absorve oxigênio e dióxido de carbono, com agentes bloqueadores de raios ultravioleta. Tal tecnologia foi totalmente desenvolvida no Laboratório de Embalagens da UFV e, aos olhos de um leigo, o plástico ativo é bem parecido com o plástico comum, sendo inclusive transparente.

Outro exemplo dado pelo pesquisador é a embalagem inventada para acondicionar frutas como manga. "Colocamos um agente que inibe a ação do etileno (o gás responsável pelo processo de amadurecimento de frutas e hortaliças), aumentando sua vida útil. Mas há várias outras possibilidades, como acrescentar antimicrobianos e antioxidantes", afirma.

CONTRA DETERIORAÇÕES

As embalagens ativas evitam as deteriorações química e microbiológica de frutas e garantem a segurança de vários outros tipos de alimento, inibindo o crescimento de micro-organismos patogênicos (causadores de doenças) e melhorando as características sensoriais. O princípio básico de atuação dessas embalagens é a adição de uma barreira extra (microbiológica) às barreiras físicas (oxigênio e umidade), aumentando, assim, o tempo de validade. Os materiais usados na fabricação dessas embalagens vão desde os tradicionais plásticos sintéticos aos polímeros biodegradáveis, como amido, ou ainda materiais obtidos a partir da adição de nanocompostos.

QUALIDADE GARANTIDA

Às embalagens inteligentes são incorporados sensores que podem ser internos ou externos, capazes de monitorar as condições do alimento. Selos ou etiquetas mudam de cor para identificar qualquer tipo de alteração - por exemplo, se o produto foi aberto ou se sofreu descongelamento. Eles podem informar também detalhes da origem e da qualidade do transporte e a distribuição por meio de códigos de barras inteligentes, ligados a sistemas de rastreamento por GPS. Assim, o fabricante consegue rastrear o produto e se informar sobre as reais condições do produto.

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