Publicidade

Correio Braziliense

Novo analgésico à base de extrato de sucupira, árvore típica do cerrado

Pesquisadores da Unicamp descobrem que o extrato da sucupira, árvore comum no cerrado, tem propriedades de ação potente contra a dor e até potencial antitumoral


postado em 10/12/2010 08:00

Testes mostram que ação das sementes é mais eficaz que a das folhas(foto: Fotos: Antoninho Perri/Divulgação)
Testes mostram que ação das sementes é mais eficaz que a das folhas (foto: Fotos: Antoninho Perri/Divulgação)
Novos potenciais medicinais das plantas não param de ser descobertos. Ao observar a utilização e os relatos sobre o chá da folha de sucupira — conhecido por amenizar dores nas articulações e na garganta —, pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) resolveram estudar as tais propriedades medicinais da planta e descobriram que seu extrato tem eficientes atividades analgésica e antitumoral. A sucupira é uma árvore de porte médio (de até 16m), comum no cerrado brasileiro e em parte da Mata Atlântica brasileira.

Ainda é o que se chama de pesquisa básica, sem mecanismos concretos de utilização (como um medicamento, por exemplo), mas que traz oportunidades de desenvolvimento de novos remédios. “De um dado popular até chegar a um fármaco levam-se anos”, enfatiza um dos autores do estudo, Humberto Moreira Spíndola, farmacêutico do Centro Pluridisciplinar de Pesquisas Química, Biológicas e Agrícolas (CPQBA) da Unicamp. Isso ocorre porque é necessário comprovar se os ativos de fato funcionam e se são seguros para sua utilização. “Estamos em uma etapa inicial do estudo, na qual comprovamos que os extratos da planta funcionam. Precisamos, porém, percorrer um longo caminho até saber se eles são eficazes em seres humanos”, diz Spíndola.

Spíndola e Mary Ann: agora, testes para verificar segurança em humanos
Spíndola e Mary Ann: agora, testes para verificar segurança em humanos
Para comprovar as propriedades, os cientistas avaliaram os extratos de folhas e sementes da sucupira e descobriram que, nestas últimas, se encontravam potentes atividades analgésicas e antitumorais. “As folhas não tiveram a mesma atividade, provavelmente por não conterem os mesmos princípios ativos”, esclarece Mary Ann Foglio, orientadora de Spíndola.

Na avaliação dos extratos dessas sementes, foram descobertas duas substâncias envolvidas tanto na atividade analgésica como na antitumoral: a geranilgeraniol e a vouacapano. Da união delas, os cientistas desenvolveram um novo extrato para testar em células (in vitro) e em ratos e camundongos (in vivo).

Para descobrir a atividade antitumoral, o extrato foi injetado em células de diversas linhagens de câncer (veja infografia). Segundo Spíndola, os resultados foram positivos em todas as células, demonstrando capacidade de combate ao tumor. O extrato, contudo, teve maior eficiência sobre o câncer de próstata. Nos testes com camundongos, o tumor foi induzido e também foi observada a ação positiva contra os cânceres. “Mas não podemos afirmar que daria certo em humanos, já que os tumores de animais são mais simples. Precisamos de mais estudos para descobrir os mecanismos de ação do extrato nos tumores humanos”, sustenta o autor da pesquisa.

Por outro lado, os resultados das atividades analgésicas são mais próximos da realidade, já que a dor funciona de forma semelhante em todos os seres humanos. Nos testes com ratos e camundongos, as substâncias do extrato da semente da sucupira mostraram potencialidade em inibir a dor. “Nessa etapa, determinamos os mecanismos de ação que podiam estar envolvidos na atividade analgésica. A principal conclusão foi que funciona”, comemora Spíndola.

A pesquisa também procurou determinar se o extrato é semelhante a outros analgésicos existentes no mercado: morfina, dipirona e diclofenaco de potássio (o popular Cataflan). “Observamos os mecanismos de analgesia para saber que tipo de analgesia existe é comum no extrato. Só posso adiantar que não há nenhuma semelhança com a morfina”, diz o autor do estudo.

Segurança
A pesquisa agora vai determinar se o extrato é seguro para o uso humano — a parte mais importante de qualquer estudo que busque o desenvolvimento de um medicamento. Isso quer dizer, que os cientista terão que provar se as substâncias descobertas podem ser tóxicas ao organismo — por enquanto, de animais, onde serão testadas primeiramente. Como são os efeitos sistêmicos das substâncias? Elas podem ser usadas todos os dias sem nenhum problema? Essas indagações poderão ser respondidas pelos estudos de toxicidade não clínica.

Entre os problemas mais comuns no estudo de segurança está o fígado, um dos órgãos mais afetados pela ação das substâncias, pois é responsável por seu metabolismo. O outro órgão que pode sofrer problemas no uso de substâncias são os rins, responsáveis por filtrar o sangue e eliminar as toxinas do corpo. “O produto pode ser excelente nas suas atividades, mas se atingir algum órgão, não serve para nada”, ressalta o farmacêutico. “Toda pesquisa é um tiro no escuro. Você descobre uma ação importante de alguma substância, mas pode esbarrar na sua toxicidade”, lamenta.

No estudo de segurança diversos fatores devem ser considerados, principalmente como ele será formulado — oral ou tópico. “Se for tópico, pela legislação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), é necessário fazer todos os estudos de segurança, que incluem os de irritação da pele e de toxicidade oral, de doses repetidas”, esclarece a orientadora do estudo.

Spíndola conta que muita gente procura sua equipe na Unicamp para saber indicações sobre o uso e as propriedades medicinais da sucupira, principalmente a do chá. A falta de estudos para comprovar a sua segurança, entretanto, inviabiliza uma indicação de uso contínuo. “Infelizmente, muitas pessoas, ao saberem dessa pesquisa, ficam empolgadas e já querem ver resultados. É necessário tomar cuidado, pois sabemos que ela funciona em animais, conhecemos as substâncias envolvidas, mas ainda não temos dados suficientes de segurança e eficácia clínica”, ressalta o pesquisador.

  • Tags
  • #
Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade