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Estado de Minas

Antônio Secundino levou o Brasil a ser maior plantador de milho do mundo

A visão e a insistência do pesquisador mineiro fizeram com que o Brasil passasse por uma grande revolução agrícola, deixando de ser apenas um produtor de milho para subsistência e tornando-se o segundo maior plantador do mundo


postado em 10/01/2011 08:00 / atualizado em 09/01/2011 22:34

Ele nasceu Antônio Secundino, em 10 de fevereiro de 1910, na comunidade de Santa Rita de Patos de Minas, hoje município de Presidente Olegário (MG). Aos 3 anos, ganhou outro sobrenome: São José, numa homenagem ao santo, que, segundo a mãe, o curou de uma sequência de febres seguidas de convulsões que nunca foram muito bem explicadas pelos médicos. O mineiro, pouco conhecido por boa parte da população , é um dos principais responsáveis pelas 56,1 milhões de toneladas de milho que o Brasil colheu em 2010. Desenvolvedor das primeiras sementes de milho adaptadas ao clima tropical e comercialmente viáveis, o mineiro que sempre dizia “um homem cumpre suas promessas, não importa quanto isso lhe custe”, cumpriu até o fim da vida sua principal promessa: fazer do Brasil um dos líderes mundiais na produção do alimento.

A revolução que Antônio Secundino protagonizaria na agricultura começou bem antes que a primeira lavoura de milho comercial fosse plantada no Brasil. Em 1926, aos 16 anos, o jovem Secundino concluiu o segundo grau em um colégio de padres em Uberaba (MG). O passo óbvio seguinte seria voltar para a casa da mãe e ajudar a cuidar da fazenda da família. Como era apaixonado pelos estudos, porém, conseguiu convencer a mãe de que deveria prosseguir com a vida acadêmica e, de acordo com o costume da época, foi matriculado em uma faculdade de direito, em Belo Horizonte. Antes que as aulas começassem, no entanto, dona Balbina, mãe de Secundino, pediu que o filho visitasse padre Álvaro, um amigo da família que residia em Viçosa, a 225km da capital mineira.

A visita, totalmente despretensiosa, foi essencial para que os planos e o futuro do pesquisador mudassem completamente. Por coincidência, naquele ano seria inaugurada a Escola Superior de Agricultura e Veterinária (Esav), em Viçosa. Em companhia de padre Álvaro, o jovem foi conhecer as suntuosas instalações que abrigariam a faculdade — erguida pelo então presidente da República, Arthur Bernardes, em sua cidade natal. Admirado pelo clima da universidade recém-construída, Secundino decidiu abandonar o curso de direito em Belo Horizonte e permaneceu em Viçosa para cursar agronomia, curso no qual se formou em 1931.

Seis anos depois, já como professor da Esav, conseguiu uma bolsa de estudos nos Estados Unidos para estudar genética de alimentos com o pesquisador E. W. Lindstrom, que, naquela época, desenvolvia as primeiras espécies de milho comercial dos EUA. A planta, nativa do México, não produz naturalmente muitos grãos por espiga, o que impede que grandes lavouras do produto sejam plantadas, mantendo a produção restrita à subsistência. O desafio de pesquisas como a do americano era misturar vários exemplares de diversas espécies, chegando a uma semente que produziria plantas com muitos grãos por espiga e que se adaptasse ao clima e aos solos de onde fosse plantada.

Difícil adaptação
De volta ao Brasil, depois de um ano nos EUA, e com um carregamento das novas sementes americanas na bagagem, Secundino descobriu que a implantação do milho híbrido no Brasil não seria tão simples. As variáveis desenvolvidas por seu professor não se adaptavam às condições climáticas brasileiras e, caso quisesse expandir a plantação do grão no Brasil, teria que recomeçar todo o trabalho já feito por Lindstrom e desenvolver uma espécie especial para o solo tupiniquim.

Então, usando sementes norte-americanas misturadas a espécies selvagens do México, ele começou o desenvolvimento das primeiras linhagens de milho híbrido totalmente adaptadas a regiões tropicais, como Catete, Xavier e Amarelão. “Nenhum milho comercial havia sido produzido, até então, nos trópicos, e Secundino e seu colega de pesquisa, Gladstone de Almeida Drumond, foram prevenidos de que, mesmo com experiências bem-sucedidas, o trabalho fracassaria comercialmente”, conta o pesquisador da história da Universidade Federal de Viçosa — denominação atual da Esav — Gustavo Sabioni, com base em relatos de Lourival Pacheco, amigo e colaborador de Secundino por mais de 50 anos.

As sementes melhoradas, embora produzissem muito mais do que as comuns, eram um pouco mais caras do que as convencionais. Começava o segundo desafio de Antônio Secundino, tão difícil quando desenvolver as sementes especiais: convencer os céticos produtores rurais de que valeria a pena investir nas novas linhagens, em nome de uma produtividade mais alta. Mais uma vez, a paciência e a persistência do cientista foram postas à prova. “Eu era criança naquela época, e me lembro de minha mãe contar que o Secundino fazia pequenos saquinhos de 1kg de semente e saía de fazenda em fazenda. Para convencer os produtores das vantagens dos híbridos, ele fazia um acordo: só lhe pagariam pela semente se a produção fosse boa como ele prometia”, conta Marialda Cury, diretora da Memorial Casa da Cultura do Milho de Patos de Minas (MG).

A estratégia de Secundino deu certo e as sementes desenvolvidas pelo cientistas aos poucos foram tomando o lugar do milho rústico utilizado até então. Empresas se interessaram pela pesquisa do professor da UFV e começaram a desenvolver outras variantes de milho híbrido, que resultaram nas sementes que são utilizadas até hoje. A revolução verde trazida pelas pesquisas de Antônio Secundino fez do Brasil, então simples produtor da espécie para subsistência, o segundo maior exportador de milho em todo o mundo.

Reconhecimento
Os feitos do pesquisador renderam a Antônio Secundino de São José diversas homenagens. A Biblioteca Central da UFV, onde foi reitor entre 1947 e 1951, leva o nome seu nome. Em 1991, o governo de Minas Gerais instituiu a Comenda Antônio Secundino de São José, concedida anualmente às pessoas que mais contribuem para o desenvolvimento da agropecurária do país. “Essa é uma forma de homenagear tanto o Antônio Secundino quanto de reconhecer o trabalho de outras pessoas que, assim como ele, contribuem para o crescimento do país”, afirma Marialda.

Antes de falecer, em São Paulo, em 19 de maio de 1986, Antônio Secundino, afilhado de São José, deixou um último pedido: “Gostaria de ter em minha sepultura um pé de milho”. Seu ex-aluno e grande amigo Lourival Pacheco fez a homenagem final. “Em cima de inúmeras coroas de flores, em seu túmulo, colocou três espigas de milho. Com certeza, Secundino não desejaria homenagem maior”, completa Gustavo Sabioni.

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