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Estado de Minas

Herpes-zóster, causador da popular catapora, vai da coceira à dor


postado em 09/02/2011 09:52

A coceira e a dor nas costas da empresária Rosane*, 29 anos, apareceram de repente, dois ou três dias antes de as lesões na pele — sintoma mais conhecido da herpes-zóster — se tornarem visíveis. Ao receber o diagnóstico, o susto foi inevitável. “A doença ainda é pouco conhecida e mal interpretada. As feridas são realmente muito feias e existe um preconceito velado em relação a essa infecção. Quando falava que estava com o problema, algumas pessoas me olhavam com receio”, relata. Conhecida por leigos como cobreiro, a herpes-zóster é uma doença oportunista. Pouca gente sabe, mas o mal é resultado da reativação do vírus varicela-zóster, causador da popular catapora, e é bem mais grave do que as pequenas lesões provocadas pelo Herpes simplex, aquelas pequenas bolhas que afetam as mucosas na herpes mais comum.

Depois de causar a infestação da catapora, o varicela-zóster é disseminado por meio do fluxo sanguíneo e permanece adormecido nas raízes nervosas da medula espinhal ou do crânio. Anos mais tarde, em um momento de baixa da imunidade, ele ataca novamente o organismo. O médico infectologista do Hospital Anchieta Tarquino Gavilanes Sanchez explica que a herpes-zóster é mais comum em indivíduos acima dos 50 anos. Quanto mais velha é a pessoa, mais grave costuma ser a manifestação dos sintomas, mas jovens e adolescentes também são vítimas.

A dor intensa compromete áreas como os ombros, as regiões cervical, torácica e lombossacra ou o rosto e é entendida pelos médicos como um aviso da doença. “As feridas surgem em questão de dias e acometem a porção da pele cuja sensibilidade depende dos nervos afetados. Elas aparecem somente em um lado do corpo, exatamente no segmento nervoso no qual o vírus estava latente. É como se as ulcerações seguissem o caminho do nervo”, observa o especialista.

Alguns doentes também relatam mal-estar, arrepios, febre, náuseas e diarreia antes que as lesões agrupadas se formem na derme. Não se sabe exatamente quantas pessoas são surpreendidas pela herpes-zóster no Brasil. Nos Estados Unidos, o mal acomete cerca de 1 milhão de pessoas por ano. O problema é mais frequente em pacientes imunodeprimidos. Estudos sugerem que, nessas pessoas, a incidência é 15 vezes maior do que em pacientes que não apresentam imunossupressão constante. “A herpes-zóster é uma das patologias que aproveitam a fragilidade de pacientes portadores do HIV com deficiência do sistema imunológico instalada. Na verdade, ela é uma das primeiras infecções que afetam indivíduos com o vírus da Aids. Por isso, o preconceito”, avalia Sanchez.

Emoções
O infectologista, porém, faz questão de lembrar: pacientes com HIV estão no grupo de risco, mas nem de longe isso significa que a herpes-zóster seja exclusividade deles. A empresária Rosane, por exemplo, não é portadora do HIV. “A infecção ocorreu em um período de intenso desgaste emocional, fator gatilho para a baixa imunidade. Uma grande ferida se instalou no lado esquerdo das costas. Senti tanta dor que não conseguia me movimentar”, lembra. O tratamento é feito com fármacos antivirais eficazes contra o vírus ministrados por via oral ou intravenosa. As drogas não curam a doença, mas encurtam sua manifestação e aliviam os sintomas. Uma crise de herpes-zóster costuma imunizar a pessoa, mas 5% dos pacientes apresentarão novos episódios.

As lesões podem deixar cicatrizes na pele, mas são as complicações decorrentes da infecção que mais preocupam os especialistas. A nevralgia pós-herpética é a mais comum, atingindo de 10% a 18% dos pacientes em geral. De acordo com o neurocirurgião Tiago Freitas, a idade avançada, a intensidade da dor aguda durante a fase das vesículas, a gravidade das lesões e a alteração sensitiva na área acometida por elas são fatores que indicam a possibilidade da nevralgia. “Estudos de biópsia de pele em humanos mostram que os pacientes que desenvolveram essa complicação apresentavam maior degeneração das fibras finas envolvidas com a sensibilidade, dano provocado pelo vírus”, revela.

O quadro clínico da neuralgia pós-herpética consiste em dor, geralmente intensa, localizada na área acometida pela lesão mesmo após sua cicatrização. Tiago observa que os pacientes relatam um desconforto semelhante ao provocado por queimaduras, formigamento, choque ou pontadas. A dor pode piorar com a alteração das emoções, mudanças no clima ou com a estimulação física de determinados tecidos sobre a região. Quando a neuralgia está instalada, o tratamento inicial é feito com analgésicos, antidepressivos e anticonvulsivantes. “Em alguns casos, lançamos mão de bloqueios anestésicos de nervos e procedimentos neurocirúrgicos. Abordagens psicológicas associadas são importantes, devido ao sofrimento causado pelo transtorno”, explica o neurocirurgião.

O aposentado Aramil Carlos Pinto, 72 anos, foi surpreendido pela herpes-zóster em 2009. As feridas cicatrizaram, mas a dor não o deixou mais em paz. “Não tínhamos conhecimento dessa doença. Quando imaginávamos que meu pai estava recuperado das feridas, veio a dor crônica. Nunca vi tamanho sofrimento. Ele chorava de dor e não conseguia dormir, porque ela irradiava do peito para as costas. Não havia posição que aliviasse o martírio”, conta Luismar Carlos Pinto, filho do aposentado. Aramil passou por uma pequena cirurgia que tratou o nervo afetado. “Hoje, ele está muito bem. Mas não foi fácil encontrar um médico que tratasse o problema”, lembra Luismar.

O mesmo aconteceu com a dona de casa Olívia de Abreu Sirineu, 57 anos. No caso dela, a herpes-zóster atingiu o olho esquerdo. O diagnóstico não foi feito nem mesmo depois que apareceram as ulcerações. “Moro no interior de Goiás. O médico me olhou e disse para eu procurar um oftalmologista. Vim para Brasília e procurei vários, mas nenhum conseguiu descobrir o que eu tinha. Quando eu já estava perdendo as esperanças, um clínico geral fez o diagnóstico. Sofri demais”, conta. As feridas secaram e deixaram as sequelas no nervo trigêmeo, o que causa dor e ardência constante. “Na semana passada, consultei um neurocirurgião, que está avaliando a possibilidade de uma cirurgia ou de um tratamento mais conservador”, diz.

* Nomes fictícios a pedido dos entrevistados.

PARA SABER MAIS

Vacina para idosos
Uma vacina contra a herpes-zóster recomendada para adultos com mais de 60 anos foi aprovada em 2006 pela US Food and Drug Administration (FDA), agência norte-americana de alimentação e medicamentos. Estudos clínicos do laboratório fabricante comprovaram a redução de cerca de 50% na incidência da doença em pessoas vacinadas. Ainda assim, menos de 7% do público alvo faz a imunização. Em janeiro, uma nova pesquisa conduzida por um plano de saúde nos Estados Unidos foi publicada no The Journal of the American Medical Association (Jama). Para os cientistas envolvidos, o trabalho reforçou a eficiência da droga. Os pesquisadores estudaram 300 mil pessoas. Dessas, 75 mil foram vacinadas e 225 mil não. “Concluímos que a vacinação reduz em 55% o risco de infecção. Também descobrimos que a vacina funciona para todas as idades, enquanto o ensaio do próprio laboratório atestava a eficiência apenas nos idosos”, revelou ao Correio o cientista e epidemiologista Hung Fu Tseng, coordenador do estudo. A substância está disponível no Brasil somente no sistema privado de saúde.

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