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Estado de Minas

Por onde passa, o fumo provoca destruição


postado em 30/05/2011 08:19

O novo mandamento do século 21 deveria ser “não fumarás”. Uma pesquisa recente concluiu que não apenas os cânceres de pulmão, pescoço e cabeça estão correlacionados com o tabagismo, mas vários outros, como o de bexiga, por exemplo, surgem no caminho que as substâncias tóxicas do cigarro percorrem no corpo humano. Nesse rol, estão tumores como os de mama, de intestino e até de colo de útero. Estudos feitos pelo Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), com a colaboração da Universidade de São Paulo (USP), em 2010, concluíram que 65% dos homens e 25% das mulheres com câncer de bexiga eram fumantes ou tinham um histórico de consumo de tabaco. O alerta surge às vésperas do Dia Mundial sem Tabaco, marcado para amanhã.

Os dados foram levantados pelos pesquisadores do Icesp e da USP dentro do estado de São Paulo, mas em termos nacionais essa proporção aumenta. “Podemos dizer que 70% das pessoas com esse tipo de câncer (bexiga) foram ou são fumantes. E o pior, quando se trata de um não fumante, a resposta ao tratamento é positiva em mais de 80%; mas, se for fumante, essa taxa cai para 20% e as chances de sobrevida são bem menores”, explica o oncologista Anderson Silvestrini, diretor técnico do Grupo Acreditar (ex-Ceon), um dos centros especializados em tratamento de câncer do Distrito Federal.

Não é o caso do mineiro Euler de Paula Velozo. Ele acaba de completar 60 anos e afirma que não se deixa abater com a doença, descoberta no fim do ano passado. Ele iniciou há pouco tempo o primeiro dos três ciclos de quimioterapia prescritos e reage bem às sessões. Mas a força maior nesse processo de terapias vem da própria crença de que tudo vai dar certo e de um estado de espírito que o ajuda a superar o trauma e o desespero. “A doença, apesar de ter sido um choque, nos leva a fazer uma série de reflexões sobre a vida. Passamos a dar valor às pequenas coisas e a ter uma percepção mais clara do que realmente é importante nessa vida”, comenta o economiário aposentado.

Euler afirma ainda que a doença permite uma revisão de valores e a recuperação de alguns tesouros pessoais muitas vezes abandonados entre uma fase e outra da vida. Uma dessas conquistas que ele diz ter resgatado foi a sua banda de rock especializada em clássicos dos anos 1960 e 1970, cujos integrantes estão na mesma faixa de idade. Ao contrário do que sugere o nome — Radicais Livres, substâncias vinculadas a processos degenerativos do corpo —, o grupo é movido a alto-astral, humor e nostalgia. “Além de reafirmar a existência da Jovem Guarda, do bom rock dos anos 1960, temos de passar aos jovens essa consciência de que o tempo do cigarro já passou, que não se deve fumar ou comer gorduras”, ensina Euler, com a experiência de um fumante que abandonou o vício há 30 anos.

Efeito retardado
Essa longa pausa no hábito que era moda na geração de Euler não impediu, porém, a ação secreta e insidiosa das mutações genéticas. Os processos neoplásicos são assim: começam lá atrás e não marcam data para desenvolver a doença. A chave de ignição que a desencadeia começa em uma única célula que sofre alteração em seu DNA e, em seguida, ocorrem várias mutações. O câncer é, fundamentalmente, uma doença genética. E o fumo, por sua vez, é capaz tanto de lesar o DNA das células do corpo inteiro quanto de irritar as mucosas, causando inflamações crônicas na boca, na garganta, nos brônquios e nos pulmões. Por essas razões, o produto causa cânceres como os de bexiga e de pâncreas. “O fumo é a principal causa do câncer de bexiga”, atesta Luciano Henrique Pereira Santos — o oncologista clínico que acompanha Euler. “Há mais do que uma simples evidência na literatura médica sobre a influência do cigarro na formação de tumores na bexiga”, acrescenta o médico.

Segundo Santos, o fato de a urina ficar armazenada na bexiga facilita a ação de agentes carcinogênicos, como as nitrosaminas. “Isso não significa que todo fumante vai desenvolver câncer de bexiga, mas as probabilidades são bem maiores.” Quando o câncer se limita ao tecido de revestimento da bexiga, é chamado de superficial. Mas o que começa nas células de transição pode se espalhar através do revestimento da bexiga, invadir a parede muscular e disseminar-se até os órgãos próximos ou gânglios linfáticos, transformando-se num câncer invasivo. Estatísticas do Instituto Nacional do Câncer mostram que o câncer de bexiga é um dos tumores mais frequentes. Ocupa atualmente o quarto lugar (10% dos casos) nos homens e o oitavo lugar (4% dos casos) nas mulheres.

Pesquisas concluíram ainda que o câncer de bexiga é mais frequente na raça branca e uma das principais causas de morte por neoplasia maligna nos Estados Unidos — cerca de 10 mil vítimas por ano. De todos os cânceres relacionados ao cigarro, apenas o de pulmão obteve mais atenção em termos de busca e desenvolvimento de novas drogas. “Para os outros (cânceres) que têm a participação do cigarro, infelizmente não existe nem drogas nem tratamentos novos. No caso do câncer de bexiga, não há sequer novos entendimentos sobre a doença”, declara o coordenador de Pesquisa Clínica e Incorporação Tecnológica do Inca, o oncologista Carlos Gil.

Embora outros cânceres estejam relacionados ao tabagismo, o de pulmão, com 99% de certeza, é o mais diretamente ligado ao cigarro. Depois vêm os de boca, faringe, laringe, esôfago, mama, colo de útero, rim, fígado, intestino, bexiga, leucemias, linfomas. Pesquisas mais recentes mostram que fumantes apresentam riscos três vezes maior de desenvolver carcinoma espinocelular — entre outros tipos de câncer de pele.

Para o médico Ricardo Meirelles, da Divisão de Pneumologia do Inca, o cigarro é um forte indutor de câncer e apressa a mutação celular. “Também aumenta a velocidade de proliferação das células e mais de 60 substâncias cancerígenas entram na corrente sanguínea. A solução é não fumar ou parar de fumar”, argumenta.

Velhos tempos
Até hoje, Euler de Paula não esquece o impacto que provocavam as imagens das propagandas de cigarro na mídia, sempre associando o fumo ao sucesso, à sensualidade e ao charme. “Fumei dos 18 aos 28 anos e, na época, isso era bonito. As propagandas eram tão benfeitas que dificultavam uma avaliação crítica do tabagismo.” Para o aposentado, a doença se apresentou em um momento de descanso do trabalho e de feitura de novos planos. Ela desviou um pouco esse curso do destino, mesmo que de forma temporária, mas ele já escolheu: continuará traçando novas metas. Uma delas foi justamente o retorno à música. “A doença também nos dá a oportunidade de ver o quanto o tempo passa rápido e o quanto a vida é breve”, conclui.

Depois da filtragem
A bexiga é um órgão na parte baixa do abdômen, um pouco acima e atrás do osso do púbis. Ela armazena a urina que os rins produzem após filtrarem o sangue do corpo, retirando as substâncias desnecessárias para o funcionamento do corpo. A urina vai dos rins até a bexiga através de dois pequenos tubos (um para cada rim), chamados ureteres. A bexiga guarda a urina até estar suficientemente cheia para a pessoa sentir vontade de urinar e esvaziá-la. A bexiga é feita de uma camada muscular que estica e encolhe dependendo do volume de urina. Todo o tecido que recobre os ureteres, a bexiga e a uretra pode sofrer uma transformação maligna e transformar-se em câncer.

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