Ciência e Saúde

Chance de diagnóstico precoce para neuromielite óptica recorrente

postado em 02/06/2011 08:57
Para uma doença como a neuromielite óptica recorrente (NMO) ; mal incurável, que causa cegueira e paralisia ;, cujo diagnóstico normalmente só é feito tardiamente, encontrar uma substância que acelere sua descoberta e antecipe o tratamento é mais que uma notícia excepcional. Por ser uma enfermidade rara e com peculiaridades e sintomas pouco estudados, o diagnóstico é geralmente confundido com outros males e, quando o paciente consegue o diagnóstico correto, o quadro clínico se apresenta grave. Buscando mudar essa realidade, o neurologista Tarso Adoni, da Universidade de São Paulo (USP), pesquisou e detectou o anticorpo NMO-IgG, também conhecido como antiaquaporina 4, que, por ser comum nos portadores da doença, proporciona a antecipação do tratamento antes mesmo que os sintomas apareçam.

A partir da análise de 28 pacientes portadores da doença, tratados no Ambulatório de Doenças Desmielinizantes do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, Adoni avaliou o grau de acometimento da visão e da perda das funções medulares; a associação com outras doenças autoimunes; a presença no sangue do anticorpo; e os achados mais comuns nos exames de ressonância magnética. Nessa pesquisa, ele descobriu que 64,5% dos pesquisados tinham o NMO-IgG no sangue, estatística semelhante a de outros países. Com esse resultado, já é possível investigar em novos pacientes a existência do anticorpo e, portanto, ter uma boa base para diagnosticar a doença com mais rapidez.

;Imagine, por exemplo, um doente que apresente inicialmente somente o problema de visão. O médico pode solicitar a pesquisa do autoanticorpo no sangue e, caso ele esteja presente, iniciar o tratamento preventivo imediatamente, antes que ocorram ataques ao outro olho ou à medula espinhal;, propõe. Segundo o médico, essa é a grande vantagem do estudo, mas é preciso ficar atento aos sintomas. O neurologista do Hospital Anchieta Henrique Braga afirma que os mais frequentes são a turvação visual ou cegueira em um ou ambos os olhos, fraqueza ou paralisia em braços e pernas. ;Podem ocorrer espasmos musculares dolorosos e perda da sensibilidade no tronco e nos membros;, descreve.

Adoni explica que o NMO é uma doença autoimune, incurável, que afeta principalmente os nervos ópticos (responsáveis pela visão) e a medula espinhal (responsável pelos movimentos e pela sensibilidade dos braços e das pernas, além do controle da bexiga, do intestino e das funções sexuais). ;É uma doença mais comum em mulheres jovens (por volta dos 30 anos) e em afrodescendentes e asiáticos;, mensura.

Graves riscos
O diagnóstico, explica Braga, é feito a partir da história clínica do paciente e pelo exame neurológico detalhado. São realizados também exames complementares, como ressonância magnética (do cérebro e da medula espinhal), punção lombar, exame de fundo de olho (feito por oftalmologista), exames laboratoriais especiais (anticorpo NMO-IgG) e potenciais evocados (baseados em estímulos elétricos, que medem a resposta dos nervos), que ajudam a confirmar o diagnóstico.

O oftalmologista do Hospital Pacini Edney de Resende ressalta que o curso da doença é variável e depende muito de se há uma tendência para que os surtos ocorram após os sintomas iniciais que conduziram ao diagnóstico. ;Em geral, os surtos tendem a ser mais frequentes e severos do que são na esclerose múltipla;, compara. O risco principal, ele complementa, é a incapacidade de respirar espontaneamente, causada por danos na porção superior da medula espinhal. ;Entretanto, alguns pacientes podem passar muito tempo com a doença estável. No mais, a doença não foi estudada em populações grandes o suficiente para predizer com certeza o prognóstico de um caso individual;, opina.

Na fase aguda, o tratamento é realizado com a administração de corticoides via endovenosa em altas doses. Os corticoides são agentes anti-inflamatórios muito potentes e, quando usados continuamente, agem como imunossupressores: ou seja, suprimem boa parte da atividade do sistema imune, de defesa do organismo. A oftalmologista especialista em neuroftalmologia e órbita Maria do Carmo Pinheiro afirma que, em alguns casos, realiza-se a plasmaférese. ;Trata-se da filtração do sangue, com o objetivo de retirar os autoanticorpos do organismo;, conta. Na fase de prevenção, podem ser usados corticoides em doses menores; agentes imunossupressores, como a azatioprina; fisioterapia; e reabilitação neurológica.

Marcador importante
A médica considera que a presença do anticorpo NMO-IgG poderá ser mais uma ferramenta a ser utilizada a favor do paciente com NMO. ;O benefício de sua detecção para o tratamento dessa doença deve ser avaliado dentro do contexto de cada paciente e não como um exame laboratorial isolado;, opina.

Outro ;achado; do estudo foi a constatação de que a presença do anticorpo também serve como um marcador de que os portadores da NMO têm predisposição maior para outras doenças autoimunes, como problemas na tireoide. De acordo com Tarso Adoni, esses pacientes, assim como os portadores de outras doenças da autoimunidade, estão predispostos à ocorrência de várias doenças autoimunes em concomitância ou ao longo do tempo. ;Existe uma maior chance de desenvolver NMO em portadores de miastenia gravis ou lúpus eritematoso sistêmico, que são doenças também autoimunes;, afirma.

Maria do Carmo observa que a aquaporina 4 ocorre também em outras áreas do organismo, tais como no hipotálamo, região do cérebro produtora de hormônios. ;Isso pode explicar a associação de endocrinopatia hipotalâmica com a NMO;, levanta. Ela complementa que se observa também a associação de outras doenças autoimunes e problemas na tireoide com a NMO, porém ainda não há explicação definitiva para esse fato. ;Essa é uma constatação que abre caminho para mais estudos na área;, acredita.

O teste de detecção do anticorpo só está disponível, por enquanto, em um laboratório particular em São Paulo e custa, aproximadamente, R$ 300. Alguns serviços públicos, contudo, estão desenvolvendo a técnica. Já o SUS, em situações especiais, faz convênio com os Estados e paga pelo exame.

Parece, mas não é
Desde a descrição original da neuromielite óptica, em 1894, a etiologia (estudo das causas) é alvo de muitos debates. Neurologistas concordam que a doença é uma condição completamente diferente da esclerose múltipla (EM) ou uma variante da doença. Muitos autores consideram a NMO uma variante da encefalomielite aguda (processo inflamatório agudo ou subagudo do sistema nervoso central) pós-viral, talvez relacionada ao vírus varicela zoster. Outros acreditam que, assim como a EM, a NMO é uma condição autoimune. No entanto, são apenas hipóteses, pois até hoje não se sabe ao certo a causa do mal.

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