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Estado de Minas

Pesquisa mostra que morar em cidades pode levar a alterações no cérebro


postado em 23/06/2011 09:05

Viver em grandes centros urbanos é uma prerrogativa do mundo moderno. Estima-se que, nas próximas duas décadas, 70% da população do planeta estará aglutinada nas cidades, um índice que, nos anos 1950, era de apenas 30%. Abandonar a tranquilidade do campo tem seus benefícios. Shopping centers, melhores oportunidades de emprego, bons hospitais e escolas, além de atividades sociais intensas são apenas alguns deles. Mas a migração tem um lado alarmante. O estresse e a ansiedade gerados pela urbanização alteram fisicamente o cérebro, predispondo o desenvolvimento de doenças mentais e distúrbios de humor.

Uma pesquisa publicada na capa da edição de hoje da revista especializada Nature mostra, pela primeira vez, que mesmo os indivíduos saudáveis que vivem nos centros urbanos têm conexões neurais alteradas em regiões do cérebro associadas à ansiedade. Já se sabia que o atribulado ambiente das grandes cidades estava ligado a problemas como estresse e esquizofrenia. Mas, até agora, não se tinha ideia de que isso provoca mudanças fisiológicas, que podem ser medidas por exames de imagem. O mais grave, notam os autores, é que, teoricamente, habitantes das cidades deveriam ser mais saudáveis, pois têm à sua disposição tratamentos hospitalares mais modernos.

O grupo de cientistas, de diversos institutos de pesquisa, realizou três testes em diferentes populações, sempre analisando a resposta cerebral dos participantes, capturada pela ressonância magnética funcional. “A ligação que encontramos entre a vida na cidade e as doenças mentais é que, nos moradores das cidades, áreas do cérebro que tipicamente respondem ao estresse são mais ativadas, e essas regiões estão implicadas com doenças mentais”, diz ao Correio Jens Pruessner, diretor do Centro McGill para Estudos do Envelhecimento, do Instituto Universitário Douglas de Saúde Mental de Montreal (leia entrevista). Pruessner, que participou dos estudos, faz um alerta: “É importante notar que todos os indivíduos no estudo eram saudáveis, voluntários que não sofrem de doenças mentais”.

O primeiro grupo passou por um protocolo de estudos chamado Montreal Imaging Stress Task (Mist), desenvolvido pelo instituto onde Pruessner trabalha. Eles foram expostos a uma situação de pressão social, em que suas habilidades eram desafiadas enquanto os cientistas analisavam a ativação dos cérebros na máquina de ressonância magnética. A pressão a que os participantes foram submetidos era a mesma. O que os diferenciava era o local de residência. O nível de urbanidade foi medido da seguinte forma: cidades com mais de 100 mil habitantes, municípios com menos de 100 mil habitantes e áreas rurais. Em todos os voluntários, os pesquisadores conseguiram induzir o estresse, algo verificado pela medição de seus batimentos cardíacos e do aumento na circulação sanguínea do hormônio cortisol. Mas as fotografias dos cérebros mostraram um cenário bem diferente.

Resultados
Quanto mais urbanizados os indivíduos, maior a ativação de duas regiões do cérebro intimamente relacionadas ao estresse e aos distúrbios mentais e de humor. A amígdala cerebral, localizada no sistema límbico e centro regulador da agressividade, entre outros comportamentos, exibia uma resposta muito maior nos moradores de cidades grandes. Mesmo os habitantes de pequenos municípios tiveram mais ativação dessa região, comparados aos voluntários que viviam na zona rural. Outra área cerebral que exibiu um padrão diferente nos moradores dos grandes centros urbanos foi o córtex cingulado anterior, associado às emoções.

O segundo teste foi semelhante ao anterior e teve os mesmos resultados. Para saber se o estresse foi desencadeado pelo tipo de tarefa à qual os voluntários foram submetidos, além das questões aritméticas, eles tinham de resolver problemas de rotação mental, um tipo de experimento que usa imagens para avaliar a cognição. Novamente, os cientistas pressionavam os voluntários, desaprovando seus desempenhos. “A análise dos dados confirmou o efeito observado no primeiro teste”, diz o artigo. Para eliminar qualquer dúvida, os indivíduos passaram por um último teste, de memorização e reconhecimento de emoções em rostos. Mais uma vez, os resultados mostraram que, quanto maior o grau de urbanização, maior a resposta da amígdala e do córtex cingulado anterior.

Os pesquisadores também investigaram questões como idade, escolaridade, renda e estado civil dos voluntários, assim como aspectos relacionados à saúde, ao humor, à personalidade e ao apoio social de cada participante. “Nenhum desses fatores influenciou significativamente a atividade cerebral, sugerindo que viver em um ambiente urbano é que altera a resposta do cérebro a um fator de estresse devido a um distinto e misterioso mecanismo”, observam Daniel P. Kennedy e Ralph Adolphs, cientistas do Instituto de Tecnologia da Califórnia, em um artigo sobre a pesquisa, também publicado na Nature.

O principal autor do estudo, Andreas Meyer-Lindenberg, do Instituto de Saúde Mental de Heidelberg, na Alemanha, diz ao Correio que a pesquisa é do interesse do Brasil. “Acho que nossos resultados são especialmente importantes para os países em desenvolvimento, porque a urbanização ocorre mais rápido nesses locais e as diferenças entre a vida nas zonas rural e urbana podem ser ainda maiores.” No artigo, os pesquisadores dizem que o estudo pode ajudar a nortear políticas públicas integradas, que visem a diminuir os riscos de desenvolvimento de doenças mentais. “Esses resultados contribuem para a nossa compreensão do risco ambiental urbano em relação aos transtornos mentais e à saúde em geral. Além disso, eles apontam para uma nova abordagem empírica para integração das ciências sociais, neurológicas e de políticas públicas que possam responder a esse desafio.”

Forte tendência
No Brasil, o Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística revelou que, dos 190.732.694 habitantes, 84% vivem em áreas urbanas. Há 10 anos, esse índice era de 81%. Dos 1.520 municípios que perderam população nesse espaço de tempo, as cinco maiores quedas foram registradas em cidades pequenas, com menos de 16 mil moradores.

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