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Estado de Minas

Nova estratégia contra o glaucoma


postado em 03/07/2011 08:00

Pelo menos 1,5 milhão de brasileiros são vítimas do glaucoma. Embora assuste, tal contingente engloba somente o número de pacientes diagnosticados com a doença. Oftalmologistas que tratam a neuropatia — a pressão inadequada do olho gera a lesão no nervo óptico — estimam que o número de afetados ultrapasse os 3 milhões, pois o glaucoma é um mal silencioso, muitas pessoas nem sequer desconfiam que sofrem do problema. Dados da Organização Mundial da Saúde revelam que de 1% a 2% da população acima de 40 anos tem algum tipo de glaucoma — segunda causa de cegueira irreversível no mundo e terceira no Brasil.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou recentemente um dispositivo que, para alguns especialistas, se traduz em uma alternativa promissora para aqueles que não têm outra saída a não ser remediar o transtorno com cirurgia. Batizado de implante Ex-Press, o minúsculo tubo de aço inoxidável (veja arte) é acomodado entre a córnea e a esclera em um orifício feito pelo cirurgião, proporcionando a drenagem do humor aquoso, cujo excesso provoca a alteração da pressão intraocular.

O oftalmologista-chefe do Departamento de Glaucoma do Instituto de Catarata de Brasília (ICB), Juscelino de Oliveira, lembra que a patologia danifica, primeiramente, a visão periférica. Quando não tratada, a doença leva à cegueira total e irreversível. Segundo o médico, o glaucoma compromete a saúde ocular de 90 milhões de pessoas em todo o planeta e10 milhões já estão cegas.

O nervo óptico é responsável por levar a imagem do olho ao cérebro. Uma vez danificado, não é possível recuperá-lo. “O glaucoma é extremamente traiçoeiro. A visão é afetada aos poucos. O novo implante é um recurso menor que um grão de arroz. Trata-se de um microtubo por onde o líquido que exerce a pressão que danifica os nervos entra e é escoado”, detalha.

Solução rápida
Oliveira, que estuda o dispositivo desde 2006, sustenta que a cirurgia é segura, com recuperação mais rápida que os outros métodos usados. Ele adianta que o produto chegará ao Brasil em versão aperfeiçoada. “A primeira opção para contornar o glaucoma é o tratamento clínico, com colírios. Alguns pacientes, no entanto, não respondem a eles. Outros não têm dinheiro para comprar tais medicamentos, ou, ainda, não conseguem administrá-los como devem”, pondera.

Para o médico, o Ex-press é um recurso que proporciona mais previsibilidade ao cirurgião e mais durabilidade ao procedimento, utilizado há 12 anos na Europa. “O cirurgião abre um canal alternativo no olho, mas o organismo entende isso como uma lesão e cicatriza o tecido, o que acaba demandando uma nova cirurgia. O Ex-press pode evitar isso”, acredita.

O especialista do ICB adianta que o dispositivo custará entre R$ 2 mil e R$ 3 mil. “A tendência é ficar mais barato. Estamos batalhando, inclusive, para que esse implante seja disponibilizado aos pacientes do Sistema Único de Saúde”, acrescenta. O oftalmologista Daniel Moon Lee, especialista em glaucoma do Hospital de Olhos Inob, não encara o dispositivo recém-aprovado pela Anvisa com tanto entusiasmo. Segundo ele, as três principais técnicas cirúrgicas atualmente em uso pela maioria dos cirurgiões têm prós e contras.

A indicação de cada uma delas depende do paciente. Isso porque os candidatos à cirurgia de glaucoma tem históricos diferentes. Há aqueles que portam outras doenças oculares, alguns são diabéticos, há ainda os que passaram por outras intervenções nos olhos. Lee pondera que a cirurgia de glaucoma é um procedimento delicado, sujeito a mais complicações do que as de catarata, por exemplo. “Vejo o Ex-Press com cautela. Existem estudos que mostram que o orifício de saída do humor aquoso pode entupir, exigindo aplicação de laser para sanar a intercorrência. Eu o considero uma nova alternativa que tenta melhorar o resultado da cirurgia a longo prazo, mas ainda é cedo para afirmar que ele cumpre esse fim”, alerta.

O médico defende que o que vem realmente revolucionando o tratamento do glaucoma são os colírios. As drogas mais novas controlam a doença e contribuem significativamente para minimizar a necessidade de cirurgia. “É claro que tudo depende da adesão do paciente ao tratamento e isso pode ser um problema para os mais idosos. Depende também de como cada um responde à terapia”, reforça. Assim como a cirurgia, os medicamentos não curam o glaucoma. “As duas opções melhoram a pressão do olho, criando uma via alternativa de drenagem do líquido aquoso para que a pressão intraocular baixe. Opto pela cirurgia somente se não há respostas satisfatórias com os colírios”, enfatiza..


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