Jornal Correio Braziliense

Ciência e Saúde

Ativos, felizes e saudáveis na terceira idade

Quando Clarita de Paula acordou no último 14 de dezembro sentiu-se diferente. Nesse dia, ela completou 70 anos. A ideia inicialmente provocou uma sensação estranha e um pouco desconfortável. ;Nunca liguei para idade, mas dessa vez mexeu comigo. Na prática, a diferença não existe, mas na cabeça da gente, às vezes, é uma coisa esquisita.; O que Clarita sentiu é cada vez mais comum nas pessoas de terceira idade. Hoje, frequentemente, homens e mulheres dessa faixa etária dizem que não se sentem com a idade que têm. Os números podem até sugerir que estão velhos, mas eles vendem saúde e disposição. Clarita é um deles. Acorda cedo, cozinha, lê, escreve, faz musculação, vai ao cinema e aonde mais quiser.

A dona de casa faz parte de um grupo cada vez maior de idosos que buscam formas de manter a boa qualidade de vida com o passar dos anos. ;Tem gente que pensa que, quando envelhecemos, não dá para fazer mais nada. Isso é bobagem. Não é porque sou idosa que tenho de estar caindo aos pedaços;, brinca Clarita. E não é preciso mesmo. É claro que os desafios surgem. Ao longo do tempo, os processos de reparação do organismo ficam mais lentos e o corpo fica mais suscetível a doenças que afetam o corpo e a mente. A depressão é uma ameaça, principalmente pela dificuldade de lidar com as perdas ; sejam elas físicas, mentais ou até sentimentais, quando envolvem entes queridos. Mas especialistas garantem: a melhor forma de combater os problemas que vêm com o envelhecimento é não encará-lo de maneira negativa. Sentir-se incapaz é justamente o que deixa o idoso incapaz. Por isso, não dar espaço para pensamentos pessimistas é a melhor maneira de espantar as doenças.

É nisso que acredita Aldemita de Oliveira, 80 anos. Ao volante do seu carro, ela dirige por toda a cidade e coordena, como voluntária, quatro grupos semanais de idosos na Universidade de Brasília (UnB). Para ela, que adora ditados populares, aposentadoria não é sinônimo de inutilidade. ;Existem idosos que vivem a vida dos filhos, que acham que não servem mais para nada. Eu não, estou muito viva.; Pianista talentosa, Aldemita se apresenta em saraus e faz cursos de literatura, crochê e trabalhos manuais. Para ela, não se pode ter medo de envelhecer. ;Para morrer basta estar vivo.; E para acabar com qualquer dúvida de que ela aproveita muito bem a idade que tem, até criou seu próprio lema: ;Envelhecer é como velejar: você não pode parar o vento, mas pode direcionar a vela para que o vento sopre a seu favor.;

Aprender sempre
A psicóloga Luci Bernardes enfatiza a importância de não ser pessimista com a velhice. Ela faz acompanhamento especial com idosos que têm dificuldades em lidar com o processo, que na verdade é uma constante da vida inteira. ;A terceira idade está muito longe de ser uma fase improdutiva, em que apenas se espera a morte. Os idosos têm total capacidade de ser agentes participativos nos processos dinâmicos da vida;, afirma. Para isso, existem inúmeras opções de cursos, ocupações e atividades. Segundo a psicóloga, o importante é acrescentar vida ao dia a dia.

Para o fazendeiro Samuel Rocha Neiva, 67 anos, a idade é apenas um número. Enérgico e sempre ativo, o que ele não consegue é ficar parado. ;Sempre levei uma ida ativa no campo. Gosto de ar puro, exercícios e de realizar atividades rurais. Não vejo motivos para parar agora.; Afastado temporariamente da sua fazenda em Paracatu (MG), ele aproveita o tempo em Brasília para praticar caminhadas e musculação, além de cuidar, mesmo a distância, de suas terras. ;Ainda nem consigo me acostumar com o horário da cidade. Acordo às 3h30, nem que seja para ler.;

Para ele, o principal ingrediente para ter qualidade de vida em qualquer idade é saber ouvir e estar aberto a aprender sempre. ;Os hospitais estariam bem mais vazios se cada um fizesse pelo menos três horas por dia de alguma atividade. Seja ela qual for, algo que ocupe a mente. Ficar sem fazer nada é a melhor coisa para ficar imaginando besteira.;

Pensamento semelhante é o de Ignez Gomes Carraca, 86 anos. Para ela, ;mente vazia é oficina do diabo;. Voluntária no Hospital de Base, ela costura para comunidades carentes, ajuda em todas os eventos da Igrejinha da 308 Sul e ainda arruma tempo para assistir aos jogos de futebol do Flamengo, seu time de coração. ;Não tenho tempo para pensar em idade;, diz.

Praticante de tai chi chuan, Ignez acredita que o segredo de envelhecer com qualidade de vida está no otimismo e na alegria. Lucia Andrade, 82 anos, compartilha desse pensamento. ;Saio, vou ao shopping, ao cinema, acesso a internet, viajo. E adoro.; Depois de se casar e ter seis filhos, ela não sentiu os efeitos da chamada síndrome do ninho vazio, que provoca tristeza nos pais que veem os filhos saírem de casa. ;Fiquei feliz por eles. Criamos os filhos para viver as vidas deles e temos que viver as nossas, ter nossos próprios afazeres.;


Amizades
A ocupação é um dos melhores remédios para não ficar preso a pensamentos pessimistas e sofrer de uma eventual depressão. O geriatra Renato Maia acredita que a terceira idade é um momento de se ocupar com algo prazeroso. ;Não precisa ser necessariamente um emprego. O importante é que a pessoa tenha um projeto de vida. Uma atividade que lhe dê prazer, que lhe faça sentir-se útil. A aposentadoria sem projeto é um dos principais riscos à saúde;, alerta.

Os relacionamentos têm papel vital nesse sentido. Ser valorizado na família e ter um círculo de amigos próximos é extremamente importante para evitar que a pessoa se isole. ;O que não pode acontecer é uma morte social. Há situações em que a pessoa não sai da cama, não convive com ninguém, não tem uma atividade. Isso não é viver, é sobreviver.;

Os laços de amizade foram decisivos para Mary Suzana, 68 anos. Há 26, ela frequenta o grupo de senhoras da Biblioteca Demonstrativa de Brasília. ;Quando vim morar em Brasília, não conhecia ninguém e encontrei o grupo. Foi ótimo;, conta. Quando passou a frequentar a biblioteca, Mary nem pertencia à terceira idade e a troca de experiências com as amigas foi fundamental para que ela passasse sem traumas pela virada dos 60. ;Idade nunca me atrapalhou em nada, sou agitada por natureza. Faço esportes, ioga e adoro sair para dançar com meu marido.;

Também assídua no grupo da biblioteca, Aldemita resume em seus ditados que a quantidade de velas no seu último bolo de aniversário não é motivo de infelicidade e sim de orgulho. Para ela, o melhor da terceira idade é ter vivido, porque a vida ;é como andar de bicicleta: se parar, cai.; E, se depender dela, não vai parar tão cedo.