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Estado de Minas

Ativos, felizes e saudáveis na terceira idade


postado em 12/07/2011 10:33 / atualizado em 12/07/2011 12:46

Samuel gosta de praticar caminhada e musculação:
Samuel gosta de praticar caminhada e musculação: "Sempre levei uma vida ativa. Não vejo motivos para parar agora".
Quando Clarita de Paula acordou no último 14 de dezembro sentiu-se diferente. Nesse dia, ela completou 70 anos. A ideia inicialmente provocou uma sensação estranha e um pouco desconfortável. “Nunca liguei para idade, mas dessa vez mexeu comigo. Na prática, a diferença não existe, mas na cabeça da gente, às vezes, é uma coisa esquisita.” O que Clarita sentiu é cada vez mais comum nas pessoas de terceira idade. Hoje, frequentemente, homens e mulheres dessa faixa etária dizem que não se sentem com a idade que têm. Os números podem até sugerir que estão velhos, mas eles vendem saúde e disposição. Clarita é um deles. Acorda cedo, cozinha, lê, escreve, faz musculação, vai ao cinema e aonde mais quiser.

A dona de casa faz parte de um grupo cada vez maior de idosos que buscam formas de manter a boa qualidade de vida com o passar dos anos. “Tem gente que pensa que, quando envelhecemos, não dá para fazer mais nada. Isso é bobagem. Não é porque sou idosa que tenho de estar caindo aos pedaços”, brinca Clarita. E não é preciso mesmo. É claro que os desafios surgem. Ao longo do tempo, os processos de reparação do organismo ficam mais lentos e o corpo fica mais suscetível a doenças que afetam o corpo e a mente. A depressão é uma ameaça, principalmente pela dificuldade de lidar com as perdas — sejam elas físicas, mentais ou até sentimentais, quando envolvem entes queridos. Mas especialistas garantem: a melhor forma de combater os problemas que vêm com o envelhecimento é não encará-lo de maneira negativa. Sentir-se incapaz é justamente o que deixa o idoso incapaz. Por isso, não dar espaço para pensamentos pessimistas é a melhor maneira de espantar as doenças.

É nisso que acredita Aldemita de Oliveira, 80 anos. Ao volante do seu carro, ela dirige por toda a cidade e coordena, como voluntária, quatro grupos semanais de idosos na Universidade de Brasília (UnB). Para ela, que adora ditados populares, aposentadoria não é sinônimo de inutilidade. “Existem idosos que vivem a vida dos filhos, que acham que não servem mais para nada. Eu não, estou muito viva.” Pianista talentosa, Aldemita se apresenta em saraus e faz cursos de literatura, crochê e trabalhos manuais. Para ela, não se pode ter medo de envelhecer. “Para morrer basta estar vivo.” E para acabar com qualquer dúvida de que ela aproveita muito bem a idade que tem, até criou seu próprio lema: “Envelhecer é como velejar: você não pode parar o vento, mas pode direcionar a vela para que o vento sopre a seu favor.”

Aprender sempre
Lúcia não sofreu quando os filhos saíram de casa:
Lúcia não sofreu quando os filhos saíram de casa: " Temos que viver as nossas vidas, ter nossos próprios afazeres".
A psicóloga Luci Bernardes enfatiza a importância de não ser pessimista com a velhice. Ela faz acompanhamento especial com idosos que têm dificuldades em lidar com o processo, que na verdade é uma constante da vida inteira. “A terceira idade está muito longe de ser uma fase improdutiva, em que apenas se espera a morte. Os idosos têm total capacidade de ser agentes participativos nos processos dinâmicos da vida”, afirma. Para isso, existem inúmeras opções de cursos, ocupações e atividades. Segundo a psicóloga, o importante é acrescentar vida ao dia a dia.

Para o fazendeiro Samuel Rocha Neiva, 67 anos, a idade é apenas um número. Enérgico e sempre ativo, o que ele não consegue é ficar parado. “Sempre levei uma ida ativa no campo. Gosto de ar puro, exercícios e de realizar atividades rurais. Não vejo motivos para parar agora.” Afastado temporariamente da sua fazenda em Paracatu (MG), ele aproveita o tempo em Brasília para praticar caminhadas e musculação, além de cuidar, mesmo a distância, de suas terras. “Ainda nem consigo me acostumar com o horário da cidade. Acordo às 3h30, nem que seja para ler.”

Para ele, o principal ingrediente para ter qualidade de vida em qualquer idade é saber ouvir e estar aberto a aprender sempre. “Os hospitais estariam bem mais vazios se cada um fizesse pelo menos três horas por dia de alguma atividade. Seja ela qual for, algo que ocupe a mente. Ficar sem fazer nada é a melhor coisa para ficar imaginando besteira.”

Pensamento semelhante é o de Ignez Gomes Carraca, 86 anos. Para ela, “mente vazia é oficina do diabo”. Voluntária no Hospital de Base, ela costura para comunidades carentes, ajuda em todas os eventos da Igrejinha da 308 Sul e ainda arruma tempo para assistir aos jogos de futebol do Flamengo, seu time de coração. “Não tenho tempo para pensar em idade”, diz.

Praticante de tai chi chuan, Ignez acredita que o segredo de envelhecer com qualidade de vida está no otimismo e na alegria. Lucia Andrade, 82 anos, compartilha desse pensamento. “Saio, vou ao shopping, ao cinema, acesso a internet, viajo. E adoro.” Depois de se casar e ter seis filhos, ela não sentiu os efeitos da chamada síndrome do ninho vazio, que provoca tristeza nos pais que veem os filhos saírem de casa. “Fiquei feliz por eles. Criamos os filhos para viver as vidas deles e temos que viver as nossas, ter nossos próprios afazeres.”


Amizades
A ocupação é um dos melhores remédios para não ficar preso a pensamentos pessimistas e sofrer de uma eventual depressão. O geriatra Renato Maia acredita que a terceira idade é um momento de se ocupar com algo prazeroso. “Não precisa ser necessariamente um emprego. O importante é que a pessoa tenha um projeto de vida. Uma atividade que lhe dê prazer, que lhe faça sentir-se útil. A aposentadoria sem projeto é um dos principais riscos à saúde”, alerta.

Os relacionamentos têm papel vital nesse sentido. Ser valorizado na família e ter um círculo de amigos próximos é extremamente importante para evitar que a pessoa se isole. “O que não pode acontecer é uma morte social. Há situações em que a pessoa não sai da cama, não convive com ninguém, não tem uma atividade. Isso não é viver, é sobreviver.”

Os laços de amizade foram decisivos para Mary Suzana, 68 anos. Há 26, ela frequenta o grupo de senhoras da Biblioteca Demonstrativa de Brasília. “Quando vim morar em Brasília, não conhecia ninguém e encontrei o grupo. Foi ótimo”, conta. Quando passou a frequentar a biblioteca, Mary nem pertencia à terceira idade e a troca de experiências com as amigas foi fundamental para que ela passasse sem traumas pela virada dos 60. “Idade nunca me atrapalhou em nada, sou agitada por natureza. Faço esportes, ioga e adoro sair para dançar com meu marido.”

Também assídua no grupo da biblioteca, Aldemita resume em seus ditados que a quantidade de velas no seu último bolo de aniversário não é motivo de infelicidade e sim de orgulho. Para ela, o melhor da terceira idade é ter vivido, porque a vida “é como andar de bicicleta: se parar, cai.” E, se depender dela, não vai parar tão cedo.

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