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Estado de Minas

Estudo vincula epilepsia à depressão


postado em 13/07/2011 09:33 / atualizado em 13/07/2011 10:03

Uma pesquisa do Departamento de Neurologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) constatou uma elevada taxa de prevalência de transtornos mentais — como depressão e ansiedade — em portadores de epilepsia. Especialistas concordam com o estudo da doutoranda Sabrina Stefanello e ressaltam que a maior relevância da investigação é que ela serve de alerta para médicos e familiares de pacientes portadores da doença para que os transtornos sejam mais bem observados nas consultas.

A partir de um estudo anterior sobre epilepsia, feito na Unicamp com auxílio da Organização Mundial de Saúde (OMS), a equipe de Sabrina organizou um levantamento populacional — “batendo de porta em porta” — para identificar casos de pessoas com a doença (veja arte). A partir daí, a pesquisadora buscou entrevistar todos os 171 indivíduos, acima dos 13 anos de idade diagnosticados pela equipe. O principal objetivo do estudo foi avaliar se essas pessoas, que não faziam parte necessariamente de uma clínica ou de um ambulatório especializados, apresentavam ou não maior risco para desenvolver transtornos mentais. Verificaram ainda se existiam características identificáveis entre elas que pudessem fornecer pistas sobre aquelas com maiores tendências à depressão e à ansiedade.

Segundo Sabrina, esse foi um dos primeiros estudos feito na região de Campinas que abordou o tema Comportamento Suicida em Pessoas com Epilepsia e Transtornos Mentais. “Já existem estudos semelhantes, porém, a maioria deles realizados com pessoas em tratamento em clínicas especializadas e provavelmente são casos mais graves”, diferencia. As taxas de prevalência de ansiedade e de depressão foram de 39,4% e 24,4%, respectivamente. Ambas foram associadas à baixa escolaridade, ideação suicida e tentativa de suicídio. “Isso significa que de todos os nossos entrevistados com epilepsia, quase 40% deles referiram sintomas ansiosos o suficiente para pontuarem na escala de avaliação usada e quase 25% deles pontuaram para depressão”, explica.

A médica conta que como foi usada uma escala para avaliação e rastreamento dos sinais dos transtornos, não se pode afirmar que esses diagnósticos sejam definitivos. E muito menos substituir a avaliação de um profissional experiente. “Entretanto, ajuda na padronização da pesquisa. Cada estudo pode usar determinado recurso para avaliar aquilo a que se propõe, mas nem sempre o mesmo recurso é utilizado”, justifica.

Nível escolar
Durante o estudo, também foi observado que pessoas com epilepsia e depressão ou ansiedade associadas apresentaram níveis baixos de escolaridade; relatos de pensamentos de suicídio e tentativas de suicídio. “Depressão é um importante fator de risco para suicídio, mas pessoas ansiosas também integram um grupo maior risco de suicídio”, observa.

Sabrina Stefanello lembra que a baixa escolaridade já foi associada à depressão em outros estudos. Uma das hipóteses é que pessoas com dificuldade de aprendizado apresentam mais problemas do ponto de vista da saúde, inclusive maior frequência de quadros como depressão. Isso também pode estar associado à renda mais baixa, o que aumenta o estresse. Segundo a autora do estudo, pessoas com menor grau de instrução e que sobrevivem com um orçamento familiar mais baixo contam com menos recursos para identificar e lidar com problemas como depressão e ansiedade.

A médica destaca os diversos estudos mostrando que os transtornos mentais em pessoas com epilepsia são pouco diagnosticados, por isso a necessidade de se ficar atento e não reduzir a consulta somente à preocupação com o controle das crises epilépticas. “Sabendo-se que esse grupo de pessoas tem um risco realmente maior, deve-se aumentar o grau de suspeita em relação a esses sintomas”, avalia Sabrina.

De acordo com o professor do Departamento de Ciências Fisiológicas da Universidade de Brasília Marco Marcondes de Moura, o resultado da pesquisa é bem coerente com a realidade clínica. “Ela quer chamar atenção para as repercussões emocionais da doença nos pacientes”, observa. Para ele, não há dificuldade no diagnóstico, o que ocorre é que o tratamento, do ponto de vista médico, está mais voltado para o controle das convulsões do que para o emocional do paciente, que seria mais abordado pela psicologia. “As repercussões emocionais nos pacientes são esperadas. A questão é como manejá-las, como tratá-las”, opina.

Decisão clínica
O neurologista Henrique Braga, do Hospital Anchieta, explica que a epilepsia é uma doença neurológica que se manifesta (em forma de crise convulsiva) de modo inesperado. Principalmente nos casos em que o controle das crises é mais difícil, conviver com o medo de ter uma convulsão gera ansiedade, angústia e até depressão em alguns pacientes, de acordo com o médico. “Questões sociais e emocionais que também englobam a vida do paciente são em geral deixadas de lado. Diante disso, quadros de ansiedade e de depressão são subdiagnosticados”, afirma.

Para Braga, o neurologista deve fazer uma boa anamnese e investigar melhor aspectos individuais, familiares e sociais que possam afetar a parte psicológica do paciente portador de epilepsia. “Em caso de suspeita de ansiedade ou de depressão, o próprio neurologista pode iniciar o tratamento dos sintomas ou encaminhar o paciente para atendimento com um psiquiatra e também psicólogo”, salienta.

O especialista lembra que ainda existe um estigma associado à epilepsia e às pessoas com transtornos mentais e que a informação e o conhecimento são as principais armas da ciência contra a ignorância. Ele destaca que, na última década, informações sobre saúde e qualidade de vida têm sido abordadas com frequência maior nos diferentes tipos de mídia e meios de comunicação.

Segundo Braga, isso favorece a desmistificação de crenças, estigmas e preconceitos antigos, é bom para a saúde dos pacientes e o bem-estar social. “A pesquisa é muito importante no sentido de alertar tanto médicos quanto pacientes e familiares a respeito da associação entre ansiedade, depressão e epilepsia. Assim, os neurologistas deveriam incluir como rotina ambulatorial a investigação de ansiedade e depressão em pacientes com epilepsia”,

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