Jornal Correio Braziliense

Ciência e Saúde

Fim de longas séries pode deixar gerações com uma estranha sensação de luto

Quando conheceu Harry Potter, Nathália Saffi tinha apenas 10 anos. Foi o pai da estudante que a apresentou ao bruxinho, enquanto passeavam em uma livraria. ;Olha só esse livro, está fazendo sucesso entre as crianças;, ele disse. Mesmo sem nunca ter ouvido falar no personagem, já que o tal sucesso não era um décimo do de hoje, Nathália topou levar uma cópia de Harry Potter e a câmara secreta para casa. E nunca mais parou de acompanhar as histórias. ;Eu nem sabia que aquele não era o primeiro da série. Mas lembro que acabei ganhando A pedra filosofal (o livro que deu origem à saga) antes de terminá-lo. Depois disso, comecei a comprar sempre.; Hoje, aos 21 anos, Nathália reserva um cantinho especial na estante para as obras da britânica J. K. Rowling. Agora que a saga chega ao fim, tanto nos livros como nos filmes, a estudante sente como se uma fase de sua vida terminasse. ;É como se minha infância e adolescência oficialmente acabassem. É o fim de um ciclo.;

Ela certamente não é a única a sentir a perda. O fim de longas séries, como é o caso de Harry Potter, pode deixar gerações inteiras com uma estranha sensação de luto. Em alguns casos, os personagens acompanham as pessoas durante etapas importantes da vida, como a adolescência ou o início da vida adulta. Assim como Nathália, Filipe Cavalcanti, 21 anos, acompanha há 10 a saga do bruxo. ;Foi o primeiro livro com mais de 50 páginas que li sem ter alguma obrigação para a escola. Criou em mim o hábito da leitura;, diz o estudante, que também lamentou o fim do seriado americano The O.C., depois de acompanhá-lo durante quatro anos.

;Era um vício, assisti na tevê, na internet e depois comprei os DVDs. Quando acabou, fiquei me perguntando: ;E agora? A que vou assistir?;; Apesar da tristeza com o fim da série, Filipe descobriu novas sagas para acompanhar. Além da diversão, os seriados colaboraram com o estudo de outros idiomas. ;Procurei e comecei a assistir a Friends, outro vício. E não dá para negar que minha fluência em inglês se deve aos seriados. Melhorou muito depois que comecei a assisti-los.;

Segundo o psicólogo Mário Cardoso, o sucesso de algumas séries de filmes, livros e programas de televisão se deve ao fato de que muitas pessoas ; principalmente jovens ; encontram inspiração nos personagens e se identifiquem com eles. ;Quando essa empatia é muito grande, é como se as pessoas da história fizessem parte de um grupo de amigos que o espectador encontra todos os dias e de repente não verá mais. O sentimento de saudade é parecido com o desenvolvido em um relacionamento real, mesmo que a ficção nunca vá substituir a realidade;, analisa.

Acompanhar a trajetória dos personagens também pode trazer mensagens positivas, de acordo com o psicólogo. ;Se a pessoa vive uma situação semelhante, pode aprender algum valor de amizade, coragem e amor. Não dá para ignorar que são exemplos nos quais as pessoas se espelham. Pode ser tanto perigoso quanto positivo. O segredo é aproveitar o que aquilo tem de bom;, aconselha Cardoso. Alguns acontecimentos da trama também podem mexer com quem assiste. ;Quando um personagem importante morre, a repercussão é grande entre os fãs. Alguns até deixam de acompanhar a história por causa disso.;

Quero mais
Esse não foi o caso de Juliana Araújo. A enfermeira de 25 anos assistiu ao seriado Lost pelos seis anos em que esteve no ar e sofreu cada perda de personagem que morreu ou saiu da história. ;Alguns amigos diziam que eu ficava perdendo tempo com o seriado, mas para mim era tão divertido que eu achava a perda de tempo mais legal que existia.; Para Juliana, que tem uma coleção de DVDs com os episódios da série, o fim deixou um pouco a desejar, mas não o suficiente para que ela deixasse de ser fã. ;O roteiro foi se perdendo um pouco porque era uma história complexa, mas eu fiquei de luto quando acabou. Eu pensava no que ia fazer na outra semana, pois não tinha mais um episódio para esperar;, conta.

Para o professor Paulo Moraes, coordenador do curso de cinema e mídias digitais do Instituto de Educação Superior de Brasília (Iesb), o que mantém os fãs fiéis mesmo depois que a série termina é esse gostinho de quero mais. Os produtos lançados e principalmente a força da internet colaboram para que o mito dure. Enquanto está no ar, uma série se sustenta pela expectativa criada em torno do que pode acontecer. ;Mas, quando a série termina, são principalmente os fãs que a mantêm.;

Marcelo Bolzan, 33 anos, é um caso de fã fiel que resiste ao tempo. As novelas Vale Tudo e Roque Santeiro foram especiais para ele, fã ardoroso da atriz Lídia Brondi, que atuou nas duas produções. Desde os 4 anos, ele acompanhou o trabalho da artista, que se afastou da televisão há mais de 20 anos. ;Sempre esperava uma novela nova. Guardava fotos e colecionava qualquer novidade que saísse sobre ela.; Até hoje, Marcelo mantém um blog dedicado a Lídia, em que mantém contato com outros fãs e até com parentes da atriz. Para ele, o fim de uma obra não precisa ser também o fim do carinho dos admiradores. ;Tenho tudo gravado em casa e sempre posso rever. Além disso, com o blog, encontro outros fãs que colaboram com material que eu não tinha e com quem troco informações. É como uma biblioteca;, analisa.

A mensagem positiva fica para todos os fãs saudosos. Cada um com a sua paixão. Nos livros, no cinema ou na televisão, o público se despede das séries com lágrimas e um sorriso. Se para Filipe Cavalcanti ficou a saudade e o gostinho de ;quero mais;, Nathália Saffi pondera que uma hora tinha que acabar mesmo, apesar da falta que vai sentir dos personagens da saga Harry Potter. ;(A série) fez aumentar meu interesse pela leitura e deixou muitas lições sobre amor e amizade;, celebra.