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Estado de Minas

Chegada de um irmão caçula gera ansiedade e insegurança nos primogênitos

Especialistas recomendam diálogo e firmeza por parte dos pais


postado em 09/08/2011 08:11 / atualizado em 09/08/2011 08:16

Eric e Denise perceberam logo cedo que Taís ficou insegura ao saber da segunda gestação da mãe(foto: Bruno Peres/CB/D.A Press)
Eric e Denise perceberam logo cedo que Taís ficou insegura ao saber da segunda gestação da mãe (foto: Bruno Peres/CB/D.A Press)
“Eu sei que vocês não me amam mais”, dispara Eduardo Perroni, 4 anos, quando a mãe precisa se dedicar aos cuidados da caçula, Manuela Perroni, 24 dias. Mesmo enciumado, o garoto demonstra carinho e amor pela irmã, mas também exibe uma boa dose de insegurança. Esse comportamento é considerado normal, levando em conta que o primogênito passa anos como o detentor integral de todo o amor dos pais e, de repente, precisa aprender a dividi-lo com outra pessoa tão importante quanto ele.

A delicada questão, comum em famílias que desejam aumentar a prole, é tema do estudo Gestação do segundo filho: percepções maternas sobre a reação do primogênito, de Caroline Rubin Rossato Pereira, do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Segundo especialistas, a nova situação deve ser encarada com naturalidade, mas os pais precisam redobrar o apoio ao primogênito nesse período.

Realizada com oito gestantes no terceiro trimestre de gestação do segundo filho e com primogênitos em idade pré-escolar (de 3 a 6 anos), a pesquisa buscou examinar o impacto da gestação do segundo filho sobre diversos aspectos das relações familiares. “O objetivo era investigar as percepções maternas sobre as reações do primogênito à gestação do segundo filho”, conta Caroline.

Eduardo adora a irmãzinha, mas, desde que ela chegou, diz aos pais que eles só amam a caçula da famíia(foto: Bruno Peres/CB/D.A Press)
Eduardo adora a irmãzinha, mas, desde que ela chegou, diz aos pais que eles só amam a caçula da famíia (foto: Bruno Peres/CB/D.A Press)
De acordo com ela, as mães perceberam mudanças no comportamento de seus filhos durante a gestação, de modo especial no último trimestre. No período, os primogênitos apresentaram um aumento da ansiedade, da irritação e da insegurança. “Além disso, as mães relataram diferentes sinais de ciúmes do bebê: demonstrações claras do medo de perder a atenção, o carinho e o amor da mãe; agressividade dirigida à barriga da gestante e ameaça de comportamentos agressivos para com o irmão após seu nascimento”, descreve.

Eduardo, filho de Cecília Lopes, 25 anos, e Gabriel Perroni, 30, acredita piamente que os pais deixaram de amá-lo com a chegada de Manuela. A mãe conta que ele não demonstrou ciúmes durante a gestação. No entanto, quando quer atenção e não é bem-sucedido, o garoto dispara: “Eu sei que agora vocês só amam a Manuela”. De acordo com Cecília, Eduardo segura a bebê no colo, a elogia, diz que a ama, mas reclama da falta de atenção. “Ele é apaixonado pela irmã, faz até planos com ela, mas sempre nos lembra que perdeu espaço com a chegada dela”, conta. Os pais conversam com o filho e explicam que o amor é igual, que todos formam uma família e que devem se amar. “Eu tento contornar, mas não valorizo esse comportamento”, diz Gabriel.

No estudo da UFRGS, percebeu-se que os sentimentos dúbios de Eduardo são comuns. As crianças que reagiram tanto com alegria quanto com surpresa ou indiferença à notícia da gestação tornaram-se ansiosas no fim da gravidez. Paralelamente ao descontentamento ou mesmo à agressividade, os primogênitos exibiam gestos de carinho e interesse pelo irmão que estava sendo gestado, como o contato afetivo com a barriga da mãe e a inclusão do novo membro da família nas conversas.

“Vou jogar ele fora”
Com comportamento agressivo, Lucas, 3 anos, filho de Raquel Araújo, 33, reclamou quando ouviu a notícia da nova gravidez da mãe. Raquel recorda que, influenciado pelos colegas da creche, o menino sempre pedia um irmão, mas quando soube que de fato iria ganhá-lo, a reação não foi de felicidade. “Ele pediu que eu desse o irmão para ele, que iria jogá-lo fora”, lembra. A analista de controle, que está no primeiro trimestre da gestação, conta que levou o filho na primeira ecografia e que a médica conversou com ele, dizendo que o momento devia ser encarado com alegria. Mas o diálogo não adiantou muito.

“Às vezes ele tenta chutar, socar a minha barriga, mas não sei se está brincando ou fazendo de propósito”, relata. Raquel conversa com Lucas, pedindo para ele abraçar, conversar com a barriga, mas ele responde que não quer e que “a médica não disse para ele fazer nada disso”. “Desde que soube, ele prefere ficar mais no colo. Eu acredito que é uma forma de marcar território”, diz. Raquel espera que o comportamento, no decorrer da gestação, melhore antes de o bebê nascer.

De acordo com a terapeuta infantil Soraia Pereira, é natural que o primogênito se sinta inseguro — estranho é se ele agisse com indiferença. No entanto, quem vai dosar essa reação serão os pais. Para ela, eles devem ser firmes e entenderem que, embora o sentimento seja normal, não é motivo para aceitar tudo o que o filho faz. Segundo a terapeuta, a chegada do irmão gera insegurança e frustração, e esses sentimentos são necessários. “A frustração gera o desejo, e o desejo é que movimenta a vida. Saber lidar com essa frustração é um aprendizado para toda a vida”, diz.

Para Caroline Rubin Rossato Pereira, a gestação do irmão é um acontecimento importante na vida da criança. Embora ela nem sempre verbalize claramente a ansiedade, as mudanças de comportamento e as manifestações de ciúmes apresentadas devem ser compreendidas dentro de um processo normal de adaptação a uma nova realidade. Ela afirma que, mesmo buscando apoiar, preparar e cuidar atentamente da criança, os pais não podem imunizá-la das angústias que cercam, em diferentes medidas, todos os membros da família nesse momento.

Apoio
Ciente de que esse é um período delicado na vida da filha, a artesã Denise Torres, 31, e o tatuador Eric Schwartz, 35, pais de Taís, 8, perceberam logo cedo a insegurança da menina e trataram de apoiá-la. Eles contam que Taís sempre pediu uma irmã e até encarou de uma forma tranquila a notícia da gravidez, mas, quando a barriga começou a crescer, passou a se sentir insegura, triste. “Eu digo sempre para ela que ela é a número um, a garota do papai”, conta Eric.

Taís, que passou a acordar de madrugada reclamando de pesadelos, questiona os pais sobre a atenção dispensada a ela depois que o irmão nascer. “Um dia, estávamos vendo tevê e ela me perguntou se eu iria deixar de dar atenção a ela. Eu respondi que não, que ela era o meu primeiro amor e que nós duas juntas iríamos cuidar do irmãozinho”, relata a mãe. Denise, no oitavo mês da gestação, conta que tenta amenizar o sentimento da filha conversando e incutindo na criança a responsabilidade que também terá na educação do irmão. Taís, atualmente mais tranquila e animada com a chegada do irmão, não assume os ciúmes. “Estou feliz e animada”, garante. A mãe acredita que, nesse momento, os pais devem tentar contornar o sentimento mostrando que o “novo” filho só tem a acrescentar à família.

A terapeuta Soraia destaca que minimizar as reações presenteando ou dizendo que o ama mais não é uma boa alternativa, pois o sentimento de insegurança só é imunizado pela certeza de que o posto do primogênito como filho não está em jogo. “Essa criança tem que ter noção de que não é exclusiva e que o fato de ter de dividir não é motivo para a insegurança”, aconselha. Em casos de agressão, ela diz, os pais devem ser enfáticos no sentido de que tal comportamento não será admitido. “Alguns pais se sentem traidores por terem outros filhos e, dessa forma, acabam consentindo tudo e ficando nas mãos dos filhos”, observa.

Como agir
Investir em brincadeiras e na diversão com o filho mais velho

Ser tolerante na hora das reações negativas

Manter algumas atividades para serem feitas unicamente com o filho mais velho

Não realizar mudanças como troca de escola, retirada da chupeta ou mamadeira, pois trazem uma carga extra de tensão para a criança

Elogiar, exaltando as capacidade da criança de não precisar mais de chupeta, fralda e mamadeira

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