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Estado de Minas

Proteínas podem evitar reentupimento de artérias submetidas a angioplastia


postado em 21/10/2011 10:25 / atualizado em 21/10/2011 17:04

Doenças cardiovasculares matam 17,3 milhões de pessoas no mundo anualmente, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Dessas mortes, 80% ocorrem nos países em desenvolvimento — entre eles, o Brasil. Uma das principais causas de óbito no país é o infarto agudo do miocárdio, que tira a vida de até 15% das pessoas atingidas. Os que sobrevivem à contração ou ao entupimento da artéria coronária costumam ser submetidos a uma cirurgia — geralmente, uma angioplastia — para a colocação de um stent, a fim de desobstruir a região da artéria a ser tratada. O problema é que a obstrução no vaso sanguíneo pode voltar. Pesquisadores da Universidade de Loyola, em Chicago, descobriram que duas proteínas podem ser inseridas no organismo das pessoas no início da cirurgia e evitar esse problema. O estudo foi publicado na versão on-line da revista Arteriosclerosis, thrombosis and vascular biology, da Assossiação Americana do Coração.

Como a cirurgia causa irritação na parede arterial, células endoteliais — que ficam no interior dos vasos sanguíneos — migram para o local a fim de reparar esse dano. No entanto, células musculares também vão para a região da artéria onde foi colocado o stent, o que pode criar uma cicatriz e obstruir novamente o local. Stents farmacológicos, recobertos por remédios que impedem a proliferação celular, resolveriam essa questão das células musculares. Como, entretanto, impedem a ação das células presentes no interior dos vasos, as paredes da artéria continuam danificadas.

Para que a angioplastia seja mais eficiente e a recuperação dos pacientes, mais rápida, a pesquisa, liderada pelo professor de medicina e fisiologia da Universidade de Loyola Allen M. Samarel, foca no uso de duas proteínas, chamadas FAK e FRNK. A FAK (quinase de adesão focal) tem exatamente a função de ativar a ação das células endoteliais no lugar onde o balão e o stent foram colocados. Desse modo, segundo o estudo, os pacientes não precisariam tomar remédios anticoagulantes por meses ou anos após a cirurgia, a fim de evitar a formação de coágulos na região. A FRNK (não quinase ligada à FAK), por sua vez, inibe a migração de células musculares e, consequentemente, a chance de a artéria voltar a entupir.

As duas proteínas já existem no corpo humano. Sua ação, porém, é potencializada quando as duas são inseridas no local específico onde precisam agir. No experimento, a equipe médica inseriu a FAK e a FRNK na artéria coronária dos ratos que já haviam passado por uma angioplastia — e cujas paredes do vaso sanguíneo haviam sido danificadas, de propósito, para avaliar a ação da FAK. Entre uma e duas semanas depois da cirurgia, a equipe comandada por Samarel analisou a artéria dos animais e constatou que as duas proteínas haviam agido com eficiência no organismo dos ratos, iniciando o processo de recuperação da parede arterial, mas sem a presença de células musculares na região.

Problema recorrente
O cardiologista do Instituto do Coração (Incor) de Taguatinga Vicente Motta diz que o entupimento da artéria que já foi desobstruída anteriormente chama-se reestenose. “O problema, quando ocorre, geralmente se manifesta nos primeiros seis meses que se seguem ao implante do stent”, explica. Segundo o médico, o fenômeno acontece em até 50% das intervenções cirúrgicas com balão e de em até 30% das angioplastias com stents convencionais. “O percentual cai para até 8% com o uso de stents farmacológicos”, detalha Motta. Ele alerta que lesões intensas na parede arterial, artérias muito finas e o diabetes são fatores que tornam a pessoa mais predisposta a sofrer com o problema.

O professor de medicina da Universidade Católica e cardiologista Alexandre Brick, que atua no Hospital Anchieta, acrescenta que a reincidência da obstrução arterial é uma reação do organismo à presença de um corpo estranho. “Ainda que os resultados obtidos com os stents farmacológicos possam ser considerados superiores aos dos stents tradicionais, os pesquisadores têm procurado desenvolver instrumentos mais eficazes e seguros para o procedimento”, destaca Brick.

Se já tivesse aplicações práticas atualmente, essa pesquisa poderia ter evitado que o bancário Takanori Carlos, 47 anos, passasse pela situação de ser submetido a uma angioplastia e, meses depois, ter que fazer a cirurgia novamente, porque a artéria havia voltado a ficar obstruída. “Entre agosto de 2010 e janeiro deste ano, tive que fazer três angioplastias para a colocação de seis stents farmacológicos”, recorda. Em setembro, o cardiologista que cuida de Carlos pediu que ele se submetesse a um cateterismo, para ver como as artérias tinham ficado após a cirurgia. “Nesse exame, descobriram que em uma das áreas onde estava um dos stents havia uma inflamação que estava voltando a fechar o local, impedindo a circulação do sangue”, explica o bancário. Ele precisou colocar mais um stent farmacológico após a descoberta da inflamação. Carlos tem diabetes, um fator que o torna mais vulnerável a sofrer com o problema de a artéria voltar a entupir.

A aposentada Maria Pereira de Sousa, 65 anos, precisou ser submetida a duas angioplastias na mesma artéria em menos de dois anos. “Na primeira vez, há três anos e cinco meses, tive um infarto e precisei fazer uma cirurgia. Senti muita dor no peito, falta de ar, passei mal. Fiz a cirurgia no coração no mesmo dia”, lembra Maria. Dois anos depois, ela sentiu os mesmos sintomas. “Fui operada de novo, porque a artéria entupiu. Agora, vou ao médico de seis em seis meses, para garantir que está tudo bem”, afirma a aposentada, que nunca teve outros problemas de saúde que a tornassem suscetível à reincidência de obstrução arterial.

Motta acredita que as conclusões do artigo terão impactos positivos no tratamento da reestenose coronariana. “A volta do entupimento da artéria não é mais o ‘calcanhar de Aquiles’ da angioplastia, como representava há alguns anos. O grande número de pesquisas na área que ajudam a nortear os procedimentos em angioplastia, assim como o uso de novos dispositivos (stents farmacológicos), minimizaram a incidência dessa complicação tardia”, garante o cardiologista do Incor.

Para Brick, o estudo pode ter aplicações práticas a longo prazo, na tentativa de estabelecer fatores genéticos que podem atuar na prevenção ou tratamento de doenças cardiovasculares — em especial, a ateroesclerose. “Mas o mais importante no tratamento e no controle para evitar a morte por doença cardiovascular chama-se prevenção. Para evitar fatores de risco, deve-se cuidar da alimentação, não fumar, praticar alguma atividade física, evitar a obesidade e o estresse da vida moderna”, completa o cardiologista.

Em todo o corpo
Nessa doença, ocorre a formação de placas de gordura e de tecido fibroso nos vasos sanguíneos, que os obstruem. A aterosclerose pode ocorrer em vasos de todo o corpo, mas se torna potencialmente letal quando aparece em artérias do coração e do cérebro. Pessoas com diabetes, hipertensão, colesterol alto, fumantes e sedentárias são as que correm mais risco de desenvolver o problema.

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