Jornal Correio Braziliense

Ciência e Saúde

Fungos são um flagelo para as plantações e a biodiversidade

Paris - Muito resistentes e geralmente virulentos, os fungos não só destroem culturas, mas também florestas e centenas de espécies animais e constituem, portanto, uma ameaça crescente para a segurança alimentar e a biodiversidade, alertam os pesquisadores em um estudo publicado nesta quarta-feira na revista britânica Nature. Segundo o estudo, as "doenças fúngicas" provocam a cada ano a destruição de pelo menos 125 milhões de toneladas das cinco principais plantações: arroz, milho, trigo, batata e soja.

Sem os estragos provocados por fungos de todos os tipos, poderíamos alimentar mais de 600 milhões de pessoas, ressaltam os pesquisadores britânicos e americanos. De acordo com seus cálculos, estas doenças fúngicas representam um déficit de 60 bilhões de dólares por ano apenas para as culturas de arroz, trigo e milho. Além da agricultura, a brusone do arroz, a mancha foliar do trigo e a ferrugem do milho afetam também todo o ecossistema global.

Novos tipos de fungos também se multiplicam com facilidade em uma variedade de espécies animais, o que ameaça de extinção mais de 500 espécies de anfíbios, abelhas, tartarugas e até mesmo corais. Na América do Norte, a "síndrome do nariz branco", uma doença causada pelo fungo "Geomyces destructans", matou desde 2006 cerca de 6,7 milhões de morcegos em 16 estados dos Estados Unidos e quatro províncias canadenses. Uma bênção para os insetos de que os morcegos se alimentam e que passam a ter carta branca para atacar colheitas e humanos. "O aumento alarmante da destruição de plantas e animais causada por novos tipos de doenças fúngicas mostra que estamos indo a toda velocidade em direção a um mundo onde o ;podre; é o grande vencedor", acredita o Dr. Matthew Fisher, da Escola de Saúde Pública do Imperial College, em Londres.

Segundo o estudo liderado pelo Dr. Fisher, quando a doença infecciosa erradica uma espécie, vegetal ou animal, em 70% dos casos há uma nova espécie de fungo por trás. Alguns fungos realmente não devem nada às bactérias ou vírus, com taxas de mortalidade que podem chegar aos 100%. Ao contrário das bactérias, os fungos também são capazes de sobreviver por muito tempo fora de seu hospedeiro, o que lhes permite uma propagação por grandes distâncias. "Os fungos constituem a maior parte de biomassa viva do ar, cada respiração humana contém em média entre um e dez esporos", revela o estudo.

A história está repleta de exemplos da devastação causada por um pequeno foco de fungos: a Grande Fome na Irlanda em 1845 causada por mofo, a castanha americana dizimada por um fungo asiático e ainda as caixas de madeira italiana que trouxeram o polypore do pinho para os Estados Unidos. O crescimento do comércio e transporte agravou esta tendência e os autores do estudo alertam para controles mais rígidos em escala global para controla a propagação.

As mudanças climáticas teriam algum papel neste cenário, já que os fungos gostam de calor e umidade? Os parâmetros são tão complexos que uma causa e efeito ainda não foi formalmente estabelecida. É certo, no entanto, que as doenças fúngicas têm um impacto sobre o clima: entre 230 e 580 megatoneladas de CO2 são lançados na atmosfera, em vez de serem absorvidas pelas árvores destruídas por fungos, calcula o estudo.