Ciência e Saúde

Melhor condição de vida proporcionou surgimento de religiões moralizantes

Pesquisa francesa baseada em análises estatísticas conclui que esse desenvolvimento, especialmente o maior acesso a alimentos, foi fundamental para o surgimento do cristianismo e o judaísmo, por exemplo

Isabela de Oliveira
postado em 14/12/2014 12:28
Pesquisa francesa baseada em análises estatísticas conclui que esse desenvolvimento, especialmente o maior acesso a alimentos, foi fundamental para o surgimento do cristianismo e o judaísmo, por exemplo

A religião é, fundamentalmente, uma busca pelo sentido da existência. Essa procura, entretanto, pode seguir em diferentes direções, que costumam mudar conforme evolui a sociedade. A transição dos deuses libertinos do Olimpo à abnegação cristã, por exemplo, foi um processo que não resultou apenas de um maior esclarecimento das populações antigas, mas, essencialmente, de um fator que, hoje, é considerado um deus sem religião: o dinheiro. Pelo menos é essa a conclusão de um artigo publicado esta semana na revista científica Current Biology.

Perguntas difíceis de responder até hoje ; e que levam milhares de pessoas a igrejas ou consultórios de psicologia ; começaram a intrigar a mente humana entre 500 a.C. e 300 a.C., período chamado de Era Axial pelo filósofo alemão Karl Jaspers em 1947. Na tentativa de dar conta de dilemas sobre a conduta social, o homem passou a criar doutrinas que defendem a conduta ética e moral, abrindo o caminho para religiões como o budismo, o islamismo, o judaísmo, o hinduísmo e o cristianismo.

Para a maior parte das pessoas, religiosas ou não, parece óbvio que a religião privilegia o mundo espiritual ao material. Mas o principal autor do estudo, Nicolas Baumard, pesquisador da Escola Normal Superior de Paris (ENS, na sigla em francês), defende que a realidade concreta tem um importante papel na formatação da religiosidade. Ele argumenta que, nas sociedades de caçadores-coletores e nos Estados arcaicos, a grande preocupação era afastar infortúnios naturais e assegurar a prosperidade no presente. Assim, as religiões consistiam em rituais, oferendas, sacrifícios e no respeito a tabus.

Não por acaso, diz o pesquisador, foi em lugares em que a natureza parecia mais generosa e os recursos começaram a abundar ; mais especificamente na Eurásia (perto dos rios Amarelo, Yangzi e Ganges) e na parte oriental do Mediterrâneo ; que uma nova relação com o sobrenatural surgiu. ;Essas novas doutrinas enfatizavam o valor de ;transcendência pessoal;, ou seja, a noção de que a existência humana tem um propósito distinto do sucesso material, e que se encontra na existência moral e no controle dos desejos pela moderação na comida, no sexo e na ambição, entre outros;, detalha o autor.



A transição espiritual, portanto, foi motivada por um maior conforto material, defende o pesquisador francês. Melhores condições de vida, particularmente as associadas ao acesso a alimentos e abrigo adequado, acenderam a centelha das religiões moralizantes e sua consequentes normas. ;Nessa outra realidade, os seres humanos não são apenas corpos, mas sim dotados de uma alma e podem sobreviver à morte de sua encarnação corporal. Mais importante, os indivíduos que perseguem o sucesso material são condenados. Apenas moderação do comportamento e a moral garantiria a salvação;, completa Baumard.

Professor do curso de filosofia da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), José Carlos Avelino da Silva, que não participou do estudo, ajuda a esclarecer a proposta do francês: ;No período bem primitivo, quando era muito selvagem, o homem compreendia que todas as coisas eram divindades, e tudo ; árvores, animais, terra ; era dotado de deuses. Se realizavam o culto e tinham resultado, as pessoas sabiam que estavam fazendo a coisa certa. Existia uma outra compreensão da realidade e, com isso, existia uma moral diferente;.

Lídice Meyer Pinto Ribeiro, professora de pós-graduação em ciências da religião da Universidade Presbiteriana Mackenzie de São Paulo, complementa dizendo que isso não significa que, para os primitivos, não existisse bem e mal. ;Só que, entre os povos mais antigos, o peso era igual;, afirma. Nas religiões que surgiram posteriormente, a coexistência desses dois conceitos permaneceu, mas com um peso maior para o lado positivo. ;No budismo, encontramos demônios internos que precisam ser combatidos, mas, mesmo assim, estão lá e não são eliminados;, ressalta.

Calorias

A análise de Baumard e colegas é amparada em testes que eles realizaram com várias teorias que buscam explicar a história das religiões, nos quais combinaram modelagem estatística e teorias psicológicas baseadas em abordagens experimentais. O método os levou a concluir que a riqueza, chamada por eles de ;captação de energia;, é o fator que mais influencia a espiritualidade ; superando a complexidade política ou o tamanho da população. O modelo criado por eles mostra uma transição brusca em direção às religiões moralizantes quando os indivíduos passaram a ter acesso potencial a cerca de 20 mil calorias diárias, o que sugeria que essas populações da Eurásia tinham atingido a segurança e a capacidade de planejar e se preparar para possíveis acontecimentos futuros.

Estudos psicólogos anteriores indicaram que a melhor estratégia para lidar com a escassez de recursos é a recompensa imediata. Poupar para o futuro ou pensar na vida após a morte é uma ocupação que só faz sentindo quando há certeza do que comer hoje. Nesse contexto, as pessoas podem abrir mão das recompensas imediatas e priorizar o amanhã. A ascensão econômica, concluem os autores, é a base para a abnegação, o altruísmo e a compaixão das novas doutrinas. Uma vez que as necessidades mundanas foram atendidas, a religião se deu ao luxo de projetar as recompensas espirituais para o além.

Esse processo, entretanto, não foi brusco. A transição, lembra Lídice Ribeiro, foi progressiva. O cristianismo, o islamismo e o judaísmo derivam do monoteísmo e do surgimento de Iavé, figura que foi confrontada com outras divindades. ;Era uma forma de ser diferenciado. Outras divindades tinham aparência e sentimentos humanizada, e Iavé também tem isso, mas sem a aparência humana ;, diz Lídice.

Nos textos mais antigos, é possível observar um Iavé que sente raiva, ciúme e se vinga. ;É uma figura espiritual, não humana e que, posteriormente, exige um comportamento de santidade, diferenciador, dos outros deuses. E aí entra a religião ética;, analisa a especialista. Por mais contraditório que possa ser, uma parte das religiões cristãs está retomando os conceitos de recompensa imediata, prometendo a felicidade na Terra e não no céu. Um fenômeno que Lídice classifica como pós-modernista, resultante da correria do dia a dia. ;A tendência é a busca por respostas rápidas para anseios e problemas. As novas igrejas que surgem têm esse conceito.;

DUAS PERGUNTAS PARA

José Carlos Avelino da Silva, professor do curso de Filosofia da Pontifícia Universidade Católica de Goiás e autor do livro Zeus e a Filosofia ; Religião e Individualidade da Grécia Antiga (Editora PUC-GO)

As religiões anteriores não tinham moral?
É senso comum que o Cristianismo instituiu o critério moral para definir o certo e errado. Por isso,
se diz que as religiões anteriores não tinham moral, mas na realidade, o que as religiões anteriores tinham era outro tipo de moralidade. Toda religião tem uma moral e proposta de comportamento. Na religião dos gregos antigos, o referencial de certo e errado era a vitória. Os 300 de Esparta foram para a Batalha das Termópilas sabendo que iam morrer nos desfiladeiros, mas por que? Para atrasar os pérsios em território grego, e possibilitar que eles organizassem a sua defesa. Eles tinham padrão moral e religioso, mas era da vitória.

Na opinião do senhor, qual o futuro das religiões?
Cada compreensão de realidade tem uma moral diferente. Hoje, por exemplo, o dinheiro é importante. Alguns autores dizem que é um deus sem religião porque todo mundo cultua, e o valor que a gente dá a ele é muito maior do que as possibilidades que ele oferece. Pode ser que seja a consolidação dessa tendência materialista, mas também pode ser que exista uma reação que já começou e que estimula o retorno das pessoas às religiões, tanto para o islamismo quanto para o cristianismo. Outro aspecto é que no mundo há muito machismo. Para a sociedade primitiva, o que existia era a deusa mãe. Ela era o alimento e a fertilidade, sendo o símbolo dela a mulher. Mas quando a agricultura substituiu a coleta, e houve também a diminuição da mulher em relação ao homem, veio à tona o deus masculino, e que representa as principais religiões. Quando a gente superar o arcaísmo da sociedade, vai existir um deus que não é nem homem e nem mulher, mas o Espírito Santo.

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