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Estado de Minas

Estudo revela que adultos não devem mudar pronúncia de palavras com bebês

O hábito de simplificar alguns termos prejudica desenvolvimento linguístico


postado em 08/02/2015 08:00 / atualizado em 08/02/2015 10:53

A reação é instantânea. Ao interagir com uma criança pequena, todo mundo afina a voz e passa a falar em um idioma incompreensível, formado por palavras estranhas e sons tão esquisitos quanto. Nem a mais sisuda das pessoas escapa do tatibitate e, diante daqueles toquinhos de gente, dispara coisas do tipo “té”, em vez de “quer”, “toio”, no lugar de “colo”, e por aí vai. Por mais que seja uma manifestação de carinho, contudo, pesquisas recentes indicam que isso pode ser prejudicial para o desenvolvimento da linguagem.

Um estudo publicado na revista Psychological Science, da Associação de Ciência Psicológica dos EUA, mostrou que, na maior parte das vezes, as mães falam com seus filhos de forma incompreensível. Os pesquisadores, do Laboratório de Desenvolvimento da Linguagem do Instituto de Ciência Cerebral Riken, em Tóquio, passaram cinco anos analisando 4,5 mil fragmentos de conversas com crianças, cada um deles com 30 segundos de duração. Os trechos foram gravados em 22 lares e reproduzem a interação verbal de mães com seus filhos de 18 a 24 meses e com um pesquisador.

Com a ajuda de um software, os cientistas estudaram diversos aspectos do discurso, incluindo o começo e o fim de cada consoante, vogal e frase. Então, eles aplicaram uma técnica, que eles mesmos desenvolveram, para medir a similaridade acústica entre duas sílabas, como “pa” e “ba” e “po” e “bo”. Foram examinados os 118 pares dos fonemas semelhantes mais frequentes usados tanto na conversa com adultos quanto na com as crianças. O resultado mostrou que, enquanto o diálogo com os pesquisadores era nítido e fácil de compreender, as conversas com os bebês, de tão floreadas, não permitia fazer a distinção de sons.

“Quando os adultos mudam a voz e transformam palavras para falar com crianças pequenas, eles fazem isso porque acreditam que, dessa forma, as palavras ficam mais simples”, afirma Alejandrina Cristia, linguista do Centro Nacional de Pesquisa Científica de Paris que participou do estudo. “Mas o que nossa análise mostrou foi o contrário. Esse jeito de falar não torna mais fácil a compreensão; pelo contrário, fica tudo mais complicado”, diz.

A pesquisadora lembra que bebês e crianças muito novas são como esponjas e absorvem rapidamente os sons. Por isso, na melhor das intenções, ao tentar facilitar o entendimento de uma palavra ou frase, os pais estão, na verdade, ensinando errado. Além disso, a linguagem tatibitate não existe no mundo real. “Fora do ambiente doméstico, as pessoas falam normalmente, isso pode causar uma confusão grande na cabeça da criança”, aponta a especialista.

Antes da fala
O psicólogo Daniel Swingley, pesquisador do aprendizado dos vocábulos na Universidade da Pensilvânia, conta que, embora bebês tipicamente comecem a falar por volta dos 12 meses, seus cérebros processam certos aspectos da linguagem muito antes disso. “Quando começam a falar, na verdade, eles já conhecem centenas de palavras”, revela. De acordo com ele, recentemente mostrou-se que, durante a infância, os bebês não aprendem apenas os sons em separado, mas a forma auditiva das palavras, ou seja, eles não prestam atenção apenas em uma sílaba, mas na palavra inteira.

“O processo permite que as crianças aumentem o vocabulário e as ajuda, no fim, a desenvolver a gramática. Mesmo sem saber o significado das palavras, crianças com apenas 8 meses já começam a aprender os sons que a formam e são capazes de reconhecê-las”, garante Swingley, que já fez inúmeros estudos de linguagem com bebês. “Daí a importância de falarmos corretamente com elas, mesmo que pareçam novinhas demais para nos compreender.”

 

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