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Estado de Minas

Material adicionado a combustível de aviação impede fogo após forte impacto

A invenção, que consumiu quase 40 anos de estudos, tem potencial para aumentar a proteção aos passageiros, garantem especialistas


postado em 03/10/2015 08:05

Prédio atingido por avião da TAM, que explodiu após o choque, matando 199 pessoas, em 2007: novo aditivo pode minimizar danos de acidentes como esse(foto: Iano Andrade/CB/D.A. Press/D.A Press)
Prédio atingido por avião da TAM, que explodiu após o choque, matando 199 pessoas, em 2007: novo aditivo pode minimizar danos de acidentes como esse (foto: Iano Andrade/CB/D.A. Press/D.A Press)
 

 

Em 1977, dois jumbos colidiram na pista do Aeroporto de Tenerife, na Espanha. O impacto produziu uma camada fina de combustível que rapidamente se transformou em uma enorme bola de fogo. Embora tenha ocorrido no solo, o acidente provocou a morte de 583 pessoas. Apenas 61 se salvaram. O trágico acontecimento — o pior da aviação comercial — estimulou mudanças na regulamentação do setor, que iam da padronização dos termos utilizados por pilotos e controladores à segurança dos combustíveis. Contudo, colisões seguidas por explosões continuam um grave problema para o setor e causam de 500 a 1.000 mortes anualmente em todo o mundo.

Agora, quase quatro décadas depois da tragédia espanhola, cientistas desenvolveram um aditivo que evita as explosões. Na edição desta semana da revista Science, um grupo de pesquisadores descreve como os polímeros podem, de fato, evitar a formação de substâncias voláteis inflamáveis. O produto passou por todos os testes de segurança, e a expectativa é de que, em breve, possa ser produzido em escala industrial.

Os motores dos jatos comprimem o ar juntamente a uma fina camada de querosene. A mistura desencadeia explosões controladas que, no fim, são o que impulsiona o avião. Sem elas, o veículo seria incapaz de voar. Contudo, o processo que distribui o spray de misting (nome dado ao combustível para a ignição) também faz com que o querosene disperse rapidamente no caso de um impacto.

No ano seguinte ao acidente de Tenerife, os Estados Unidos e a Inglaterra juntaram esforços para desenvolver aditivos que controlassem a formação do misting, que é muito mais inflamável que o querosene líquido. A ideia era que a adição de uma pequena quantidade de polímeros de cadeias muito longas poderia evitar a formação das gotículas de combustível no caso de colisões. O primeiro teste, contudo, foi um desastre. A demonstração, feita em 1984 com um avião controlado remotamente, acabou em mais uma explosão. No dia seguinte, os jornais estamparam a foto da aeronave em chamas. As manchetes afirmavam que milhões de dólares tinham ido pelos ares.

“Eu não pensava sobre o controle de névoa de querosene até Varinda Saroyiha, do Laboratório de Propulsão a Jato de Pasadena, me procurar em 2002”, contou, em uma coletiva de imprensa, a principal autora do artigo publicado agora na Science, Julia Kornfield, do Instituto de Tecnologia da Califórnia. Saroyiha foi parte da equipe que, em 1984, controlou a demonstração de impacto. “A imprensa, na época, não percebeu que, na verdade, o experimento foi um sucesso. Mesmo depois da bola de fogo se formar, as janelas do avião continuaram intactas”, disse Kornfield. O que deveria ser melhorado, afirmou, era o tipo de polímero usado na ocasião.

Velcro
A engenheira química foi desafiada por Saroyiha a desenvolver um aditivo que controlasse a névoa de querosene e eliminasse as deficiências da substância apresentada na década de 1980. “O momento de eureca aconteceu em 2006, quando Ameri David, então meu aluno de graduação na Caltech, usou um modelo teórico para desenhar polímeros que agissem como velcros, formando ligações fortes, mas reversíveis, com outros polímeros”, revelou a pesquisadora. Com o comprimento e a concentração corretas do material definidas, os cientistas se voltaram à produção do que Kornfield chamou de “velcro molecular”.

Há quatro anos, a equipe finalmente conseguiu traduzir, na prática, o modelo teórico proposto anos antes. Logo em seguida, começaram os testes de impacto para verificar a segurança do modelo. “Nós atiramos um projétil a 225km/h em um pequeno tanque de combustível e observamos”, descreveu a engenheira química. O querosene não tratado transformou o tanque em tochas flamejantes. Já aquele em que se adicionou o polímero não explodiu: no lugar do impacto, formou-se uma camada fina que impediu o aparecimento de chamas. Além disso, o material é compatível com os motores dos aviões modernos e não diminui a eficiência do combustível.

 

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