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Estado de Minas

Ácido fólico evita autismo, obesidade e cardiopatias, indicam estudos

Especialistas alertam para a importância de ingerir o composto na quantidade recomendada


postado em 11/01/2016 13:26

(foto: Arte/CB/DA Press)
(foto: Arte/CB/DA Press)
Belo Horizonte — No Brasil, 52% das mulheres engravidam sem planejar. O dado é da pesquisa Nascer no Brasil — Inquérito nacional sobre parto e nascimento, realizada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em 2014. Ou seja, mais da metade dos bebês do país não se beneficia do efeito protetor da suplementação periconcepcional (que antecede a gravidez) do ácido fólico, também chamado de vitamina B9. Isso porque a recomendação é de que a dose diária de 400 microgramas (ou 0,4 miligrama) deva ser iniciada 30 dias antes da gestação e perdurar durante o primeiro trimestre de gravidez. O benefício do uso dessa vitamina do complexo B na prevenção contra defeitos do tubo neural (DFTN) — como a anencefalia, a espinha bífida e a encefalocele — já está bem documentado e consolidado em estudos que se iniciaram há mais de 50 anos. Novas pesquisas, no entanto, ampliam o efeito protetor da vitamina B9 para a saúde da criança.

Professor titular de obstetrícia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Antonio Carlos Vieira Cabral cita que a suplementação do ácido fólico previne contra anomalias como lábio leporino e fenda palatina. “Além dos efeitos faciais, protege o feto das cardiopatias congênitas e das consequências negativas de fármacos que a mãe necessita usar durante a gestação — no caso de depressão e de epilepsia, por exemplo. Nessas situações, o ácido fólico antagoniza as ações desses medicamentos”, afirma.

Novas abordagens sugerem ainda uma proteção contra o autismo e a obesidade. “Temos pesquisado a importância da suplementação com ácido fólico contra esses problemas. Esse é um campo ainda sem limites, e é provável que, nos próximos anos, sejam descobertos outros benefícios nessa relação”, afirma o especialista. Cabral diz que o ácido fólico começou a ser usado de maneira empírica contra problemas na formação do tubo neural. “As gestantes tomavam e os pesquisadores observavam o resultado para, depois, ir atrás da explicação. Já, nos últimos 20 anos, as pesquisas têm o objetivo de entender o benefício da suplementação para evitar outras anomalias.”

O obstetra conta que, recentemente, estudos mostraram a interferência do ácido fólico na formação do DNA. “Além de ajudar o código genético, essa vitamina promove a expressão gênica, ou seja, facilita que os genes se expressem de forma adequada. Hoje, sabemos que o ácido fólico tem relação direta com a genética”, explica. Nessa nova abordagem, segundo Cabral, já se sabe que o folato tem ação sobre a maturação do neurodesenvolvimento dos fetos.

Erro de dosagem
Presidente da Comissão de Perinatologia da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) e professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Eduardo Borges da Fonseca afirma que o ácido fólico previne os defeitos do tubo neural entre 70% e 80%. Segundo ele, o protocolo de 400 microgramas durante 30 dias antes da gestação e no primeiro trimestre da gravidez é defendido pelas principais organizações de saúde do mundo.

No Brasil, segundo ele, o maior problema — além da falta de planejamento familiar, que impede a suplementação periconcepcional — é a dose fornecida pelo Sistema Único de Saúde (SUS), que não segue a prescrição internacional. “A Relação Nacional dos Medicamentos (Rename) determina que o medicamento esteja disponível em gotas na rede pública de saúde em uma dosagem de 0,2mg/ml — quantidade que seria adequada para o uso das gestantes. No entanto, as unidades básicas daqui disponibilizam o suplemento na dose de 5mg. O ácido fólico não está disponível na rede pública para prevenção contra defeitos no tubo neural, mas para tratar anemia”, salienta.

Eduardo Fonseca alerta ainda que a superdosagem de ácido fólico também tem repercussões negativas na saúde do feto. “Já existem estudos que associam altas doses dessa vitamina com alterações no desenvolvimento neuropsicomotor da criança”, diz. O professor da UFMG Antonio Carlos Vieira Cabral salienta que a dose de 5mg oferecida pelo SUS não pode ser diária. “O ideal é que se use a dose certa para evitar a superdosagem. Caso contrário, a suplementação pode ter um efeito paradoxal na criança, prejudicando o neurodesenvolvimento ou até propiciando uma malformação. Nunca se deve usar vitamina em excesso. Precisamos acabar com essa ideia equivocada de que ‘quanto mais vitamina, melhor’. A dose excessiva é tão prejudicial quanto a falta dela”, observa.

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Além de reforçar que o período mínimo para a suplementação periconcepcional é de 30 dias, o especialista explica que o período máximo pode ser de anos, desde que na dosagem correta. “Se a mulher não engravidar em 30 dias, ela continua com a dose diária de 400 microgramas.” Cabral acrescenta que o uso do ácido fólico pode ser estendido durante toda a gestação. “No segundo e terceiro trimestres, a suplementação visa à ação em outras estruturas. Do ponto de vista da maturação, a formação do cérebro não acaba em três meses, mas perdura até o fim da gravidez. Durante as 40 semanas, em qualquer momento, existe o risco de comprometer essas estruturas. Assim, o ácido fólico terá cumprido toda a sua finalidade: tanto na prevenção contra anomalias, quanto no auxílio da maturação do neurodesenvolvimento”, avalia.



Para saber mais

Fortificação não basta

Resolução da Agência Nacional de Vigilância Sanitária de 2002 tornou obrigatória a fortificação de farinhas de trigo e milho com ácido fólico e ferro em razão dos altos índices de anemia no país, além de outras doenças causadas pela deficiência dessas substâncias. Desde então, cada 100 gramas de farinha de trigo ou de milho devem conter 4,2 miligramas de ferro e 150 microgramas de ácido fólico.

O presidente da Comissão de Perinatologia da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, Eduardo Borges da Fonseca, afirma que essa fortificação minimiza o não planejamento da gravidez em relação ao efeito protetor periconcepcional da suplementação de ácido fólico. “Mas é preciso deixar claro que essa fortificação não substitui a necessidade de suplementação”, alerta.

O professor de obstetrícia da Universidade Federal de Mingas Gerais Antonio Carlos Cabral reforça que a prescrição recomendada pelas principais entidades de saúde ao redor do mundo leva em conta a fortificação das farinhas. “Com ela, as mulheres absorvem aproximadamente 70% do necessário da vitamina”, diz. Para ele, o grande problema de se confiar na fortificação é que não é possível saber se o que consta no rótulo está realmente sendo oferecido. “O ácido fólico não é barato e não são todas as empresas de alimentos que têm um controle rígido de qualidade”, acrescenta.


Falhas neurais
A incidência dos defeitos do tubo neural é de uma pessoa a cada mil nascimentos, sendo distribuída da seguinte forma:

40% de anencefalia
Ausência completa ou parcial do cérebro e do crânio. A anomalia é incompatível com a vida e enquadra-se em um dos casos em que o aborto é garantido por lei no Brasil

40% de espinha bífida
Defeito de fechamento ósseo posterior da coluna vertebral. A anormalidade congênita pode ser oculta e assintomática (espinha bífida oculta); apresentar as meninges expostas (meningocele) ; ou, além das meninges, a medula e as raízes nervosas expostas (mielomeningocele)

20% de encefaloce
Similar ao defeito de fechamento da coluna vertebral, só que ocorre na calota craniana. Ou seja, o cérebro e as meninges ficam expostos através dessa abertura. É como se uma pessoa tivesse sofrido um acidente de trânsito com perda de massa encefálica

(foto: Arte/CB/DA Press)
(foto: Arte/CB/DA Press)


Reforço alimentar
Veja o que incluir na alimentação e como preparar alimentos ricos em ácido fólico

Brócolis
Para preservar o ácido fólico, o ideal é cozinhar o vegetal rapidamente no vapor

Couve
Consumir crua ou cozida no vapor em saladas, sopas e caldos

Espinafre
Pode ser consumido cru ou cozido no vapor. Incrementa saladas, tortas, quiches, sopas e caldos

Fígado
Para aproveitar boa parte do nutriente contido nesse alimento, ele deve ser consumido ao ponto

Feijão
É importante consumir não só o grão, mas também o caldo, que, durante o cozimento, concentra grande parte do ácido fólico

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