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Correio Braziliense

Identificados genes relacionados a calvície e cabelos grisalhos

Consórcio internacional que conta com a participação de brasileiros identifica 18 genes ligados às características dos cabelos e dos pelos faciais. A descoberta deve ajudar, por exemplo, na criação de tratamentos contra a calvície e os fios grisalhos


postado em 02/03/2016 06:00 / atualizado em 02/03/2016 13:49

Uma visita ao barbeiro ou ao salão de beleza pode ter um grande efeito na aparência, mas os genes não mentem: as características dos cabelos e dos pelos faciais de cada um têm raízes que levam diretamente ao DNA. As diferenças na distribuição, no formato e na cor dos fios se devem a variações genéticas relacionadas à origem de cada população, uma variedade que um novo estudo ajuda a conhecer melhor. Com os dados de mais de 6,3 mil latino-americanos, um grupo internacional de cientistas identificou 18 genes que influenciam na formação do cabelo humano, 10 deles até então desconhecidos. Entre os achados, estão os primeiros fatores genéticos associados aos fios grisalhos, às sobrancelhas unidas e à espessura das sobrancelhas e da barba.

O material usado na pesquisa, publicada hoje na revista Nature Communications, fazem parte do Consórcio para Análise da Diversidade e Evolução da América Latina (Candela), grupo multidisciplinar que estuda características físicas, genéticas e sociais das populações de Brasil, Colômbia, Chile, México e Peru. Os dados coletados por meio do projeto, que conta com amostras de DNA de 10 mil pessoas, também serviram para analisar fatores genéticos envolvidos na cor da pele e no formato da orelha.

O novo trabalho parte da diversidade étnica latino-americana para identificar a origem das características herdadas dos europeus, dos povos africanos e dos nativos americanos. É a maior e mais diversa amostra já usada para um trabalho do gênero. “A América Latina é um lugar particularmente interessante para estudar a genética de características de cabelo. Sendo uma mistura de três diferentes ascendências continentais, a região é um caldeirão natural, onde a imensa diversidade genética e fenotípica que existe devido a essa mistura dá aos geneticistas um espectro muito mais amplo para pesquisar”, ressalta Kaustubh Adhikari, professor da University College London e principal autor do estudo.

Complexidade
Graças ao grande banco de dados, os pesquisadores puderam relacionar as diferentes características com marcadores genéticos, chegando a uma rede formada por 18 variações que influenciam na cor, no formato e na densidade dos pelos. Com base nessas informações, os cientistas podem, por exemplo, estimar a cor e o formato do cabelo de um indivíduo a partir de uma leitura de seu DNA, e até mesmo prever se ele tem chances de ficar calvo ou grisalho mais cedo. Algumas das variações encontradas influenciam mais de uma característica, como a que age ao mesmo tempo sobre a espessura da barba e da sobrancelha.

A pesquisa reforça a teoria de que todas essas características têm causa genética e que, portanto, são hereditárias. No entanto, os autores do trabalho ressaltam que ainda não é possível produzir um “retrato falado genético”, que descreva com precisão os traços de um indivíduo.

“Nada disso é isolado, e há características complexas. Dificilmente, pode-se achar uma mutação que vai ser responsável por uma única coisa. A gente fala que a mutação contribui numa certa porcentagem para determinada característica”, ressalta Tabita Hunemeier, que participou do trabalho quando fazia doutorado na University College London e hoje é professora da Universidade de São Paulo (USP). “É muito difícil haver uma mutação que leve diretamente a um fenótipo, porque os genes estão muito intricados entre si, e há características ambientais relacionadas”, aponta a brasileira.

Apesar do desafio, os autores puderam estudar características até então pouco compreendidas pela ciência, como o cabelo cacheado. A análise mostrou que o gene PRSS53 está envolvido na formação dos cachos, estimulando a formação de uma enzima que age no folículo do cabelo e molda a fibra capilar. Os pesquisadores acreditam que essa característica tenha sido adquirida como uma forma de regulação de temperatura. “Basicamente o cabelo cacheado ajudaria a pessoa a manter a cabeça mais fresca, particularmente nas regiões equatoriais, onde humanos inicialmente evoluíram. Da mesma forma, pode ser que o cabelo grosso e liso represente uma adaptação ao clima mais frio”, especula Adhikari. “É claro que tudo isso é muito difícil de provar, e não há estudos conclusivos que provem essa causa de seleção.”

Intervenção
Uma das grandes novidades do estudo está no gene IRF4, envolvido com a formação de cabelos brancos. Já se sabia que a perda de cor dos fios estava ligada a uma baixa na produção de melanina, mas a causa desse fenômeno ainda era desconhecida. A pesquisa revelou que uma importante variante genética ligada ao processo é encontrada apenas em indivíduos com sangue europeu, a mesma que já havia sido relacionada à incidência de cores claras de cabelo. Os autores acreditam que a descoberta pode ajudar na compreensão de outros aspectos do envelhecimento humano.

Os resultados também podem ser usados para novas pesquisas que revelem como essas variações do DNA influenciam na fibra capilar. “A partir do dado genético, sabemos que o gene é provavelmente funcional. Aí fazemos ensaios in silico (em simulações de computadores), in vitro e depois in vivo, com modelos animais”, explica Maria Catira Bortolini, pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e coordenadora da participação brasileira no consórcio. Alguns experimentos feitos com ratos já comprovaram, por exemplo, como os genes que influenciam na formação do cabelo influenciaram no pelo dos animais, resultando em fibras mais grossas e lisas.

 

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