Jornal Correio Braziliense

Ciência e Saúde

Aquecimento global já prejudica a saúde humana, aponta estudo americano

Agravamento de doenças crônicas e aumento dos casos de alergia estão entre os males citados pelo levantamento da Sociedade Torácica Americana

Para a comunidade médica internacional, o aquecimento global é uma realidade e já prejudica a saúde humana, mostra um estudo divulgado pela Sociedade Torácica Americana (ATS) ontem. Entre os principais problemas que as mudanças climáticas têm causado na população estão o agravamento de doenças crônicas, o aumento dos casos de alergia e um número maior de ferimentos provocados por eventos extremos, como tempestades e furacões.

A pesquisa conduzida pela ATS contou com a participação de 489 membros da entidade médica de 68 países ; o levantamento só foi feito com especialistas de fora dos Estados Unidos. Os voluntários responderam um questionário por e-mail no qual apresentavam suas crenças e conhecimentos a respeito das mudanças climáticas. Para 96% dos entrevistados, o fenômeno é real e está em curso, e 80% disseram que o aquecimento do planeta já traz um impacto grande ou moderado sobre a saúde da população de suas nações. Além disso, 70% julgam que o homem é um dos responsáveis pelo calor crescente no globo.

Segundo John Balmes, um dos autores do estudo e ex-diretor do Comitê de Políticas de Saúde e Ambiente da ATS, os dados corroboram os resultados mostrados em um levantamento anterior, feito em 2014 com médicos norte-americanos. ;A resposta dos médicos internacionais ressalta aquela dada pelos especialistas americanos, que também haviam notado um aumento na gravidade de doenças relacionadas à poluição, principalmente asma, doença pulmonar obstrutiva crônica, pneumonia e doenças cardiovasculares;, afirma o médico em um comunicado.

O levantamento publicado ontem, inclusive, indica que a comunidade médica internacional se mostra até mais preocupada que a norte-americana, na qual o índice de especialistas que já veem os efeitos do clima sobre a saúde ficou na casa dos 89%, 7% a menos que a taxa média observada nos demais países. ;Muitos itens sugerem que os respondentes internacionais percebem um impacto maior do aquecimento global sobre seus pacientes;, escrevem os autores no artigo, publicado na revista especializada Annals ATS.

Para 88% dos profissionais consultados é possível relacionar efeitos do aquecimento global com a maior severidade de doenças crônicas. O aumento de sintomas alérgicos provocados por plantas e mofo foi citado por 72% dos participantes, sendo seguido por mal-estar provocado pelo calor (70%), ferimentos decorrentes de eventos extremos (69%) e infecções causadas por vetores, como a dengue e o zika (59%). Diarreia e outros males causados por água ou comida contaminada também foram mencionados por 55%.

Acordo
Até agora, a principal medida tomada pela comunidade internacional para frear o aquecimento do planeta é o Acordo de Paris, um documento elaborado por todos os países-membros das Nações Unidas no fim do ano passado, na capital francesa. O pacto tem o objetivo de, por meio de esforços globais, impedir que o aquecimento da Terra alcance os 2;C, tendo como referência as temperaturas registradas antes da Revolução Industrial, no século 18.

Para entrar em vigor, o acordo necessitava ser ratificado por um mínimo de 55 países que, juntos, representassem pelo menos 55% das emissões de gases causadores do efeito estufa. Ontem, uma cerimônia das Nações Unidas celebrou o fato de essa meta ter sido alcançada na quarta-feira passada, graças à aprovação do documento pelos parlamentos de sete países da União Europeia. Com isso, o Acordo de Paris entrará em vigor em 4 de novembro. ;Graças a esse fato, as duas condições necessárias para que o acordo passe a valer foram alcançadas;, disse, à rede de tevê americana ABC, Laszlo Solymos, ministro do Meio Ambiente da Eslováquia.

O Brasil ratificou o tratado em 12 de setembro. Na Cúpula do Clima de Paris, no ano passado, o país assumiu a meta de reduzir as emissões de poluentes em 37% até 2025, e 43% até 2030, tendo como base o total emitido em 2005. Para especialistas, o Estado brasileiro não deve ter dificuldade em alcançar esse objetivo porque grande parte do trabalho foi feito na última década, especialmente graças à redução do desmatamento.

Valor indígena
Assegurar a posse de terras a indígenas que vivem na Amazônia pode trazer a Brasil, Bolívia e Colômbia lucros econômicos e climáticos que podem superar US$ 1 trilhão, afirma estudo divulgado ontem. As vantagens econômicas viriam de benefícios como água limpa, conservação do solo, polinização de culturas agrícolas, biodiversidade e controle de inundações. ;As terras indígenas com posse assegurada podem reduzir o desmatamento e absorver o carbono, reduzindo assim as emissões de gases de efeito estufa e ajudando a frear as mudanças climáticas;, afirma a World Resources Institute (WRI), ONG responsável pelo trabalho.

Para cada um dos três países analisados, foi feita uma estimativa diferente do quanto as terras indígenas poderiam gerar. A rentabilidade do Brasil oscilaria entre US$ 523 bilhões e US$ 1,165 trilhão nas próximas duas décadas. Para a Bolívia, esse valor é estimado entre US$ 54 bilhões e US$ 119 bilhões. E para a Colômbia, entre US$ 123 bilhões e US$ 277 bilhões. ;Há uma clara motivação econômica em assegurar que os povos indígenas tenham direitos seguros sobre suas terras. Garantir a posse da terra não só é o correto, é uma das estratégias de mitigação das mudanças climáticas mais rentáveis do mundo;, diz o presidente do WRI, Andrew Steer.

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