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Correio Braziliense

Parar de fumar também contribui para a diminuição da ansiedade

Vencida a abstinência dos primeiros meses de cessação do tabagismo, os ex-fumantes usufruem de melhoras psicológicas; estudos recentes indicam redução de sintomas depressivos e melhora subjetiva do bem-estar


postado em 30/10/2016 08:00 / atualizado em 30/10/2016 10:15

"Eu continuo ansiosa porque sempre fui, mas, agora, estou muito menos. Em termos pessoais, o que mais me satisfaz é dar o exemplo dentro de casa", diz a artesã Magali de Carvalho Ferreira, 57 anos (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
 

 

A vontade de parar até que existe, mas o medo de sofrer é maior. E, assim, muitos fumantes vão adiando a decisão, temendo se sentir ansiosos, deprimidos e mal-humorados sem o cigarro. Porém, eles estão enganados. Pesquisas indicam que o que acontece é justamente o contrário. Se é verdade que nos primeiros três meses a síndrome de abstinência deixa os nervos à flor da pele, depois desse período, há um incremento significativo na saúde mental e na qualidade de vida.

No maior estudo sobre o tema, epidemiologistas britânicos fizeram um apanhado de 26 pesquisas que avaliaram os níveis de ansiedade, depressão e estresse, entre outros aspectos, em fumantes e ex-fumantes. No total, entraram dados de mais de 10 mil pessoas, as quais responderam a questionários sobre autopercepção da saúde mental antes de pararem de fumar e depois. Também participaram desses levantamentos tabagistas que não abandonaram o cigarro. No fim, os que largaram o vício afirmaram se sentir menos ansiosos, estressados e deprimidos e mais positivos, não só em relação ao que eram antes, mas em comparação aos que continuaram fumando. Isso foi verificado tanto na população em geral quanto entre os participantes que tinham algum transtorno mental diagnosticado.

Outro estudo, da Universidade de Wisconsin (EUA), chegou às mesmas conclusões. Os autores investigaram mudanças na percepção de satisfação com a vida um ano e três anos após o início da pesquisa, feita com 1,5 mil fumantes e ex-fumantes. “Os que conseguiram parar, em comparação aos que não, reportaram melhora subjetiva no bem-estar, o que pode motivar aqueles que se preocupam sobre como será a vida sem cigarros”, concluíram os pesquisadores.

Os motivos por trás desse incremento ainda não foram totalmente esclarecidos, embora os especialistas levantem algumas hipóteses. “Há várias questões. Por exemplo, o desconforto entre um cigarro e outro acaba. A pessoa consegue ver um filme inteiro sem sentir essa agonia, o que leva à melhora na qualidade de vida”, exemplifica a psiquiatra especialista em dependência química Helena Moura, idealizadora do programa Viva sem Cigarro, de Brasília. “Outra causa importante da baixa qualidade de vida é a insônia, e a nicotina afeta o sono”, diz.

O psiquiatra João Maurício Castaldelli, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) e especializado em tabagismo, destaca a importância da chamada autoeficácia: “Quando você consegue vencer algo tão forte quanto o tabagismo, isso levanta a autoestima, e a diminuição da autoestima é justamente uma das mais fortes características da depressão”, afirma. Ele também explica que, recentemente, foi proposto que o uso crônico do tabaco pode desencadear sintomas depressivos. “Não é que o cigarro induza ao quadro depressivo completo, mas pode piorá-lo ou causar alguns sintomas.” Essa associação também é citada pelos pesquisadores do estudo britânico como uma das possíveis causas da melhora do bem-estar mental percebida pelos ex-fumantes.

A nova Magali

Depois de quatro décadas fumando, há dois anos e oito meses, a artesã Magali de Carvalho Ferreira, 57 anos, finalmente apagou  o último cigarro. Ela admite que não foi fácil. “Eu fumava dois maços por dia. Foi um caminho longo que tive de percorrer. Não dá para deixar a relação de uma vida que você tem com o cigarro de uma hora para outra”, diz. Para conseguir largar o vício, Magali participou de um programa oferecido pelo Hospital Universitário de Brasília (HUB), que está suspenso temporariamente. “Sou naturalmente ansiosa e, durante o tratamento, a médica responsável me deu ansiolítico e adesivo (de reposição de nicotina)”, conta.

Magali também  participou das reuniões, que incluíam terapia de grupo.  Em 25 de janeiro de 2014, jogou fora o último cigarro. Nos três primeiros meses, sofreu. “Eu continuo ansiosa porque sempre fui, mas, agora, estou muito menos. Em termos pessoais, o que mais me satisfaz é dar o exemplo dentro de casa para meus filhos de 26 e 31 anos. Hoje, fico pensando como eu podia fumar, parece que era uma outra pessoa.”

A psiquiatra Helena Moura, especialista em dependência química, explica que existe uma forte associação entre tabagismo e saúde mental. Pessoas que sofrem de transtornos como ansiedade e síndrome do pânico têm risco quatro vezes maior de fumar, comparadas à população em geral, e chance 25% menor de conseguir parar. “A explicação para essa associação ainda não está bem esclarecida. É possível que esses indivíduos valorizem mais o efeito do cigarro neles, seja de prazer, seja de melhora na concentração, por exemplo, ou que sofram mais com os efeitos da síndrome de abstinência. O medo de ter piora da depressão ou da ansiedade também pode ser uma barreira importante na hora de decidir parar de fumar”, diz.

 
Entrevista // Renata Marques de Oliveira

No Brasil, a investigação da prevalência de tabagismo entre pessoas com transtornos mentais é rara. Um dos poucos trabalhos sobre o tema foi desenvolvido pela enfermeira Renata Marques de Oliveira, pesquisadora da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP) da Universidade de São Paulo (USP). Em 2013, ela fez um estudo na enfermaria psiquiátrica do Hospital das Clínicas de Marília com 270 pacientes de transtorno de humor, esquizofrenia, e transtornos neuróticos e relacionados ao estresse, entre outros. Desses, 35,6% fumavam, um percentual acima da população brasileira em geral, que é 17,5%. O índice de fumantes foi maior nos pacientes com esquizofrenia.

 

De acordo com a pesquisadora, 84,4% dos pacientes já tentaram abandonar o vício, mas 67,7% não recebeu apoio. Em entrevista ao Correio, ela explica que os próprios profissionais da saúde ainda estão despreparados para tratar de tabagistas que sofrem de transtornos mentais, justamente por ser um tema pouco explorado no Brasil. “A percepção de que o cigarro seria um 'mal menor' é desacreditar que a vida do paciente psiquiátrico vale tanto quanto a de qualquer outro ser humano”, critica. (PO)

 

O que pode explicar a prevalência maior de tabagismo entre pacientes de transtornos mentais?

O cigarro foi utilizado, por muitos anos, nos hospitais psiquiátricos, como forma de recompensar os “bons” comportamentos dos pacientes. Essa prática contribuiu para a disseminação do tabagismo entre entres – pacientes que antes não fumavam começaram a fumar, incentivados por outros pacientes ou simplesmente para não se sentirem diferentes dos demais. O segundo fator está relacionado à sintomatologia dos transtornos mentais. Muitas pessoas com transtornos mentais começam a fumar como tentativa de aliviar os sintomas psiquiátricos, como a ansiedade e a depressão. No entanto, pesquisas mostram que a utilização do tabaco como forma de automedicação é ilusória, visto que o tabaco agrava os sintomas e não os alivia. Um terceiro fator está relacionado à sensação de alívio dos efeitos colaterais dos medicamentos psiquiátricos que muitas pessoas com transtornos mentais referem após fumar tabaco. Entretanto, a pessoa apresenta “menos” efeitos colaterais não porque eles sejam aliviados com o tabaco, mas porque ela deixa de apresentar em sua corrente sanguínea a concentração do medicamento que seria necessária, devido à interferência do tabaco no metabolismo dos psicofármacos no sistema hepático.


No caso específico da esquizofrenia, já se sabe por que essa associação é ainda mais intensa?

Existe uma forte relação do tabaco no alívio de alguns sintomas característicos do transtorno, como dificuldade de concentração e memorização, falta de vontade em desempenhar as atividades diárias e lentidão psicomotora. Isso ocorre porque o tabaco contribui para o aumento da atividade de um neurotransmissor chamado dopamina no córtex pré-frontal. Ao perceber a melhora desses sintomas, o esquizofrênico passa a consumir uma quantidade cada vez maior de cigarros na tentativa de se automedicar. No entanto, é preciso deixar esclarecido que esse efeito é temporário e não justifica os inúmeros prejuízos que o tabaco ocasiona nessa população. O tabaco agrava os sintomas positivos da esquizofrenia (delírios e alucinações), causando inúmeros prejuízos para essa população.


Para o fumante com transtorno mental, a experiência de tentar parar é mais difícil que a vivenciada pela população tabagista em geral?

Certamente. Além da dependência física do tabaco que costuma ser mais intensa, muitos fumantes com transtorno mental apresentam também dependência psicológica do tabaco, considerando o cigarro como um amigo/companheiro nos momentos de dificuldade. Além disso, a experiência de tentar parar de fumar pode ser mais difícil pela falta de apoio tanto dos profissionais de saúde como dos familiares que muitas vezes os incentivam a continuar fumando por receio de que o transtorno mental seja agravado com a retirada do tabaco. Embora não seja verdade, é uma crença de muitos profissionais e familiares.


Os profissionais de saúde estão preparados para lidar com o paciente que, além de sofrer de transtorno mental, é tabagista?

Os profissionais não estão preparados e isso é compreensível ao lembrar que é um tema pouco estudado no Brasil. A percepção de que o tabagismo seria um “mal menor” é bastante presente no relato dos profissionais de saúde. Isso é desacreditar que a vida do paciente psiquiátrico vale tanto quanto a de qualquer outro ser humano. Se colocarmos na balança, os prejuízos do tabagismo para as pessoas com transtornos mentais superam qualquer benefício ou vantagem temporária que eles possam obter com o fumo do tabaco. 

 

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