Publicidade

Correio Braziliense

Pesquisa britânica aponta gatilhos para o estresse moderno

Medo de assalto, problemas financeiros, divórcio, atrasos no trânsito e até mesmo o pavor de perder o smartphone estão entre os eventos que assustam população hoje


postado em 19/03/2017 06:00 / atualizado em 18/03/2017 22:06

Quando o homem primitivo se deparava com uma ameaça — um animal feroz, por exemplo —, seu cérebro rapidamente acionava o mecanismo de luta ou fuga. Para auxiliá-lo na tarefa de enfrentar o perigo ou tentar se desvencilhar dele, o sistema nervoso autônomo coordenava uma série de respostas, como a liberação de hormônios, o aumento da pressão arterial e da frequência cardíaca, e a dilatação dos brônquios e das pupilas. As consequências mais comuns eram palpitação, boca seca, sudorese, respiração rápida e curta e tensão muscular. Se essas sensações parecem familiares, é porque, de fato, o são. Isso se chama estresse.


Passados milhares de anos da evolução humana, as feras continuam soltas. No lugar de leões e tigres, porém, estão medo de assalto, problemas financeiros, divórcio, atrasos no trânsito e até mesmo o pavor de perder o smartphone. Um estudo conduzido pela Sociedade de Fisiologia da Inglaterra com 2 mil pessoas identificou os 18 eventos da vida moderna que mais estressam a população.

 

No topo da lista, está a morte de cônjuge, parente ou amigo, seguida por aprisionamento, destruição da casa por incêndio ou enchente, medo de ficar seriamente doente, perder o emprego, separação/divórcio, ter a identidade roubada, problemas financeiros inesperados, começar em um novo emprego, planejar o casamento, chegada do primeiro filho, atrasos no transporte público, ameaça terrorista, perder o celular, se mudar para uma casa maior, o Brexit (saída do Reino Unidos da União Europeia), sair de férias e promoção/sucesso no trabalho.

A pesquisa foi inspirada em um célebre estudo de 1967 no qual os psiquiatras Thomas Holmes e Richard Rahe examinaram os registros médicos de 5 mil pacientes para verificar se eventos estressantes poderiam provocar doenças sérias. Essas pessoas foram convidadas a dar uma nota de 0 a 10 para 43 fatos/ocorrências, de acordo com o nível de estresse desencadeado.

 

O resultado do trabalho foi a Escala de Estresse Holmes Rahe, que não só confirmou a relação entre a resposta fisiológica ao medo e à ansiedade e a diversas enfermidades, como se tornou uma referência em todo o mundo, citada centenas de milhares de vezes em artigos científicos nos últimos 50 anos.

O estudo de agora evidencia que, passado meio século de Holmes Rahre, os medos são outros. Muitos itens da escala original foram mantidos, mas os pesquisadores tiveram de adaptá-la à realidade atual. “O mundo moderno trouxe com ele um nível de estresse que não poderíamos ter imaginado há 50 anos, como as redes sociais e os smartphones”, comenta Lucy Donaldson, presidente do Comitê de Políticas da Sociedade Fisiológica. Se entraram itens tecnológicos, alguns tornaram-se tão obsoletos que foram cortados. Por exemplo, “esposa começando a trabalhar fora”.

Além dos itens apresentados pelos pesquisadores, os entrevistados podiam fazer citações espontâneas. As mais comuns foram o carro quebrar, ficar preso no trânsito e participar de entrevista de emprego. Também foram citadas com frequência as responsabilidades de cuidar de doentes e idosos e a doença e a perda de animais de estimação. O escrutínio das mídias sociais e as brigas em festas de família também entraram na lista.

Pior para elas

De acordo com os autores do relatório, uma das constatações que mais chamaram a atenção foi a de que mulheres percebem todos os 18 eventos da lista como mais estressantes que os homens. Em média, a diferença na pontuação foi 0,56, sendo que a maior diferença se refere ao medo de terrorismo (1,25 pontos a mais). Como o estudo não teve como foco o recorte de gênero, os pesquisadores ressaltaram que não podem dizer, apenas com base na escala, o motivo de o sexo feminino, aparentemente, ter uma sensibilidade maior ao estresse.

O neuropsiquiatra Fábio Aurélio Leite, do Hospital Prontonorte e membro da Sociedade Brasileira de Psiquiatria, explica que, ao longo da vida, as mulheres enfrentam dois tipos de estresse que não afetam os homens: o físico e o social. “O corpo da mulher é muito maltratado do ponto de vista fisiológico. Todos os meses, elas vivem em uma gangorra de estrógeno e progesterona, sentem dor, cólica, têm tensão pré-menstrual. Na gestação e no parto, elas sofrem muitas agressões. O parto é uma coisa linda, mas agride o corpo”, observa.

Somados a isso, estão os desafios de uma sociedade regida pela interpretação masculina dos fatos, diz o médico, que está escrevendo um livro em que aborda o machismo. “Acho que o machismo é o grande fator estressor. As dores do corpo são inevitáveis, mas há dores, como as sociais, que poderiam deixar de serem sentidas.”

Os múltiplos papéis que se espera que a mulher desempenhe são apontados por Vladimir Melo, especialista em Psicologia Clínica pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP), como importante fator estressor do sexo feminino. “Algumas pessoas são mais resilientes ao estresse, mas a mulher acumula mais responsabilidades e pode receber uma carga maior dos estímulos estressores”, afirma o psicólogo, lembrando que o estresse crônico pode desencadear uma série de problemas físicos. “A repercussão costuma ser no corpo. Todas as pessoas têm um órgão alvo.”

No caso da cirurgiã Thereza Nogueira, 30 anos, o alvo é a cabeça. Ela sofre de enxaqueca crônica e lamenta se importar em excesso com pequenas coisas do dia a dia. “É engraçado que, com coisas muito estressantes, eu fico calma. Durante uma cirurgia, por exemplo”, diz. “Mas me estresso com as coisas mais simples, como engarrafamento e problemas de trânsito. Noutro dia, um carro fechou o meu no comércio da entrequadra. Eu tinha de trabalhar e ir a um congresso depois. Fiquei 15 minutos buzinando, depois comecei a xingar”, admite.

Thereza faz residência no Hospital Universitário de Brasília e tem uma carga puxada. Sai de casa às 6h30 e só retorna às 20h30. “É exaustivo. Quando volto, ainda tenho de cuidar da minha cachorrinha e arrumar a casa. A única coisa que me relaxa é a companhia da Sushi”, diz, sobre a filhote de 10 meses.

"O corpo da mulher é muito maltratado do ponto de vista fisiológico. Todos os meses, elas vivem em uma gangorra de estrógeno e progesterona, sentem dor, cólica, têm tensão pré-menstrual. Na gestação e no parto, elas sofrem muitas agressões. O parto é uma coisa linda, mas agride o corpo”
Fábio Aurélio Leite, neuropsiquiatra do Hospital Prontonorte e membro da Sociedade Brasileira de Psiquiatria

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade